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O cultivo da terra com amor

por Redação Conexão Safra

em 11/02/2015 às 0h00

13 min de leitura

O cultivo da terra com amor

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FRASE: “Gosto de olhar para terra e sentir que ela é saudável ”- Isabel Rodrigues

O sabor que vem da terra sem nenhum agrotóxico, conquistou as mesas e as lavouras de muitos agricultores do Caparaó. Produtos orgânicos cresceram no ES ”

Andresa Alcoforado([email protected])

“Não conseguiria aplicar veneno em um alimento que vou consumir, ou que meus amigos e até mesmo crianças consomem ”. A frase é da agricultora Isabel Rodrigues, 45 anos, da localidade de Areia Branca, Guaçuí. O amor a terra que ela prega, diz muito sobre o comportamento de quem cultiva produtos orgânicos. Com pouco mais de 30 mil mudas de morangos plantados, ela é um exemplo que basta pesquisa, muito estudo e trabalho, para que a produção de orgânico tenha produtividade e ainda, ser excelência em qualidade. Há pouco mais de um ano, a agricultora recebeu o selo de uma certificadora, mas a tradição de um plantio limpo sem nenhum tipo de produto químico veio de berço, é de família. Os pais também agricultores, nunca gostaram de usar agrotóxicos. Em 2014, Isabel deve fechar a safra com 20 mil quilos da fruta, será a maior produção de morango orgânico do Espírito Santo.


“Gosto de olhar para terra e sentir que ela é saudável. Minha família sempre praticou agricultura limpa, pesquisamos produtos, fazemos barreiras de proteção, fossas biodigestoras e também fossas, da água usada na cozinha e banheiros. Sempre ajustando um ao outro, para chegar até o ponto exato do cultivo sem risco. Não temos muita assistência técnica, mas estudamos muito e isso nos tornou uma referência no Caparaó ”, destaca a agricultora.


O plantio de Isabel virou referência não só no Caparaó Capixaba, mas também em todo o Espírito Santo, foi tema de um artigo da Universidade Federal de Viçosa, além de trabalhos de universitários da UFES, do Campus de Alegre. Foi assim, com muito trabalho, que a agricultora mostrou que é possível ter um diferencial na produção, em projetos governamentais, por exemplo, como a merenda escolar, o morango tem um valor 30% mais caro que outros produtos. No mercado consumidor direto, esse valor também é maior, o selo vem consolidar a qualidade dando credibilidade também ao agricultor.


Justamente essa mania de “arriscar ” que fez com que o negócio de Isabel desse certo, quando começou há 11 anos eram três mil mudas, depois esse número passou para sete mil, 11 mil, 12 mil, 22 mil e este ano, chegou a marca de 32 mil mudas. Além da propriedade em Areia Branca, existe outro cultivo com pouco mais de cinco mil mudas, na zona rural de Muniz Freire. Todo esse crescimento contou sempre com variações de mudas, no ano passado, ela inseriu as Chilenas, como o resultado não foi o esperado, resolveu arriscar mais e desde o início do ano, o cultivo está sendo feito com mudas vindas da Patagônia.


“Tenho quatro variedades nacionais e duas importadas. Assim garanto a produção de morango por todo ano. Nos picos da produção, julho e agosto, consigo tirar 300 quilos de morango por dia. Este ano, estou trabalhando com morango congelado que também é uma maneira de garantir que o produto não vai faltar para o consumidor. Estamos entregando na merenda escolar em cinco municípios do Caparaó, o sonho para 2015 é atender Cachoeiro de Itapemirim. Para isso, preciso ampliar a produção ”, afirma Isabel, com olhar desafiador.


