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Mulheres na agricultura: das mãos que cultivam a lavoura ao gerenciamento dos negócios no campo

As mulheres estão presentes no dia a dia da agricultura e têm contribuído muito para o desenvolvimento rural do Espírito Santo e do país

por Redação Conexão Safra

em 06/03/2014 às 0h00

7 min de leitura

Elas representam cerca de metade da população que vive no meio rural no país. De acordo com dados de 2009 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 47,9% da população do campo no Brasil é formada por mulheres. No âmbito do trabalho na agricultura, elas são responsáveis, em sua maioria, pelo trabalho dentro de casa, nas lavouras e, em muitos casos, no gerenciamento dos negócios, sobretudo nas agroindústrias. As mulheres estão presentes no dia a dia da agricultura e têm contribuído muito para o desenvolvimento rural do Espírito Santo e do país.

De acordo com a responsável pela Secretaria de Mulheres da Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Estado do Espírito Santo (Fetaes), Ediane Barbosa, as mulheres sempre contribuíram para o crescimento da agricultura familiar, impulsionando a permanência das famílias no meio rural. No entanto, nem sempre esse trabalho foi reconhecido.

“Embora a mulher esteja presente desde os primórdios da vida camponesa, exercendo seu papel de mãe, esposa e lavradora, seu papel vivia no anonimato. No entanto, com muitas lutas ao longo dos séculos, as mulheres no meio rural têm alcançado visibilidade e espaço no seu contexto social ”, explica Ediene.

A economista doméstico do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), Jacinta Cristiana Barbosa, contribui para entender esse contexto. “O trabalho doméstico desempenhado pelas mulheres rurais é, muitas vezes, invisibilizado, porque as atividades do lar ainda não são aferidas como renda pois, não são consideradas como trabalho produtivo na agricultura. Quando tais atividades faziam parte apenas das ações de segurança alimentar e saúde da família não eram percebidas e nem mensuradas economicamente, mas deveriam ser. Essa percepção começa a mudar com a inserção desse trabalho nos canais de comercialização da agricultura””, afirma Jacinta Cristiana.

Ela também disse que o trabalho das mulheres nas atividades agrícolas ou não agrícolas ainda é identificado como ajuda ou ação complementar. Porém, mudanças no âmbito das políticas públicas têm contribuído para mudar esse cenário. “Estamos em processo de mudanças nesse sentido, pois algumas políticas públicas têm como foco a segurança alimentar visando à valorização e resgate dessas atividades realizadas por mulheres. O rural passa por um momento de conquistas, de agregação de valor, de percepção da gama de atividades produtivas que vão além da produção agrícola, de valorização e visibilidade do papel da mulher nas atividades rurais, sejam elas estritamente agrícolas ou não ”, avalia Jacinta Cristiana.


Na lavoura, mãos ágeis e determinadas

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As mulheres rurais, além de serem responsáveis pelo trabalho doméstico, participam dos cultivos agrícolas. Nesse caso, a suposta “fragilidade feminina ” apresenta-se como um mito. A senhora Lucília Littig Klippel, da comunidade de Boa Esperança, em Marechal Floriano, destaca-se pela grande atuação na colheita dos produtos que cultiva com a família. Em sua propriedade, há 40 mil pés de café, 5.600 de tangerina e 2 mil de banana.

“Em época de colheita do café e tangerina, acordo às cinco da manhã para fazer o café e o almoço para levarmos para a roça. Trabalho com meu marido e meus dois filhos, não temos empregado. A mulher no meio rural aguenta sim a enxada, a peneira, a foice. Não fica pra trás em nada em relação aos homens. A diferença é que ainda tenho o trabalho dentro de casa ”, conta Lucília.

O amor de Lucília pela agricultura é conhecido e reconhecido. No ano de 2005, ela participou do Concurso de Melhor Peneirador de Café, na comunidade de Santa Maria, em Marechal Floriano. “Concorri com 20 homens e quatro mulheres e fiquei em primeiro lugar. Esse concurso avalia quem é mais rápido e limpo na hora de peneirar. Não tem a ver com força, mas com jeito. Me senti muito feliz com o resultado, pois não é porque somos mulheres que não conseguimos fazer igual, ou até mesmo melhor que os homens, esse tipo de trabalho ”, conta Lucília.

