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O El Niño, previsto desde o final de 2025, agora já é uma realidade. Ainda não se sabe ao certo qual será sua magnitude, mas a Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) estima mais de 60% de chance de um El Niño de forte intensidade entre os meses de novembro deste ano e janeiro de 2027.
Marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o fenômeno altera os padrões climáticos de maneiras diferentes em várias partes do Brasil. No Espírito Santo, as previsões indicam temperaturas acima da média histórica e chuvas mais irregulares em grande parte do território capixaba, especialmente nas regiões norte e noroeste, onde os impactos da seca costumam ser mais intensos.
Essas projeções acendem um alerta em todos os setores ligados ao meio rural, entre eles a pecuária, tanto de corte quanto de leite. De acordo com o zootecnista e extensionista do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) de Pedro Canário, no extremo norte do estado, Xisto Antônio Alves França, além do risco de redução dos níveis de rios e reservatórios e do comprometimento do abastecimento de água para os animais, um dos primeiros reflexos para o setor é a redução da produção e da qualidade das pastagens, o que pode elevar os custos de produção, especialmente nas propriedades que dependem do pastejo.

“Com menos água disponível no solo e temperaturas mais elevadas, as forrageiras tendem a apresentar menor crescimento, reduzindo a oferta de alimento aos rebanhos. Como consequência, os produtores poderão precisar ampliar o uso de suplementação volumosa, como cana-de-açúcar, capineira ou silagem, além do possível aumento no uso de alimentos concentrados para suprir as exigências nutricionais dos animais, reduzindo, assim, a rentabilidade da atividade”, esclarece o zootecnista.
Xisto explica que a menor disponibilidade de forragem, associada ao aumento do estresse térmico, reduz o consumo de alimento pelos animais e compromete o desempenho produtivo. “Vacas leiteiras podem apresentar queda na produção de leite e perda de condição corporal, enquanto bovinos de corte tendem a reduzir o ganho de peso, aumentando o tempo necessário para atingir o peso de abate”, aponta o especialista.
Outra preocupação, segundo Xisto, é a influência das altas temperaturas sobre a reprodução dos rebanhos. O estresse por calor pode reduzir a manifestação de cio, diminuir as taxas de concepção e aumentar as perdas embrionárias, comprometendo a eficiência reprodutiva tanto na pecuária leiteira quanto na de corte.
Os animais também passam a gastar mais energia para manter a temperatura corporal, reduzindo a energia disponível para produção, crescimento e reprodução. “Esse conjunto de fatores também pode gerar impactos econômicos que se estendem por vários meses, mesmo após a normalização das condições climáticas”, destaca.
Como amenizar os impactos
Xisto afirma que, diante desse panorama, o planejamento antecipado será a principal ferramenta para reduzir os prejuízos. “Embora o cenário exija atenção, a adoção de medidas preventivas pode aumentar a resiliência dos sistemas produtivos e minimizar os impactos do El Niño sobre a pecuária capixaba.”
Os produtores devem avaliar seus estoques de volumosos, planejando a produção ou a aquisição de alimentos para o período seco. Também é recomendada a adoção de práticas de conservação do solo e da água, manejo adequado das pastagens e o fornecimento de sombra e água de qualidade aos animais. Além disso, é importante monitorar continuamente as condições climáticas e a disponibilidade hídrica da propriedade.
Com um rebanho de cerca de 30 vacas em lactação e uma produção diária de aproximadamente 500 litros de leite, a pecuarista Valeska Sperandio, do Sítio Córrego Olho D’Água, na comunidade de Baunilha, interior de Colatina, sempre trabalha com a compra de silagem para atravessar o período de inverno, quando a oferta de pastagem diminui. Neste ano, a produtora já considera a possibilidade de precisar adquirir uma quantidade adicional de alimento para o plantel.
“Todos os anos há seca, então sempre providenciamos comida para os animais. E, neste ano, além do que já temos estocado, estamos cientes de que talvez precisemos comprar um pouco mais, caso a seca se prolongue”, explica.
Apoio e orientações

Desde 2023, a Secretaria da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag) vem desenvolvendo um trabalho de conscientização dos produtores sobre a importância da reserva de alimentos para o período de estiagem. Após o anúncio da previsão do El Niño, no final do ano passado, esse trabalho foi intensificado.
Desde então, foram adquiridas e distribuídas 140 ensacadoras de forragem, que atendem 50 municípios por meio de associações, cooperativas e prefeituras, beneficiando cerca de 5 mil pecuaristas.
Além da aquisição dos equipamentos, também foi iniciado um trabalho de orientação aos pecuaristas, por parte Incaper, com recomendações para ampliar o cultivo de milho, sorgo, cana-de-açúcar e capim-elefante, culturas que permitem a produção de silagem e podem ser manejadas mesmo por pequenos produtores que não possuem trator.
Outro foco da iniciativa é a capacitação dos produtores para a fabricação de silagem de qualidade, com adequado valor nutritivo. As orientações incluem o momento correto da colheita, o processo de ensilagem e a forma adequada de armazenamento, evitando perdas nutricionais e desperdícios.






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