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*Matéria originalmente publicada em 19 de dezembro de 2018
O Espírito Santo é o maior exportador de mamão do Brasil e também está entre os maiores produtores nacionais da fruta. Nos 110 anos da imigração japonesa no Brasil, o agro capixaba deveria dizer “arigatô ” aos responsáveis historicamente por este marco. Os nipônicos foram os pioneiros no cultivo de Papaya no norte do Estado. Embora não estejam mais envolvidos com a cultura, eles continuam a semear tradição no agronegócio capixaba.
Quem conta essa história é o sansei Mário Kuboyama, de 65 anos, do município de Sooretama. Originário de Itapeva (SP), o pai do agricultor, o nissei Kossuke Kuboyama (batizado pelos capixabas como “Antenor ”), morto em 2013, chegou ao Estado com a família Fukuda na década de 1970 para trabalhar com reflorestamento em São Mateus e, posteriormente, em Linhares.
No segundo município, conheceu Ermando Caliman, que lhe propôs o plantio experimental de 2.000 pés de mamão Papaya. “Antenor ” já era agricultor em São Paulo, de onde trouxe as primeiras mudas, e dedicou 15 anos ao cultivo de mamão.
“Antes, ele achava que a fruta era comida de porco. Por ser menor que o mamão paulista, foi difícil aos pioneiros conseguirem mercado para o Papaya nos primeiros anos. Mas logo os negócios da família Caliman se expandiram, foi fundada a ‘Caliman Agrícola’ e o mamão passou a ser exportado ”, conta Kuboyama.
Ainda nos anos 1970, a família adquiriu propriedades em Sooretama administradas até hoje por Mário e mais dois irmãos. A produção de mamão, limão Taiti e macadâmia deram espaço para tomate, pimenta-do-reino e piscicultura numa área de 54 hectares na região central da cidade nortista.
O sansei, que foi professor de matemática, secretário de Agricultura e fundador do Sindicato Rural de Sooretama, conta com apoio da mulher e dos filhos nos cultivos e beneficiamento de tilápias.
Para o filho do meio, o engenheiro florestal Filipe Akira (28), a contribuição nipônica ao agro capixaba está no conhecimento e na disciplina. “O japonês leva isso para todos os setores da vida. Meu avô era uma pessoa muito disciplinada e determinada, que não usava muito a teoria, mas vivia testando novas técnicas. Fomos educados com o desenvolvimento da agricultura na região. Hoje, levo meu avô como referência ”, diz o yonsei.
A caçula dos Kuboyama, a engenheira de alimentos Bárbara Keiko (25), destaca a importância do avô “Antenor ” no crescimento de Sooretama. “Além do pioneirismo nos plantios de mamão, meu avô empregou muita gente na região. Se perguntar na rua, com certeza alguém já trabalhou com algum Kuboyama na roça ”.
Presença no ES
Não houve uma imigração direta do Japão para o Espírito Santo. De acordo com a Associação Nikkei de Vitória (ANV), há dados imprecisos sobre uma suposta chegada dos primeiros imigrantes no ano de 1923.
A partir da década de 1970, os japoneses passaram a desembarcar em massa na capital capixaba atraídos pela Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), que tinha uma empresa japonesa como acionista. Os descendentes da Terra do Sol Nascente que se fixaram no Estado são provenientes de outros Estados brasileiros, a exemplo de São Paulo e Paraná.
“A vinda dos japoneses para a indústria era a garantia de mão de obra especializada ”, afirma o presidente da ANV, Antônio Nokai.
Formada por aproximadamente 100 famílias, a Associação Nikkei perpetua a cultura oriental em meio aos costumes brasileiros. Segundo Nokai, a entidade chegou a firmar um intercâmbio em agropecuária com a Província de Oita, ao sul do Japão, porém as ações não foram adiante. “Enviamos três estagiários para lá, mas faltou compromisso do governo do Estado na época para cultivar relacionamentos ”.
Pesquisador de café produz borracha com apoio de cooperativa
Ao contrário de outros profissionais nipônicos, Hikoto Hashizume (75) não veio para o Espírito Santo em 1970 para trabalhar na indústria. Nascido em Paraguaçu Paulista (SP) e formado em agronomia em Viçosa (MG), o nissei chegou ao Estado com 27 anos para comandar pesquisas de combate a ferrugem do café.
Hashizume passou em um concurso do extinto Instituto Brasileiro de Café (IBC) onde sua missão era estudar o café arábica no período subsequente à erradicação das lavouras. Ele conta que atendia praticamente todo o território capixaba, numa época de poucas estradas, casas sem energia elétrica e café secado no chão.
“Ia muito a Marilândia e Venda Nova, que deveria ter só umas dez casas ”, brinca. “O Espírito Santo mudou muito. A agricultura estava abandonada, o governo não ajudava em nada. Na década de 1970, os agricultores eram tão pobres que nem tinha como eu pedir almoço. Se eu não levasse marmita, não tinha jeito de comer ”, recorda-se o agrônomo.