Qualidade de vida combina com orgânicos



Quando decidiu deixar a cidade grande em busca de tranquilidade, encontrar uma propriedade que poderia ser usada para o plantio orgânico estava na lista de Rogério Coutinho e sua família. Natural do estado do Rio de Janeiro mudou-se para Vitória há 19 anos, depois que conheceram o Caparaó há 11 anos comprou uma propriedade em Córrego Frio, em Dores do Rio Preto. Há quatro anos, resolveram morar de vez no recanto que faz limite com o Parque Nacional do Caparaó. O nome do lugar não poderia ser outro: Vale da Luz. No Vale da Luz tem mata, cachoeira e uma terra fértil, muito fértil. Sem contar a sensação de paz que emana pelo lugar.



“Procuramos por uma propriedade como eles chamam de ´fim de linha´, sem vizinhos que pudessem contaminar as lavouras com agrotóxicos. Quando comprei nem precisei fazer as barreiras e já tínhamos fossas nas casas. Até conseguir a certificação de toda a propriedade foram três tentativas, finalmente conseguimos no ano passado e todos os nossos cultivos são orgânicos. O cuidado com a terra melhorou depois que viemos morar aqui ”, lembra Rogério.



No “Vale da Luz ” Rogério planta um pouco de tudo. Tem café, feijão, milho e cogumelos. Há dois anos, foi feito um plantio experimental de oliveiras, a expectativa é que nos próximos dois anos a colheita comece. Ao todo são 50 mudas, mas segundo o planejamento do Incaper, serão plantadas 100 mudas por ano, num prazo de cinco anos. A região do Caparaó é muito propicia para o plantio por conta do clima, mas a alta produtividade das culturas, nunca foi a pretensão do agora agricultor.



“Sabemos que não dá para competir com quem produz em grande escala. Eu vendo e produzo em pequena escala. Eu quero que seja rentável de outra maneira, sendo orgânico é uma solução. Isso é qualidade de vida. Pensávamos que iria demorar faltar água, já está faltando nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, a briga pelo abastecimento também já começou. Minha família decidiu por viver em paz e preservar ”, finaliza Rogério.



No caminho da transição



É pelo caminho da transição de plantação convencional para orgânico que segue o agricultor José Augusto Borges, de 45 anos. Ele gosta de chamar o caminho de agroecologia, mais que isso, chama também de segurança. Já que trabalhar no campo, sem o uso de agrotóxicos ou outros reagentes químicos, ficou melhor para saúde. Na pequena propriedade onde mora, em Santo Antônio do Bom Destino, em Divino de São Lourenço, ele planta um pouquinho de tudo, junto com a esposa a Dona Marilza Rodrigues Borges e os dois filhos, Leonardo e Lucas, faz da vida simples um exemplo de preservação e qualidade de vida.



“Eu pensei em voltar para cidade, trabalhava duro em propriedades grandes que usavam muito veneno e nunca gostei mesmo. No meu pequeno pedaço de terra, tenho de tudo um pouco. Planto uva, hortaliças, arroz, pêssego, laranja, café, crio ainda porcos e galinhas. O espaço é pequeno, mas a renda vem das feiras e também da venda de porta em porta ”, conta satisfeito Augusto, que não se cansa de cuidar da terra.

Cada dia um experimento novo, uma ideia de plantio, como o trigo que chegou através de turistas que passaram pelo município. Ele fez quatro anos de curso de homeopatia, pesquisa a proliferação de fungos, faz adubo biológico, usa caldas, mas ainda não tem a certificação de agricultor orgânico. “Não dá para ser de uma hora para outra, ainda preciso melhorar muita coisa e uma hora chego lá. No plantio de hortaliça já estamos conseguindo fazer tudo orgânico. Não dá para fazer uma agricultura usando venenos, trabalho com a minha família, posso até ganhar mais, porém depois gasto tudo com a saúde deles ”, diz Augusto.



O município de Divino de São Lourenço, o menor município capixaba que nem chega a cinco mil habitantes, tem 97% das suas propriedades, segundo o último Censo, formada de pequenos agricultores. A informação é de Ricardo Eugênio Pinheiro, Chefe do Incaper local, registradas são 1.200 propriedades, ainda com a prevalência das culturas do café, madeira e também da produção leiteira.



