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Reportagem Especial

Ninguém quer levar o garrote (parte 1)

No tradicional Leilão de Garrotes da Apae de Venda Nova do Imigrante (ES), moradores arrematam, mas deixam os animais “voltarem pro toco” para aumentar a arrecadação para a causa; tradição de se unir pelo bem do próximo começou com mutirões organizados pelos colonizadores italianos no final do século 19 para colher café e erguer escolas e até hospital

por Leandro Fidelis

em 25/11/2022 às 7h00

12 min de leitura

Ninguém quer levar o garrote (parte 1)

(*Fotos: Leandro Fidelis- Imagens com direito autoral. Proibida reprodução sem autorização)

Dois mil, dois, dois, dois, dois mil reais… obrigado… Dois e trezentos, trezentos, trezentos, trezentos… Apontou o dedo, tô entendendo? Uma, duas, três. A Apae agradece. Olha que lindo bezerro! Dois mil e trezentos reais… toco!

Impossível não prestar atenção em Vanderlei Carlos Moreira e outros leiloeiros voluntários durante o tradicional Leilão de Garrotes da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Venda Nova do Imigrante, na região Serrana do Espírito Santo. A última edição, em 25 de setembro, reuniu dezenas de moradores no Centro de Eventos municipal para angariar fundos para a entidade.

O leilão é famoso pelos garrotes (55 este ano), mas teve de tudo: búfala, cavalo, carneiro, porco, ganso, galo e galinha, num total de 64 animais, e outras prendas. O lucro líquido foi de R$ 279 mil.

O valor expressivo se deve a um costume típico durante o evento. Quando o leiloeiro anuncia “toco”, é porque o garrote foi arrematado, mas o ganhador não o levou e permitiu que voltasse para a disputa. Uma forma de ajudar ainda mais a Apae.

A gente tem que ajudar. Arrematei hoje aqui para leiloar o mesmo garrote na Festa de Nossa Senhora Aparecida, em Alto Bananeiras. Estamos precisando fazer uma sala de catequese na comunidade”, disse Nilson Falqueto, depois de desembolsar R$ 3.000,00 no animal.

Esse é um dos inúmeros gestos que tornam Venda Nova a Capital Estadual do Voluntariado. Contribuir para as causas sociais faz parte da rotina da cidade. Com quase 25 mil habitantes, Venda Nova se ergueu à base da solidariedade desde os mutirões organizados pelos imigrantes italianos no final do século 19 para colher café, construir escolas e até o hospital. Hoje, milhares de pessoas se voluntariam em mais de 50 associações, doando seu trabalho em barracas nas festas ou bordando e costurando na sede das entidades para manter o mesmo hospital, a Apae e outras entidades funcionando em prol dos mais necessitados.

Só a Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais, fundada em 1988- mesmo ano da emancipação do município, conta atualmente com 400 voluntários. Para a diretora da instituição, Ducila Falqueto, a causa da Apae consegue sensibilizar ainda mais a comunidade.

Quando você pede para a Apae, todos têm uma alegria muito grande em colaborar. Temos um trabalho muito sério, comprometido. A gente presta contas, dá visibilidade aos recursos, e isso faz com que se envolvam no processo”, destaca Ducila.

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A mobilização dos voluntários da Apae é de fazer inveja a cidades ainda muito dependentes do poder público. Além dos membros da diretoria, que contribui também financeiramente como sócios, o grupo mostra extrema capacidade de organização ao setorizar equipes nas principais festas comunitárias, a exemplo da Emancipação Política e de Rodeio. Nesta última, em agosto, o lucro líquido foi de R$ 213.246,71.

Em Venda Nova, é normal ver um gerente de banco ou mesmo o prefeito recolher o lixo ou limpar as mesas, só para citar a participação espontânea e não renumerada de pessoas com algum cargo relevante.

Segundo Ducila Falqueto, desde o início da entidade, há 36 anos, os moradores se voluntariavam para vender produtos doados pela comunidade. Já a partir de 1990, a Apae passou a atuar em parceria com a Prefeitura, que passou a ceder o espaço do bar central e da cozinha nas festas. Foi quando o movimento voluntário apaeano ganhou força.

É uma sincronia de trabalho que funciona muito bem, todo voltado à solidariedade. É incrível como Venda Nova abraça as instituições. A Apae trabalha para melhorar a qualidade de vida das pessoas. E é um público que requer cuidados. A satisfação com os resultados motiva as pessoas a investirem nessa causa social”, afirma a diretora.

Angelim Falqueto e o filho Nilson.