Com a extinção do IBC em 1990, as pesquisas na área de cafeicultura foram assumidas pelo Ministério da Agricultura, onde o filho de japoneses permaneceu até 2013, quando se aposentou. Durante a carreira, cerca de 20 trabalhos científicos foram publicados em congressos brasileiros de cafeicultura.
Atualmente, Hashizume toca duas propriedades, uma em Timbuí, zona rural de Serra, e outra em Santa Teresa com produção de borracha natural e café Conilon. Seu Hikoto recebeu nossa reportagem no escritório do Sítio Rio Verde, em Timbuí, mantido em sociedade com um amigo desde 1987.
Dos 166 hectares de terra, 30 ha são ocupados por seringais, que dividem espaço com 40 ha cultivados com Conilon. As seringueiras foram plantadas nas estradas de acesso aos cafezais como alternativa à queda de preço do café naquele ano. “Meu diretor do IBC sempre dizia que quem dava assistência a produtor rural também deveria comprar um pedacinho de terra para ter firmeza no que iria falar ”, conta.
O sítio produz 70 mil quilos de borracha natural por ano. A matéria-prima vai direto para o posto de recebimento da Cooperativa dos Seringalistas do Espírito Santo (Heveacoop), de Vila Velha, que atende fabricantes de pneus como Firestone e Michelin.
Para Hikoto Hashizume, sem a cooperativa seria impossível levar a atividade adiante. “A borracha é pegajosa, dá malcheiro e tem que ter instalação própria. A cooperativa já vem com caminhão, pesa e leva. Já pensou se eu tivesse que levar minha borracha direto para a fábrica da Michelin lá na Bahia? ”.
O agricultor considera o povo japonês “trabalhador e insistente. Não desiste no primeiro obstáculo, na primeira batalha perdida ”. Hashizume vê uma ligação íntima do cooperativismo com a cultura nipônica. “Funciona na nossa cultura por causa da união de pessoas. Sempre falam: onde junta dez japoneses pode ver que tem uma cooperativa. Cooperativa é uma forma de pequenos se tornarem fortes e faz o que uma pessoa sozinha sozinho não consegue fazer ”, finaliza.
Liderança no Caparaó
De gueixa ela não tem nada. A empresária e cafeicultura Cecília Nakao, moradora de Pedra Menina, em Dores do Rio Preto, na região do Caparaó, é a principal agitadora da localidade em busca do reconhecimento da excelência dos cafés produzidos no caminho para o Pico da Bandeira.
Paulista, essa filha de japoneses largou o trabalho como comissária de bordo no Rio de Janeiro para cultivar cafés e tocar uma pousada. Diz que sempre acreditou no potencial da cafeicultura da região e passou a aplicar técnicas de manejo orgânico e secagem para atingir qualidade.
Cecília acabou estimulando os vizinhos a fazerem o mesmo e, hoje, o Caparaó ganhou notoriedade pelos cafés de altíssima qualidade, além de ser sede de eventos com a participação de compradores, exportadores e baristas.

Curiosidades
Receita de sushi
Além de dar suporte à família em Sooretama na produção de pimenta e na piscicultura, a jovem Bárbara Kuboyama, que você conheceu na primeira parte da reportagem, mantém uma tradição familiar. Ela herdou da avô nissei uma receita do sushi original, que “não leva creme cheese como no Brasil ”. Junto com uma prima, ela criou um serviço de delivery, mas não revela o segredo da comida para ninguém.
Casamento arranjado
Os costumes japoneses acompanham a vida do agrônomo aposentado Hikoto Hashizume. Ele conheceu a mulher, a nissei Tokiko Takeuchi (72), em Mogi das Cruzes (SP), por intermédio dos pais. As famílias já eram amigas e prometeram unir os jovens quando atingissem idade para se casar. Juntos, Hikoto e Tokiko tiveram quatro filhos, três mulheres e um homem que, assim como o pai, é formado em agronomia. A família mantém o hábito de jantar todas as noites uma sopa feita com massa de soja, o “Missoshiru ”.
Palmito pupunha
Outra família de destaque no agro capixaba do norte do Estado é a do agricultor Tadashi Fukuda, de Linhares, cujo pai era amigo do pioneiro do mamão “Antenor Kuboyama ”. Além de produzir pimenta do reino, os Fukuda têm como carro-chefe o palmito pupunha, na propriedade localizada no Córrego dos Farias, a 10 km do centro da cidade. Outro descendente de japoneses do município é Mittyo Abiko, produtor de cacau e cunhado de Tadashi.
Bambu zen
Um projeto do Mosteiro Zen-Budista de Ibiraçu conecta o Espírito Santo ao Japão desde 2017. Trata-se da iniciativa para incentivar o cultivo de bambu Guadua no Estado, como alternativa para a diversificação agrícola. O assunto foi inclusive reportagem de capa da nossa edição nº, 27. A ponte com o país oriental se dá pela Japan House, sediada em São Paulo.