“Alguns agricultores começaram um trabalho com a agroecologia, mas não temos nenhum propriedade com certificado de orgânico de fato. Temos o programa PAIS implantado no município, como também o repasse de produtos dos agricultores para merenda escolar, essas ações incentivaram muito o plantio de alimentos em Divino de São Lourenço ”, avalia Ricardo. Apontando também, que foi uma saída para manter a exigência do consumidor, que cada vez mais vem em busca de plantio mais limpo.



No Caparaó Dores tem mais certificados



Bem ao lado de Divino de São Lourenço, o município irmão de Dores do Rio Preto está na frente quando se fala em certificação. Desde o ano passado, cinco propriedades foram certificadas pelo Instituto Chão Vivo de Avaliação da Conformidade. As inspeções são minuciosas, a validade da primeira licença é de apenas um ano, depois desse tempo nova inspeção é realizada para melhor desenvolvimento das culturas. O processo é importante para correção de irregularidades, como também fazer adequações para as produções.



“O Instituto Chão Vivo, em parceria com Incaper e Prefeitura, identificaram potenciais produtores que poderiam participar deste trabalho, uma vez que já desenvolviam atividades corelacionadas a processos produtivos em bases agroecologicas. A partir de capacitações, como visitas técnicas a unidades produtoras, excursões técnicas a outras propriedades orgânicas e centros de pesquisa do Incaper. Aconteceram também, reuniões técnicas temáticas e participações em eventos de agroecologia. Conseguimos mobilizar um grupo de agricultores familiares e empreendedores rurais. Entre eles, destacamos os trabalhos em fungicultura, olericultura, fruticultura, cafeicultura e agroecoturismo ”, explica o Chefe do Incaper de Dores do Rio Preto, Norberto das Neves Frutuoso.



A ideia das instituições é ampliar o número de agricultores orgânicos, muitos têm o perfil parecido no município e buscam reduzir o uso de agrotóxicos nas propriedades. “Talvez outros quatro agricultores e que tem o mesmo perfil entrem no processo de certificação. Porém, não é tão simples. A agroecologia, base dos processos produtivos, é uma ciência, ou seja, exige estudo, conhecimento e observação dos ciclos evolutivos, das ciências da natureza, troca de experiências e, acima de tudo, dedicação e amor À vida. Ter consciência de que está fazendo algo de bom para você e para os outros, aproveitando tudo que a natureza tem a nos oferecer. E quando conseguimos agregar a estes processos, a sustentabilidade como um todo, podemos nos sentir gratificados pelo nosso empenho ”, finaliza Norberto.



O despertar para a produção limpa no ES



São passos lentos que alguns agricultores do Caparaó começaram a dar em direção a produção orgânica. Além de Guaçuí, Divino de São Lourenço e Dores do Rio Preto, os municípios de Alegre, Iúna, Ibitirama também produzem orgânicos. Dados do Incaper, revelam que as propriedades estão dispersas (longe uma das outras) e esse é um fator que dificulta organização e estratégias conjuntas.



“Não dá para fazer comparação com a agricultura convencional. O volume é pequeno quando se faz essa comparação. Penso que o produto orgânico, não deve ser comparado com convencional sob esse aspecto. Estamos falando de outro modelo de agricultura. As estratégias são outras, assim como as técnicas de produção, logística, mercado, conceitos. Porém, o grupo que atua no setor é muito expressivo, ao se falar em produção orgânica e tem contribuído para ampliar a proposta e estimular novos agricultores a aderirem a esse modo de produção. O ES é um dos maiores produtores de orgânicos do país. Comparado proporcionalmente, somos o quinto maior produtor ”, disse o gerente estadual de Agricultura Orgânica, Decimar Shultz.