Além do destaque no trabalho doméstico e na lavoura, Lucília ainda canta no coral, corta cabelos e toca acordeão. Ela disse que aprendeu a tocar o instrumento quando era criança e o gosto pela música permanece até hoje. “Aprendi a tocar sozinha. Toco em casamentos, pequenos eventos e festas juninas. O acordeão é uma maneira de alegrar o dia a dia ”, diz Lucília.


Nos negócios, visão empreendedora


Em casa, na lavoura e também nos negócios. A participação da mulher no trabalho do meio rural estende-se ao gerenciamento dos negócios nas propriedades. Esse é o caso de Marilza Módulo, jovem com visão empreendedora do sítio e agroindústria familiar “Penhazul ”, localizada em Pedra Azul, município de Domingos Martins. Além da produção de morangos orgânicos, ela, em conjunto com sua família, trabalha na agroindústria de geleias, vinhos e licores feitos com produtos orgânicos.

“Todos da família trabalham no negócio. Meu pai cuida da produção do morango, minha mãe fica mais com a parte das geleias e eu sou responsável pela parte comercial e contábil. Faço contato com os clientes do Rio de Janeiro, para onde vendemos nossos produtos, bem como com nosso representante comercial nesse Estado ”, conta Marilza. Ela disse que, desde os oito anos de idade levava os cheques para depósito no banco, a pedido dos pais.

Além da produção orgânica de morangos e produtos agroindustrializados, Marilza trabalha com agroturismo. “Fizemos a restauração do casarão italiano que temos no sítio. Colocamos móveis de época nos cômodos e decidimos abrir a propriedade para turistas. Eu sempre fui muito tímida e sempre trabalhei na roça. Mas quando tomamos a decisão de trabalhar com agroturismo, tive que superar esses medos, pois tinha que atender ao público. Me prepararei para fazer esse serviço ”, relata Marilza.



Ela disse que as perspectivas para a participação das mulheres em negócios no meio rural estão crescendo. “Há cerca de 10 anos, não havia tantas agroindústrias como existem hoje. O trabalho das mulheres ficava por conta dos filhos e da casa, além de ir para roça com os maridos. No entanto, com essa mudança no meio rural, elas estão mais à frente dos negócios nas propriedades, sobretudo quando se trata de agroindústrias ”, afirma Marilza, que recebeu a assistência técnica do Incaper em diversas fases de constituição do seu negócio: para converter a produção de morangos de convencional para orgânica, para tratos culturais pós-colheita, para produção das geleias e formalização da agroindústria.


Agroindústria: alternativa de renda para mulheres no campo


Os dados do Incaper a respeito de agroindústrias confirmam o depoimento de Marilza Módulo. Cerca de 80% das agroindústrias capixabas são gerenciadas por mulheres. A extensionista do Incaper que atua nessa área, Rachel Quandt Dias, explica esse panorama. “Essa atividade é, geralmente, iniciada pelas mulheres, na busca de alternativa de complementação da renda familiar. Conforme avança o empreendimento, a atividade que inicialmente era apenas complementar passa, muitas vezes, a ser a principal fonte de renda familiar, com a inclusão de outros membros da família, como marido, filhos e parentes próximos. Mas, ainda assim, na maior parte das vezes, a mulher permanece na gestão da agroindústria ”, afirma Rachel.

Nesse âmbito, o Incaper tem contribuído, principalmente, em ações de assistência técnica para obtenção de matérias-primas de qualidade e processamento adequado dos alimentos. “Também temos dado orientações quanto aos procedimentos necessários para formalização dos empreendimentos, apoio à organização de grupos produtivos e na comercialização dos produtos ”, destaca Rachel. Para obter mais informações a respeito de formalização de agroindústrias, procure o escritório do Incaper no seu município.


Fonte: Incaper

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