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Se as previsões se confirmarem, o próximo El Niño pode ser o mais severo em 140 anos e recolocar o mundo diante de um fantasma climático que remete a 1876, ano de um dos eventos mais extremos já associados ao fenômeno. De acordo com um artigo do meteorologista holandês Daan van den Broek, a comparação histórica ganhou força porque o sinal atual observado nos modelos climáticos sugere um episódio de intensidade excepcional, capaz de ampliar secas, desorganizar chuvas e pressionar a produção de alimentos em escala global.
O paralelo com 1876 é o ponto mais forte do artigo. Broek cita o meteorologista Paul Roundy, da Universidade de Albany, que afirma que aquele El Niño de 140 anos atrás significou um desastre global, com dezenas de milhões de mortes por inanição. A ligação entre os dois momentos está no potencial de um evento climático severo afetar regiões agrícolas estratégicas, enfraquecer regimes de chuva fundamentais e gerar efeitos em cadeia sobre abastecimento, economia e segurança alimentar.
A diferença é que o mundo de hoje não é o mesmo do século 19. Citando Roundy, Daan van den Broek ressalta que a agricultura moderna oferece um suprimento de alimentos muito mais confiável do que naquela época. Em outras palavras, há hoje mais tecnologia no campo, maior capacidade logística e sistemas de produção mais robustos do que os existentes em 1876. Isso reduz o risco de uma tragédia humanitária com a mesma escala histórica, mas não elimina a ameaça de perdas importantes.
É justamente aí que mora o alerta atual. Mesmo com mais preparo estrutural, o artigo aponta potencial para quebras de safra em países como Índia e China. Também projeta seca severa na Indonésia e no sul da Amazônia, com risco elevado de incêndios florestais nesta última região. Na Índia, a monção pode ficar mais fraca do que o normal, enquanto outras áreas do planeta podem enfrentar o efeito oposto, com aumento das chances de chuvas fortes e inundações, como no sudoeste dos Estados Unidos e no nordeste da África.
O comparativo também ganha peso quando se observa o histórico recente. Em 2015, um El Niño muito forte já havia mostrado como o fenômeno pode desorganizar o clima global e agravar extremos em diferentes continentes. Agora, a preocupação é maior porque, segundo o artigo, o evento em formação ameaça ser ainda mais intenso e pode alcançar um patamar que remete diretamente aos grandes episódios históricos.
Outro elemento que diferencia o momento atual é o pano de fundo climático. Segundo Daan van den Broek, a situação de agora guarda semelhanças com o período que antecedeu o ano extremamente quente de 2023: os oceanos já estão com temperaturas recordes antes mesmo da consolidação do El Niño. Isso significa que o fenômeno pode atuar sobre um sistema climático já aquecido, elevando ainda mais o risco de um novo pico na temperatura média global.
No artigo, o Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, o ECMWF, aparece com estimativa de cerca de 75% de probabilidade para um chamado Super El Niño. Roundy é mais cauteloso, mas ainda assim vê um sério potencial para o evento mais forte em mais de 140 anos. Ele estima em cerca de 20% a chance de esse cenário extremo se concretizar.
O que pode se repetir de 1876, portanto, não é necessariamente a dimensão da tragédia humana, mas a lógica do impacto: secas prolongadas, falhas no regime de chuvas, perdas agrícolas e pressão sobre regiões vulneráveis. O que há de melhor agora é a maior capacidade de resposta da agricultura, da ciência e da logística global. Ainda assim, o artigo deixa claro que infraestrutura moderna não impede danos severos quando o clima se desorganiza em escala planetária.
Há, no máximo, um alívio localizado. Segundo Roundy, anos de El Niño costumam trazer temporadas de furacões mais tranquilas no Atlântico. Mas esse possível benefício regional não muda a conclusão central do texto: se o mundo já sentiu os efeitos de um El Niño muito forte em 2015, um evento ainda mais intenso, comparável ao de 1876, pode impor um teste muito mais duro à agricultura, aos ecossistemas e à capacidade de adaptação global.





