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Octaciano Neto, Secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (SEAG)

O secretário de Estado da Agricultura, Octaciano Neto, chegou ao Governo Paulo Hartung com nova visão sobre o agronegócio capixaba e de seus desafios.

por Redação Conexão Safra

em 15/09/2015 às 0h00

15 min de leitura

Octaciano Neto, Secretário de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (SEAG)

Os novos rumos da agricultura capixaba

O secretário de Estado da Agricultura, Octaciano Neto, chegou ao Governo Paulo Hartung com nova visão sobre o agronegócio capixaba e de seus desafios. Em entrevista à Associação de Diários do Interior do Espírito Santo (ADI-ES), o secretário falou sobre estes desafios, principalmente, diante da crise hídrica, além da retomada das obras do programa Caminhos do Campo, telefonia móvel no interior e outros setores da agricultura do Espírito Santo. da. Na minha infância, eu não entendia o que era abrir fazenda e hoje eu tenho a compreensão
que abrir fazenda era desmatar.

Então, as décadas de 50 a 70, patrocinadas pelo governo, nós, produtores rurais de todo Brasil, achávamos que, para produzir mais, tinha que desmatar e diminuir a cobertura florestal. E o tempo mostra que esse erro foi importante. Nós precisamos ampliar a cobertura florestal. Compara: Santa Maria de Jetibá com 40% de cobertura e Pedro Canário com 4%, e Santa Maria ganha mais dinheiro do que os produtores de Pedro Canário, mesmo tendo menos área para fazer a agricultura final. Então, o grande desafio deste primeiro semestre foi exatamente buscar fazer esta quebra de paradigma no governo, focado ADI-ES – Um dos maiores desafios vividos pelos capixabas no primeiro semestre foi a crise hídrica, que afeta profundamente a produção agropecuária capixaba. Como está a situação hoje e como a Secretaria enfrenta o problema?

Octaciano Neto &ndash, Um importante desafio, a crise hídrica. Eu me recordo, meu avô foi para Pedro Canário em 1958 e dizia que foi para lá para abrir fazensempre em pensar na infraestrutura e ter uma quebra de paradigma neste diálogo com os produtores, para o governo colocar uma porção de barragens e reflorestamento.


O que o Governo está fazendo para ampliar o número de barragens no Estado? O Espírito Santo tem 32 mil e 500 barragens. Setenta por cento delas estão no norte. Estão lá por
obra dos produtores. O governo nunca construiu barragem no Espírito Santo. E por que estão no norte? Porque a região sofria, há muito mais tempo, que o sul. Então, com o fruto do sofrimento, o produtor investiu para ser mais competitivo. Há um déficit mais intenso do que no sul. Entre os 20 projetos prioritários do governador Paulo Hartung está o da infraestrutura hídrica. Então, o estado está colocando de pé, a partir deste ano, um conjunto de obras para garantir que, as próximas secas ou as próximas cheias, impactem menos na vida dos nossos produtores rurais. Como disse, são 20 projetos prioritários e nós conseguimos fazer com que a barragem fosse um desses projetos. E, especificamente, no sul, estamos lançando um projeto com o Bandes para financiamento de duas mil barragens na Bacia do Rio Itapemirim e na Bacia do Rio Itabapoana, para os próximos três anos.

Quando será lançado?

Em setembro, devemos fazer o lançamento, no sul. Estamos esperando o governador anunciar os 20 projetos prioritários. E por que estamos lançando este projeto com o Bandes e essa construção de barragem especificamente no sul, no rio Itapemirim e no Itabapoana?
É pelo déficit de barramento, pelo déficit de infraestrutura hídrica que tem no sul, como eu falei: este processo histórico que o norte concentrou mais do que no sul por razões climáticas.

Para o financiamento, também haverá o acompanhamen totécnico? O governo vai auxiliar
tecnicamente os produtorespara fazer de forma correta?

Sim, auxiliará. A nossa ideia é que o governo do Estado pague o produtor, inclusive, os projetos para o produtor rural. O produtor financia a construção das barragens.

Como o Governo pretende ampliar a cobertura florestal do Estado? Esse trabalho passa pela conscientização dos produtores, certo?