E não pense ser tarefa difícil reunir pessoas ou arrecadar para as entidades na também Capital Nacional do Agroturismo. O coordenador do Leilão de Garrotes da Apae, Angelim Falqueto, conta que o dinheiro para a compra dos garrotes surgiu de onde e quando menos se esperava.

Descobri um fazendeiro na região do Caparaó. Chega lá a gente briga com o homem para comprar mais barato. Este ano, gastamos R$ 90 mil para adquirir os garrotes. E em 15 dias, conseguimos o valor para cobrir as despesas. Só uma família arrecadou R$ 6.200,00. Você já pensou uma coisa dessa? Como o povo de Venda Nova é solidário, bom e participa de todas as coisas da comunidade. Isso dá ânimo para a gente trabalhar. Dificilmente recebemos não como resposta. Só Deus pode pagar essas famílias”, diz.

Além dos eventos, quem se dispõe a voluntariar na própria sede da entidade é acolhido pela psicóloga da instituição. O trabalho doado pode ser ministrar palestra ou auxiliar na oficina de marcenaria.

A Apae de Venda Nova conta com 154 pacientes e usuários. Pelo menos 12 moradores aguardam na fila de espera. Um número que, de acordo com Ducila, só tem aumentando, principalmente para serviços de saúde e assistência, este último voltado a jovens a partir dos 17 anos.

A agricultora Rosiana Buger da Silva Bautz, moradora de Alto Jucu, no município limítrofe de Domingos Martins, tem um sentimento de gratidão pela Apae de Venda Nova. A filha única, Ana Carolina, de oito anos, nasceu com má formação da coluna. E os médicos não davam esperança dela andar.

Quando a menina tinha dois anos, uma amiga de Rosiana a orientou procurar a Apae. “Eu não tinha conhecimento do trabalho deles e fomos recebidas com muito carinho para a Ana Carolina iniciar as sessões de fisioterapia”, conta.

A entidade passou a fazer encaminhamentos para os tratamentos necessários e hoje, com oito anos, a criança se locomove com apoio de um andador.

“Hoje a equipe da Apae faz parte da nossa família e da nossa história. Eles não acolhem somente a criança, como também acompanham a mãe durante os atendimentos. Fazemos o que podemos para ajudar a instituição, porque ela nos apoiou muito. Somos muito gratos”, diz a agricultora.

Ducila Falqueto (de azul ao centro) e a diretoria social da Apae de Venda Nova do Imigrante.

Até na pandemia as pessoas ajudaramELAINE DELPUPO (32)- Coordenadora da cozinha nas festasPara mim, ser voluntária é um ato de amor. A família do meu pai é voluntária, por isso já nasci com esse espírito. Meus pais sempre foram voluntários da Apae e eu e minha irmã continuamos. E aí a gente larga tudo o que tem para fazer para participar. Antes de ser coordenadora da cozinha, a função era da minha mãe. As pessoas daqui de Venda Nova têm muito isso de ajudar. Tem gente que diz: ‘Venda Nova é um lugar fechado’. Sim, outros lugares também. Mas aqui as pessoas não pensam. Se você pedir ajuda, elas vão fazer o que podem. Na época da pandemia, fizemos uma live e a gente precisava de brindes. Estava todo mundo em crise, mas foi um sucesso a iniciativa. As festas do Município e de Rodeio acontecem nos dias das Mães e dos Pais, respectivamente, e mesmo assim as pessoas abrem mão de estar em família para ir ajudar conseguir recursos para a Apae, hospital e Pastoral da Saúde”, disse. “Ser voluntário é, além de participar da comunidade com os amigos, ajudar alguma entidade. Precisando da gente, estamos aí. Isso já nasceu de berço. Para as famílias italianas, é importante a participação voluntária. Quando você agrega aos amigos, acaba somando e isso é gratificante”, completa FRANCISCO CARLOS CALIMAN (61), voluntário da Apae e da Festa da Polenta.

Minha filosofia de vida é que o bem um dia retorna para mim”- WALBER NAUMANN (65)- Coordenador das equipes de limpeza nas festas-Já acompanho Venda Nova há mais de 30 anos e sempre vi as coisas funcionarem de forma coletiva e com voluntariado. A cultura de formação é totalmente diferente de outros lugares pelos quais passei. Aqui o povo é mais dedicado e se doa mais ao próximo. Ser voluntário é servir, fazer o bem, poder se doar e se entregar naqueles momentos que você tem dificuldade de poder participar, mas não pode esmorecer. É estar de mãos dadas e unido com quem quer fazer o bem. Minha filosofia de vida é que o bem um dia retorna para mim. Enxergo também o brilho nos olhos dos meninos da Apae. Há usuários da Apae que voluntariam juntamente comigo e têm esse contato com o público nas festas enquanto recolhem o lixo. Quando o visitante percebe isso, muda totalmente o comportamento”.