O Espírito Santo tem hoje 300 propriedades certificadas e outras 300 em transição, estando em processo de certificação. A expectativa é que esse número de propriedades certificadas dobre. “O Governo tem proporcionado certificação dos agricultores, além de incentivos com repasse de infraestrutura (máquinas equipamentos, caminhões, estrutura de comercialização), apoiamos a certificação. Atualmente, a SEAG assume integralmente o custo de certificação para as propriedades novas ao consolidarem a transição para agricultura orgânica ”, acrescenta Decimar.

Para acompanhar essa mudança, os técnicos do Incaper estão auxiliando os agricultores a elaborarem um plano de manejo orgânico da propriedade. Nesse plano, ficam descritos todo o manejo realizado na propriedade, bem como diagnosticados alguns problemas e possíveis soluções.


“Sem a certificação fica difícil garantir a qualidade. Imaginem a seguinte situação: um agricultor fornece seu alimento orgânico para um estabelecimento distante 300 km de sua unidade de produção. Como o consumidor pode ter o mínimo de garantia se aquele alimento é produzido no sistema orgânico? Criando um sistema de certificação, que ateste que o produto segue as normas de produção orgânica, mesmo porque o consumidor não conhece o agricultor. Desta forma, uma empresa chamada de certificadora tem o papel de verificar se a propriedade rural está seguindo as normas, se positivo, ela emite um certificado dando direito ao uso do selo nacional de agricultura orgânica ”, afirma Fabio Morandi de Morais, engenheiro agrônomo e extensionista rural do Incaper de Guaçuí, sem contar que é um amante da Agroecologia.

Mais do que está ligado a qualidade de vida, a agricultura orgânica acabou seguindo os rumos do avanço tecnológico e da busca do consumo de produtos sem resíduos. “Além disso, pessoas mais informadas e conscientes do seu papel na sociedade, procuram expressar isso também no ato de consumir. Consumir produtos além de seus benefícios nutricionais, já é uma exigência do novo consumidor. Ele quer saber se no processo produtivo, por exemplo, não há trabalho infantil, as nascentes e florestas são preservadas, os trabalhadores são bem remunerados, esses aspectos vão além dos nutricionais. No sistema orgânico de produção de alimentos, a meta é buscar permanentemente o equilíbrio do ecossistema. Nós temos uma Unidade de Experimentação Agroecológica em Domingos Martins que vem sendo manejada no sistema orgânico a mais de 20 anos. As pesquisas realizadas pelo INCAPER ao longo de mais de 20 anos e com mais de 10 hortaliças e frutas, indicaram uma redução média de 70% nos custos de produção, quando se comparado com cultivos convencionais. Ou seja, é mais barato produzir alimentos orgânicos ”, finaliza Fábio.


Agricultura orgânica em números:

Produtores: 300 certificados e 1300 com práticas agroecológicas (300 já em transição)
· Certificados: 300
· Em transição: 300 (as propriedades serão certificadas até final de 2014)

Produção
· Certificada: 1.300 t/mês (1.000t de frutas e 300t de olerícolas)
· Em transição: 2.700 t/mês

Área: 9.500 ha
· Certificada: 5.000 ha
· Em transição: 4.500 ha

Municípios 40
· Com Produtores Certificados: 21
· Com produtores em Transição: 19

Pontos de Comercialização no ES


Cerca de 50 pontos de venda de produtos orgânicos

o Supermercados
o Feiras Livres
o Feiras Especializadas (7 na Grande Vitória)
o Lojas Especializadas A Grande Vitória conta com sete feiras orgânicas


Saiba sobre orgânicos:
– A agricultura orgânica cresce aproximadamente 20% ao ano em todo o país, nas mais diversas atividades agropecuárias.

– Existem atividades orgânicas nos municípios de Alegre, Dores do Rio Preto, Iúna, Ibitirama, Guaçui e Divino São Lourenço.