É redobrar a aposta realizada no Programa Reflorestar. O Reflorestar foi implantado no segundo ciclo do governador Paulo Hartung, mas o dinheiro não chegava à mão do produtor. Essa burocracia foi diminuída nesses primeiros seis meses para a gente conseguir avançar. Isso é um trabalho que o governo não dá conta de fazer: todo o reflorestamento. Então, é também um trabalho de conscientização. O produtor está percebendo que tem que ampliar a cobertura propriedade por propriedade, fazenda por fazenda. A propriedade que tem costa de morro protegida, que tem APP protegida, que tem nascente protegida e que tem barragem, vai ganhar mais dinheiro que o produtor que está desmatando. Não é mais Espírito Santo ou Nordeste. É dentro da mesma cidade, do mesmo distrito, propriedade por propriedade. Então, nessas duas frentes, uma ação de governo é também uma ação por parte dos produtores.

Vivemos uma crise financeira muito grande. O estado, consequentemente, sofre o mesmo e teve que fazer cortes. A sua Secretaria também foi atingida, com algumas obras paralisadas. Uma das principais queixas dos moradores do interior é com relação à paralisação das obras
do Programa Caminhos do Campo. Há previsão para que essas obras sejam retomadas?

De 2003 a 2013, foram concluídas 117 obras. Dá uma média de 10 obras e meia por ano. Somente no ano passado, estavam sendo tocadas 31 obras. As obras foram paralisadas em 30 de novembro do ano passado. Não adianta vender ilusão para a sociedade. Tem que fazer obra que o governo dê conta de tocar. Não adianta fazer política, como foi feito. Tocar 31 obras num ano, sendo que a capacidade histórica é de tocar 10 obras. Não tem recursos humanos e nem capacidade orçamentária para poder tocar. Então, o que nós fizemos: encaminhamos para a Assembleia Legislativa e ela criou um Fundo para conseguir concluir essas 31 obras. Como não tem recursos do Tesouro, a gente conseguiu, junto ao BNDES, um aporte de 70 milhões de reais, para serem concluídas. E, depois de concluídas, o Estado vai retomar, dentro da realidade orçamentária, o que é mais importante para o produtor, mais importante para a sociedade. Além de fazer obra, é ter assumido um compromisso e honrá-lo. E é por isso que o governador Paulo Hartung tem essa credibilidade toda no estado.


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Quais critérios serão usados?
O senhor tem obras que estão faltando 10%…

Todas as 31 obras serão retomadas de forma única, porque o recurso que está vindo é suficiente para concluir todas as 31 obras. Então, nós vamos reiniciar todas ao mesmo tempo.

Há planos para a ampliação da telefonia móvel no interior?

Há planos para a ampliação da telefonia móvel no interior? Primeiro iremos pagar a Vivo. O governo anterior inaugurou 72 antenas de telefone 3G, no período eleitoral, e deve, para a Vivo, R$ 21,3 milhões. Então, a prioridade em 2016 será pagar, porque todas essas antenas inauguradas no período eleitoral não foram pagas. E após o pagamento, buscaremos retomar o programa de telefonia rural, que é fundamental para o homem do campo.

“A produção do café no Es pírito Santo vai cair esse ano 1 bilhão de reais, em função da crise hídrica. Mas a expectativa dos cafés especiais é muito pos itiva. O mundo passa por um processo de gourmetização de alguns produtos como café e vinho ”.

Um anúncio importante feito pela Secretaria de Agricultura, no primeiro semestre, foi a construção dos silos para armazenamento de milho em Viana. O que esse investimento representa para os produtores capixabas?

É uma parceria com a Conab e o governo investiu 15 milhões de reais na desapropriação. Nós temos um problema sério com a oferta de milho. Ele praticamente está na região centro-oeste do Brasil e o custo do milho para comprar é o mesmo para o produtor de frango do Mato Grosso, de São Paulo e daqui, do Espírito Santo. A diferença está na logística. O que precisávamos fazer era ter uma logística mais eficiente. O transporte, como é realizado hoje, por caminhão, o custo é muito alto. Os silos de Viana representam a facilidade logística. Esse milho e farelo de soja virão por trem. Vai baratear o custo para o produtor. Era estratégico porque o frango capixaba, hoje, abastece 60% do mercado. Nós temos mercado interno, capixaba, mas temos condições de produzir mais frango no Espírito Santo. Mas isso agarra na questão da
competitividade em função deste custo muito alto do frete. Dá para aquecer a avicultura de postura e de ovos, que vende para todo o Brasil, hoje. E a gente consegue avançar na suinocultura. Com os silos, temos um posicionamento estratégico, são cinco silos que a Conab está
fazendo no Brasil, com a capacidade de 750 mil toneladas ano, e com isso teremos uma estrutura para dar competitividade ao nosso produtor de frangos e de suínos.

