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Meio Ambiente

Com a crise hídrica, o jeito é plantar água no Espírito Santo

por Redação Conexão Safra

em 26/02/2015 às 0h00

5 min de leitura

Serrana Filetti


Com o objetivo de ampliar conhecimentos e promover práticas de uso racional dos recursos hídricos em comunidades de agricultores familiares do Município de Alegre, foi aprovado no edital 2012, do Programa Petrobras Ambiental e teve início em 2013, o Projeto Plantadores de Água, no município de Alegre. O trabalho tem por base uma metodologia de experimentação participativa implantada em oito Unidades Participativas de Experimentação em Plantio de Água (UPEPAS), para que essas propriedades rurais sejam exemplo de como proceder para a conservação dos recursos hídricos.


O projeto tem duração de dois anos e é realizado pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alegre, Sítio Agroecológico Jaqueira e pelo Grupo de Agricultura Ecológica Kapi’xawa. Atualmente, o trabalho tem como público alvo, as famílias agricultoras do município. “Até o momento, o projeto já envolveu mais de 2.500 pessoas nas atividades de capacitações nas Upepas, em oficinas de mobilização nas comunidades rurais, em visitas técnicas em propriedades rurais e palestras de educação ambiental ”, diz o coordenador geral do projeto, Davi Senna.


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Segundo ele, o trabalho é desenvolvido nas comunidades de agricultores familiares de Bom Sucesso do Coqueiro, Gabriel Vargas, Lagoa Seca, São Esperidião, Água Limpa, Feliz Lembrança, Assentamentos Paraíso e Floresta, Varjão do Norte, Laranjeiras, São João e Bom Ver. O trabalho possui parceria com a Rede de Agricultura Familiar (RAF), o CCA-Ufes, o Incaper, a Prefeitura de Alegre, o Ifes-Campus de Alegre e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Alegre (Saae).


Em relação aos benefícios que o projeto trouxe para as comunidades, Davi disse que eles consistem no processo de reeducação e mudança de mentalidade dos proprietários rurais, principalmente por meio das ações de educação ambiental não formal, que possibilitaram que os agricultores familiares aprendessem a fazer “fazendo ”, envolvendo e sensibilizando muitas comunidades rurais sobre a problemática socioambiental da região. “Nosso trabalho capacita essas famílias a resolverem seus problemas de forma mais independente das políticas públicas ”, enfatiza.


Sobre o “Plantio de Água ”, Davi explica que isso é um conjunto de técnicas utilizadas para captação e infiltração de água no solo e abastecimento dos lençóis freáticos. Em relação às ações do projeto, o coordenador explica ainda que até o momento, o trabalho já realizou o cercamento de 14ha em áreas de preservação permanente (APP ”S), o plantio de mais de 5 mil mudas de espécies nativas e frutíferas, a construção de 163 caixas secas nas estradas, cheias nos brejos e 153 terraços de contenção em curva de nível, armazenando mais de 3 milhões de litros de água de chuva, e a construção de duas fossas sépticas de evapotranspiração e seis fossas biodigestoras, onde além de evitar a contaminação dos rios e córregos com esses dejetos, reutilizou mais de 40 mil litros de água para fertirrigação.


Diante de todo esse trabalho, Davi diz que o objetivo maior é que este processo de conscientização do uso racional dos recursos hídricos seja cada vez mais ampliado e que as técnicas e práticas propostas pelo projeto sejam ainda mais difundidas. “Temos ainda o objetivo de formar a rede dos Plantadores de Água ”, lembra.


Situação de emergência decretada no município preocupa plantadores de água

No final do mês passado, o prefeito de Alegre, Paulo Lemos, decretou situação de emergência no município por causa da seca. Em relação ao decreto, Davi diz que a situação é preocupante. Segundo ele, a água é o recurso natural mais abundante no Planeta e principal componente dos corpos dos seres vivos. “A Terra possui 75% de sua composição formada por água. Desse volume total, 2,5% é de água doce e, apenas 0,08% está disponível para o consumo da população ”, completa.



Segundo o Diagnóstico Socioeconômico (Bandes 2005), a ocupação e o uso do solo na região do Caparaó Capixaba são marcados pelo desmatamento para a extração de madeiras e implantação, primeiro da monocultura do café, depois da pecuária. “Não podemos nos esquecer, também, das drenagens de várzeas e derrubadas de matas ciliares, muito comuns nos anos 70, que reduziram significativamente, a capacidade de retenção de água nas microbacias. Estas atividades foram, e ainda são, as principais causas da crise hídrica de nossa região ”, afirma Davi. O coordenador também destaca que a drenagem de brejos com a finalidade de secar a área e ampliar a área de pastoreio e outros cultivos, é considerada uma das piores de todas as ações predatórias. “Com ela há uma redução da infiltração de água no solo, aumento do escoamento e do transporte de sedimentos, além do processo erosivo das margens, o que afeta a capacidade de regularização do curso d´água nos córregos, determinando dependência total ao regime de chuvas, a cada ano, para a manutenção de nascentes e córregos ”, relata.


Davi diz que toda essa situação é conhecida nos dias de hoje. “Devemos rever nossas práticas e modo de vida, visto que está mais do que provado a necessidade de mudança de atitude ”, finaliza.

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