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Geral

Sombra + Adubo verde = Mais produção de café arábica

por Redação Conexão Safra

em 08/10/2013 às 0h00

8 min de leitura

Há 10 anos, o escritório local do Incaper de Irupi, sob a coordenação do engenheiro agrônomo Geraldo Costa Lima, vem apostando em uma técnica natural e sustentável para a manutenção e aumento da produção de café no município. Diante das mudanças climáticas, com o aumento das temperaturas máximas e do período de estiagem na região do Caparaó, alguns agricultores estão conseguindo bons resultados com o sombreamento da lavoura, geralmente, com leguminosas e outras culturas, que acabam também funcionando como adubação verde, o que garante a produção, com baixo custo, e coloca por terra o discurso daqueles que pregam a mudança da produção de café arábica para conilon.


Achando essa hipótese um absurdo, Geraldo Lima apresenta alternativas para a cultura do arábica e conta que existem quatro propriedades que estão desenvolvendo a atividade, que começou na propriedade de Nilson Andrade, na comunidade da Pedreira, utilizando o Ingá de Metro. E além da mudança climática, os proprietários vinham sofrendo com a pouca resistência à ferrugem, pragas e doenças a que está sujeito o café catuai 44 e 81, que representa 90% do café plantado no município região. Por isso, surgiu a preocupação de buscar novas variedades, mais resistentes, conciliando com o sombreamento e a redução de custos, para que o produtor possa buscar a recuperação de lavouras e solos pobres em nutrientes.


Vendo por este lado, o engenheiro Geraldo Costa Lima apela para a imagem da construção de uma casa, onde é preciso começar pela base e nunca pelo telhado. “Nunca se começa uma casa pelo telhado, mas é o que o produtor acaba fazendo quando inicia a lavoura de forma errada e depois tenta consertar a baixa produtividade gastando com defensivos e adubo químico ”, destaca.


Por isso, segundo ele, para começar uma lavoura de café, em primeiro lugar, o produtor precisa conhecer o passado do terreno (o que já foi plantado no local, por exemplo), saber se a área tem aptidão para o plantio do café, e se é um local que tem tradição nesta cultura. Feito isso, está pronta a base da casa &ndash, iniciativas que quase não representam custo. Depois, é preciso levantar as paredes, que é a escolha de sementes e mudas de boa qualidade (porque uma semente ou muda com problema vai resultar num pé de café com problema). Levantadas as paredes da casa, colocam-se as janelas e portas, com a definição da época e profundidade do plantio, assim como a definição da variedade a ser plantada e qual o espaçamento entre as mudas. Para então ser feita a análise de solo e depois a análise foliar, o que vai determinar quais as carências de nutrientes &ndash, tudo isso, sendo consideradas ações de médio custo.


Finalmente, quando se chega ao telhado da casa, é que entra a questão da adubação e usos de defensivos, que são ações de alto custo. Mas isto pode ser reduzido, de acordo com Geraldo Costa Lima. Se o produtor preparou a lavoura começando pela base, paredes, janelas e portas, vai poder ficar praticamente livre dos custos da adubação química &ndash, o que pode ser substituído pela adubação verde, da irrigação &ndash, com a utilização do sombreamento da lavoura, e sem precisar utilizar o uso de inseticidas, herbicidas e fungicidas &ndash, com o plantio de variedades mais resistentes e mais saudáveis.


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Bons resultados motivaram outros produtores rurais


Desta forma, com a primeira experiência de café sombreado, o resultado foi a maturação mais ou menos igual dos frutos e granação de 100%, enquanto as lavouras que estavam mais expostas ao sol apresentaram problemas de granação, com frutos vazios, principalmente, devido ao chamado veranículo de janeiro e fevereiro. Diante deste resultado, outros proprietários começaram a se interessar pelo projeto.


Um deles foi o colono Ércio Nunes, na propriedade do produtor rural Antonio Trevenzoli. No local, havia sido plantada uma lavoura em local impróprio para café, onde existia muito mato. E, na tentativa de acabar com as pragas, os agricultores aplicaram um defensivo que exterminou com todos os nutrientes do terreno. “Ficou tudo parecido com chão de terreiro de café, seco e duro ”, lembra Antonio Trevenzoli, confi rmando o que contou o engenheiro do Incaper Geraldo Costa Lima, quando foi conhecer a área.


