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Conheça a trajetória do casal que trocou a cidade grande pela vida no campo

Morando no interior de Jaguaré, no Norte do Espírito Santo, eles começam colher os frutos de vários anos de trabalho e muitos obstáculos vencidos

por Rosimeri Ronquetti

em 08/02/2024 às 5h10

6 min de leitura

Conheça a trajetória do casal que trocou a cidade grande pela vida no campo

Fotos: arquivo pessoal

*Matéria publicada originalmente em 16/01/2023

Quem chega ao Sítio Nova Esperança na comunidade São Domingos, interior de Jaguaré, não imagina que os responsáveis por todo o cultivo é um casal que, há menos de dez anos, morava na maior metrópole do país e levava uma vida completamente urbana.

Em busca de tranquilidade, o paulista Fábio Nicolau de Souza (37) e a capixaba Valquíria Pagung (34) resolveram se mudar de São Paulo para o interior do Espírito Santo e trabalhar com agricultura. Até aí tudo bem. No entanto, nenhum dos dois tinha experiência com o meio rural.

E até chegar a uma produção anual de 18 toneladas de pimenta-do-reino e uma lavoura de conilon com produção média de 100 sacas por hectare, números de 2022, os desafios foram muitos. Eles trabalham ainda com hidroponia, aquaponia para criação de tilápia e iniciaram a produção de baunilha.

Se a gente for contar tudo que passamos enche um livro. Colar um simples cano de irrigação era um desafio. A gente não sabia, os vizinhos vinham nos ajudar e riam, perguntavam o que estávamos fazendo. Chegava um e ensinava algo de uma maneira, vinha outro e dizia que não era daquele jeito, e nós perdidos sem saber o que era o certo. O começo foi realmente muito difícil”, esclarece Valquíria.

Mas, desistir nunca passou pela cabeça dos dois. Um exemplo dos apuros pela falta de experiência foi com a pimenta. Os 7.000 pés da especiaria foram plantados usando o nim indiano, tutor vivo que substitui a estaca de eucalipto. Porém, fizeram o plantio ao mesmo tempo. Resultado: a pimenta nasceu e cresceu rapidamente e o nim, por se tratar de uma árvore, não acompanhou.

Orientados por um técnico agrícola, os neo-rurais colocaram estacas de um metro e meio até que o nim crescesse, mas não adiantou. A pimenta tomou conta das estacas e, sem ter para onde subir, os pés começaram a cair.

 

Conhecimento e apoio técnico

Para Fábio, o início foi “desesperador”, mas ele nunca pensou em desistir. A “salvação da lavoura” veio pelas mãos do Josember Lima Passos, técnico de campo, no programa de Assistência Técnica e Gerencial (Ateg), do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES), que atende a região.

A plantação parecia um jogo de varetas. Tombou tudo, pimenta para um lado, estaca para o outro, tudo embolado. O desespero foi levantar a pimenta toda. Com muita paciência e cuidado fomos fazendo as escoras. Foi preciso passar arame em toda plantação para fazer o ajuste no tutoramento da pimenta. Doloroso mesmo”, explica Josemberg.

O técnico chegou até a propriedade quando Fábio, para suprir a demanda da falta de conhecimento e informação, procurou o Sindicato Rural do município em busca de aprendizado e conheceu a Ateg. Além do curso de administração rural, exigência para fazer parte do programa, o agricultor fez diversos treinamentos.

As dificuldades eram muitas. E quando surgiu a possibilidade de fazer parte do Ateg, foi uma oportunidade de ter direcionamento, de conseguir conhecimento. No curso de poda e desbrota, por exemplo, aprendi a poda programada e tivemos resultados muito bons na lavoura. O curso de identificação de pragas e doenças de pimenta-do-reino abriu nossos olhos para alguns problemas que a gente não sabia. E através do curso de classificação e degustação de café, conseguimos fazer alguns ajustes e produzir um café melhor para participar do concurso de qualidade de Jaguaré”, conclui Fábio.

Com o passar dos anos e a necessidade de saber ainda mais sobre a atividade diária, o casal iniciou a faculdade de agronomia. “Durante o dia, trabalhamos e, à noite, estudamos. Aprendemos muitas coisas na prática e ainda estamos aprendendo, mas a gente tinha esse desejo de aprender e saber mais sobre o que nós fazemos, por isso resolvemos enfrentar mais esse desafio”, conta Valquíria, que está no 6º período do curso.

Bons frutos

Após oito anos de trabalho e muitos obstáculos vencidos, Fábio e Valquíria começam colecionar vitórias. Em 2022, o café do casal ficou em 4º lugar no 1º Concurso de Conilon de Qualidade de Jaguaré. A conquista trouxe mais oportunidades para a família.

Após a premiação, o café, de nota 80,60 e batizado como “Zakafé”, está sendo processado para uso próprio e comercialização. E com o dinheiro do prêmio, R$ 2.500, eles compraram uma máquina de desidratar frutas. “Nós percebemos que muitas frutas se perdiam no quintal, então decidimos comprar a máquina e investir também nas frutas desidratadas. Muita gente ainda não conhece, mas estamos fazendo um trabalho em parceria com os supermercados e as pessoas estão gostando”, conta a agricultora.

Pouco conhecida, a aposta mais recente dos agricultores é a produção de baunilha. São apenas três pés, o suficiente para experimentarem maneiras de comercializar a especiaria. Eles estão embalando a vácuo e fabricando o extrato da baunilha.

Para Josemberg, “para muitos, pode ser um exemplo de sorte, de quem resolveu sair da cidade e se deu bem no campo, mas a verdade é que são muito trabalhadores”. Ele lembra ainda que, quando assumiu a assistência técnica e gerencial da propriedade, a família já fazia anotações de tudo. O desafio foi transformar as informações em negócio rentável.

Eles tinham dificuldades de gerir e executar as atividades rotineiras da propriedade e a rentabilidade estava baixa. Organizei os momentos de adubar, corrigi irrigação, capina química e/ou manual e o manejo de pragas e doenças. Atualmente, trabalhamos com planejamento anual das atividades e mensalmente faço ajustes. Hoje, a família goza do mesmo conforto de quem mora na cidade, possuem bons equipamentos de pós-colheita e manutenção de lavoura”, destaca o técnico de campo.

 

Outro mundo

Morando de meeiros da irmã de Fábio, a produção de café e pimenta faz parte do contrato. Já a plantação de hortaliças, no sistema de hidroponia, a criação de tilápias e a produção de baunilha, são só da família.

Perguntamos se pensam em voltar para São Paulo e a resposta foi categórica: “voltar só em caso de extrema necessidade. Pelo contrário, o projeto é comprar o nosso próprio terreno”, frisa Valquíria.

Ela enfatiza ainda que a “qualidade de vida não tem nem comparação. Viemos com duas filhas pequenas, hoje com 17 e 11 anos, e foi muito bom para educação e criação das meninas. Financeiramente também estamos muito bem, não temos do que reclamar”.

 

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