A Secretaria planeja mudanças no sistema de inspeção animal do Estado?

Estamos mudando. Fizemos até agora seis seminários. Discutimos com a população. Não faz sentido um produtor de queijo, ele e a esposa, trabalhando com 10 quilos de queijo por dia, para vender no sábado, na feira da cidade, precisar ter pátio pavimentado, muro, dois banheiros, masculino e feminino. A intenção do governador é tornar o IDAF amigo do produtor rural. E na inspeção animal, estamos fazendo edital de concessão pública. Para que a inspeção seja tocada por médicos veterinários da iniciativa privada sob a auditoria do IDAF. Como cada vez mais as propriedades estão diminuindo, fruto de sucessão familiar, então, a pessoa precisa produzir mais, com o mesmo hectare que tem, pela área que tem, que é menor do que o pai e o avô tinham. E para conseguir produzir mais com a mesma área, precisa verticalizar, agregar valor a essa produção e à área de industrialização é uma aposta importante para gerar mais valor pelo seu produto primário, pelas propriedades rurais.

As agroindústrias capixabas também podem esperarpor mudanças?

Isso. É na mesma linha. A inspeção animal e as agroindústrias, frigoríficos e abatedouros
precisam de flexibilização, uma mudança para facilitar a vida, para que os produtores de socol, queijo, linguiça, possam vender para o estado, para o Brasil todo, de forma muito mais facilitada.

Quais os planos para o Incaper? O Estado vai investir em pesquisa com recursos próprios?

Há dois desafios importantes no Incaper. Um é fazer com que toda a geração de inteligência, de pesquisa feita pelos pesquisadores, chegue ao homem do campo. Ainda existe uma desconexão entre os pesquisadores e os extensionistas. Tem muita informação de qualidade que o produtor rural não se apropria, porque falta o veículo para levar essa informação, e o veículo é o extensionista. Vamos aproximar a prática do extensionista do pesquisador.

Outro desafio importante do Incaper é que a extensão rural tem que ser fruto de estratégia de governo. A extensão rural, como é realizada hoje, é muito solta. O extensionista busca fazer o trabalho em um município, fruto das próprias experiências dele. Então, o extensionista que gosta da agrologia e está em um município, vai implantar agrologia naquele município. O que gosta de café, que tem experiência, que é especializado
em café, vai implantar, vai focar na cafeicultura. Precisamos que isto esteja alinhado à estratégia do estado. Então, é realmente um desafio. O Incaper precisa atuar de forma conjunta porque é uma instituição só e um dos orgulhos do Espírito Santo. Talvez seja a instituição com a melhor imagem pública, dentro do Estado, mas precisa que exista um alinhamento entre a decisão estratégica do estado e o que o extensionista está fazendo lá fora. Este é o desafio: falar a mesma linguagem.

A agricultura capixaba é predominantemente de base familiar. Como o Governo pretende fortalecer esse setor fundamental para o equilíbriosocial e econômico do Estado?

Noventa e três por cento das propriedades rurais do Espírito Santo tem menos de 100 hectares. Estamos lançando e a Assembleia Legislativa aprovou recentemente o Fundo da Agricultura Familiar. Todas as associações e cooperativas do estado terão acesso ao edital de lançamento. Serão 12 milhões de reais do Governo do Estado em que, por exemplo, uma Cooperativa como a de Piscicultura de Linhares poderá apresentar um projeto e concorrer, para ampliar, comprar mais tanque e rede, construir uma fábrica de ração, para poder ampliar a sua área de filetamento de tilápia, por exemplo. Então, é uma grande mudança: a democratização do acesso público para direcionar os recursos para melhores projetos. Vale lembrar que associações de produtores rurais também estão inseridas.

Mesmo com a economia em crise, o setor do agronegócio pode contribuir para equilibrar um pouco as contas em 2015? Há expectativa de geração de empregos no campo?