Foi então que foram plantadas culturas que têm capacidade para concentrar nutrientes no solo, como feijão de porco, feijão guandu, mamona e outros, para fazer a chamada adubação verde. “E quanto chega o ponto de colheita, corta a planta e joga no chão ”, cconta Geraldo. O resultado com a recuperação do solo foi tão positiva que o produtor resolveu fazer o mesmo em todo o terreno. “Outro ponto é que o feijão guandu, por exemplo, além da adubação depois do corte, também faz o sombreamento da lavoura de café, na época da granação ”, explica. “Sem contar que o guandu incorpora cerca de 150 quilos de nitrogênio por hectare, por ano, o que corresponde ao mesmo de se gastar com 700 quilos de sulfato de amônia, que custa muito mais ”, afirma Geraldo. Logo, para Antonio Trevenzoli, a experiência teve um grande resultado, sem quebra na colheita, mesmo num grande período de estiagem.


A partir daí, o projeto se estendeu a outras propriedades, como aconteceu com o produtor Agostinho Vimercati, onde a adubação verde foi feita com crotalária e cravo de defunto, que são variedades para terrenos que apresentam problemas com nematoide, que ataca muitas lavouras de café. Além disso, foi utilizada a variedade de café Iapar 59, que também é resistente a nematoide, mas deve ser plantada em altitudes acima de 900 metros.


Experiências começaram com ingá de metro


Para o sombreamento das lavouras de café, as iniciativas em Irupi, segundo Geraldo Costa Lima, começaram utilizando o Ingá, principalmente o chamado Ingá de Metro, que deu o melhor resultado com o café. De acordo com o engenheiro, com este casamento, foram reduzidas em 40% as despesas com capina, roçadas e herbicidas. “E sob a copa nem foi preciso fazer a capina, porque a folha do Ingá cai e não nasce o mato, além de servir como adubação orgânica e não ser mais necessários o uso de calcário ”, explica.


Outro ponto interessante do Ingá, conforme esclarece Geraldo Lima, é que a árvore apresenta mais folhas, justamente no verão, quando o café necessita de mais sombra. E no inverno, quando a lavoura precisa de sol, o Ingá está praticamente sem folhas. “O ideal para a lavoura de café é que o sombreamento seja em torno de 40% ”, esclarece Geraldo, ou seja, um total de 13 plantas por hectare, num espaçamento de 24m x 24m, da planta adulta. Mas nada impede que, com a planta ainda pequena, o plantio obedeça ao espaçamento de 8m x 8m e, conforme o crescimento, corte-se o excedente para deixar o espaçamento em 16m x 16m, para no próximo corte chegar a 24m x 24m.


Adubação verde e novas variedades diminuem custos da produção


Quanto à adubação verde, Geraldo Costa Lima explica que é feita com o uso de plantas, geralmente leguminosas, que têm uma bactéria na raiz chamada de rizóbium. Esta bactéria é capaz de reter nitrogênio e incorporá- -lo ao solo, de jeito que a planta possa aproveitá-lo. O produtor também pode deixar o solo descansar e aproveitar as plantas espontâneas, como o mato que nasce no meio da lavoura.


Nas lavouras de café, além de adubação verde, mas também como sombreamento, as plantas mais usadas são o feijão de porco e o feijão guandu. Mas também é muito recomendada a crotalária ochraleuca que, de acordo com Geraldo Lima, deve ser cortada bem embaixo do pé, na época da fl orada, já que tem capacidade para nascer de novo. O plantio deve ser feito no mês de setembro para frente, quando começa a época das chuvas. Ainda existem a crotalária spectábilis e crotalária juncea &ndash, que é de menor tamanho e não ajuda tanto no sombreamento. Ambas também devem ser cortadas na época da florada.


Novas variedades


O engenheiro do Incaper Geraldo Costa Lima, de Irupi, também destaca que o produtor deve se preocupar com a variedade de café que vai plantar em sua propriedade, o que deve ser determinado pela qualidade do solo e altitude em que está o terreno. Para um ciclo mais precoce, ele recomenda as variedades Iapar 59 e o Tupi, para altitudes acima de 900 metros, desde que sejam mais de 5 mil plantas por hectare. Já para um ciclo médio, Geraldo aponta como ideal o café Paraíso, para altitudes entre 700 e 900 metros e, finalmente, para o ciclo tardio, o café Obatã, para ser plantado de 600 a 800 metros. “Todas as três são resistentes a ferrugem e produzem, em média, 25% a mais do que o o Catuaí 44 e 81, ou seja, a cada quatro colheitas, o produtor tem uma de graça, sem gastar nada a mais com ela ”, afi rma.


Ou seja, para Geraldo, a conversa de se mudar as lavouras de café arábica para conilon, em Irupi e demais municípios da Região do Caparaó, que estão em altitudes acima de 600 metros, é um grande erro. Para ele, é preciso mudar os tratos culturais e aumentar a proteção das lavouras. “Não há necessidade disso, mesmo sem gastar com irrigação, porque temos uma média 1.200 milímetros por ano, quando o café arábica necessita de, no máximo, 800 milímetros de chuvas anuais ”, destaca.

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