Quando não estou legal, venho à Apae para recarregar as baterias”- ARILDO REIS (68), membro da diretoria social-De sócio contribuinte, me tornei presidente em dois mandatos passados. E, hoje, integro a diretoria social. É gratificante você tirar um pouquinho do seu tempo para poder se doar. Às vezes, eu não estou muito legal e venho aqui na Apae para recarregar as baterias. Você vê que nós não temos problema nenhum. Você pega gosto, vê que a entidade funciona de forma organizada e vai se envolvendo. A Apae trabalha com inclusão. Hoje, temos meninos da Apae trabalhando no comércio e com carteira assinada. As famílias estão mais felizes”.

Com paletó ou de chinelo de dedo, sou a mesma pessoa”- WASHINGTON LUIZ BISSOLI, O “TIM” (61)– ex-presidente e voluntário- “Quem entra na Apae, gosta e não sai mais. Estou aqui há 30 anos. Se doar é simples, mas não é fácil. É largar até a família e agir com responsabilidade com o que está fazendo. Hoje participo desde o leilão, das festas… Faço de tudo! Com paletó ou de chinelo de dedo, sou a mesma pessoa”.

 


Mãos que bordam em apoio à causa

Além de toda a corrente de apoio dos 400 voluntários, a Apae conta ainda com 75 mulheres dedicadas à produção de artesanato, cujas vendas são revertidas para a entidade. Elas participam da Associação de Voluntárias da Apae (Avapae), que funciona no mesmo complexo.

Toda segunda-feira, esse grupo se dedica a bordar, fazer crochê e costurar para atender demandas específicas da Apae. Das mãos das mulheres saem peças exclusivas, como toalhas de mesas, jogos americanos, entre outras, comercializadas no bazar da própria instituição, na loja “Da Tutte Mani” (Pedra Azul) e nos eventos beneficentes. E mais: parte da matéria-prima vem da contribuição da comunidade.

O bazar ainda recebe doações de roupas dos moradores, vendidas a preços populares. Os valores gerados suprem o pagamento de exames ou consultas para os usuários da Apae, geralmente não cobertos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). De acordo com a diretora da Apae, Ducila Falqueto, as voluntárias da Avapae sempre atenderam prontamente os pedidos.

Necy Alves Bezerra (82) é caloura entre as voluntárias, mas acumula experiência de décadas no Terceiro Setor. Ela, que saiu de Acari (RN), veio a passeio para Venda Nova e acabou ficando na cidade.

Eu trabalhava com educação, então você acaba sendo voluntário em muitas coisas. Participei da implantação do Mobral na década de 1960 e, pelo movimento, viajei quase esse país inteiro para prestar assistência técnica em educação. Andava muito em lombo de cavalo, de canoa… A diferença é que hoje estou mais tranquila. Venda Nova é uma cidade maravilhosa. Foi difícil me acostumar, mas agora me sinto vendanovense”, declara Necy que, além de voluntariar para a causa, pretende apadrinhar uma criança na Apae.

Enedina Caliman Brioschi (84) bate ponto em quase todas as iniciativas voluntárias locais há 43 anos. É uma das pioneiras da Avapae, das Voluntárias Pró-Hospital Padre Máximo, da cozinha da Festa da Polenta e ainda dá expediente na Pastoral da Saúde. Para ela, voluntariar é uma “terapia maravilhosa”.

Deus me livre se não tivesse isso aqui! O trabalho voluntário preenche meu tempo e está dentro do meu coração. No dia que a gente não pode vir, só no caso de doença, é uma tristeza. Cada tijolinho que você coloca é para o nosso futuro com Deus. Passar nessa Terra sem fazer nada para o próximo? Faz bem tanto para a alma quanto para o corpo”, filosofa a popular Dina.

Mas o que justificaria a vocação de Venda Nova do Imigrante para o trabalho solidário? “A questão da religiosidade é muito presente no município. Isso motiva as pessoas a serem boas. E o princípio da religiosidade fundamenta o trabalho voluntário. E, claro, o gostar de trabalhar, de se colocar à disposição nesse movimento solidário, ver que o outro precisa, independentemente da religião. Muitas vezes ouvimos na Apae: ‘melhor ajudar do que ser ajudado’. É uma forma de gratidão a Deus por estar bem e dizer: ‘eu posso colaborar com alguém’”, teoriza a diretora da Apae, Ducila Falqueto.

Necy e Enedina são octogenárias que voluntariam em Venda Nova do Imigrante.

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