Precisa ampliar a qualidade de vida do produtor. Em 2013, a grande solicitação era a energia rural. Hoje, tem energia em todas as propriedades. Atualmente, pode ter uma ou outra propriedade sem energia, mas que está solicitando à Escelsa ou à empresa de Colatina. O desafio atual é levar energia trifásica, porque quem quer essa energia, não é só pela qualidade de vida dele, é porque ele quer agregar valor à produção, colocar uma fábrica de ração, ou irrigação, ou ainda um equipamento mais potente. O governo vai continuar investindo para melhorar a qualidade de vida, para o cidadão querer ficar em sua cidade não só por aspectos culturais, mas por se sentir bem e ter orgulho de ter qualidade de educação e saúde, para poder estar no campo.

Confira mais um trecho da entrevista com o Secretário Octaciano Neto, com declarações exclusivas para a Revista SAFRA ES.


O que esperar do futuro da agricultura

“O grande desafio é pensar na sua propriedade rural com sustentabilidade: armazenar água, proteger as nascentes e ampliar a cobertura florestal. O agronegócio com sua força e robustez é que está segurando o PIB brasileiro. A crise existe em alguns setores, mas há casos distintos. Quem plantou pimenta do reino, por exemplo, ganhou dinheiro, mas quem produziu leite, perdeu. O mamão está indo bem. As crises são cíclicas. É preciso ganhar mais competitividade, verticalizar, produzindo mais por hectare. E é essencial buscar assistência técnica ”.

Sobre o café capixaba e a tendência mundial da gourmetização

“A produção do café no Espírito Santo vai cair esse ano 1 bilhão de reais, em função da crise hídrica. Mas a expectativa dos cafés especiais é muito positiva. O mundo passa por um processo de gourmetização de alguns produtos como café, vinho (inclusive água mineral gourmet). Os produtores de socol, de Venda Nova do Imigrante, por exemplo, representam um pouco deste novo mercado. O futuro é muito promissor para a cafeicultura com o desenvolvimento de novas tecnologias, o aumento de produtividade e por essa demanda por produtos de maior valor agregado ”.

Investimentos nos últimos 15 anos não garantiram aumento de produção da pecuária leiteira no Es pírito Santo, pelo contrário, a produtividade caiu em 5%

“O programa de melhoramento genético se mostrou insuficiente no Espírito Santo. Mesmo com a doação de tanques resfriadores, doses de sêmen para tantas propriedades, programas de qualidade e todos os investimentos feitos nos últimos quinze anos, a produção leiteira do estado caiu. O sul, que sempre liderou a produção, perdeu para o norte, que hoje tem 55%. Por isso, estamos em um amplo debate com os produtores de pecuária leiteira. Tudo o que o governo do Espírito Santo e a sociedade investiram para aprimorar a produção cafeeira valeu a pena, mas com a pecuária leiteira não. O pecuarista precisa encarar o alimento para o gado como lavoura. Há casos de produtores que cuidam disso e têm excelentes resultados. Não há como investir em melhoramento genético e esquecer da alimentação do rebanho. Existem pesquisas que mostram que o pecuarista procura pouca informação ”.

Futuro promissor para a aviculturae a suinocultura

“As atividades de avicultura e suinocultura no Espírito Santo são méritos dos próprios produtores rurais. Nunca houve participações efetivas dos órgãos governamentais, mas está alinhamento aos novos posicionamentos do Incaper e do IDAF. A avicultura e a suinocultura são atividades que podem ser desenvolvidas em pequenas propriedades, e estão alinhadas com a estrutura fundiária do estado. Além disso, possuem grande potencial de crescimento econômico ”.

Octaciano Neto tem 36 anos

Formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Integrou o Programa de Desenvolvimento de Conselheiro, Governança Corporativa na Fundação Dom Cabral Master of Business Administration (MBA ) e também é formado em Gestão Estratégica
de Negócios na Fucape.

Especialista em gerenciamento de projetos e planejamento estratégico, atuou por mais de 10 anos no setor público, sendo secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura Municipal de Vila Velha e secretário-adjunto de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura Municipal
da Serra. No Governo do Estado do Espírito Santo, coordenou a implantação do Programa de Gerenciamento dos Projetos Prioritários (Pró-Gestão). Atuou ainda na Câmara dos Deputados e no Senado da República. Na iniciativa privada, atuou no setor de desenvolvimento urbano e na Federação das Indústrias do Estado do Espírito Santo (Findes).


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