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Histórias de sucesso marcam os 45 anos da Escola de Olivânia

A escola mais antiga da América Latina é exemplo para tantas outras que foram fundadas no Espírito Santo e, além de marcar a vida de alunos e ex-alunos, está presente na vida de pessoas ligadas diretamente à agricultura familiar

por Redação Conexão Safra

em 14/04/2014 às 0h00

11 min de leitura

Alissandra Mendes


A Escola Família Agrícola de Olivânia, em Anchieta, completará 45 anos em abril e ao longo de sua trajetória, ela guarda histórias de perseverança, determinação e sucesso. A escola de pedagogia de alternância mais antiga da América Latina é um exemplo para tantas outras que foram criadas ao longo de seus anos de existência.

A história da EFA começou em 1937, quando Dom Elvécio Gomes Oliveira deu início à construção da estrutura do prédio, que inicialmente seria um seminário, mas não deu certo e ficou fechado por vários anos por problemas de malária na região. Na década de 50 passou a funcionar como educandário para menores carentes provenientes de Vitória. Na época, era mantido pelo Governo do Estado, mas essa iniciativa também não deu certo.

Posteriormente passou para a direção da Legião Brasileira de Assistência Social (LBA), e mais uma vez não alcançou seus objetivos. A história da EFA de Olivânia está relacionada ao nascimento do Movimento de Educação Promocional do Espírito Santo (Mepes).

Já no fim da década de 60, o padre Humberto Pietrogrande, jesuíta de origem italiana, veio para o Brasil e, juntamente com agricultores da região sul do estado, decidiu por implantar um projeto de promoção social das pessoas que viviam no campo, nesta época a maior parte da população. Criaram um comitê que, no ano seguinte, deu origem ao Mepes.

Após institucionalização do movimento, foram iniciados os primeiros passos para a construção da escola de Olivânia. Em 1969, a escola foi reconhecida pelo Ministério da Educação e deu início a suas atividades, sendo a primeira escola na América Latina a fazer uso da pedagogia da alternância.

“Naquele mesmo ano, Mário Juzilliani chegava ao Brasil depois de ter feito um curso técnico na Itália. Como eles precisavam de monitores, foi formado um grupo de 12 jovens de Iconha, Rio Novo do Sul, Alfredo Chaves e Anchieta e foram com Mário para a Itália. Durante a viagem, um dos jovens passou mal e Mário retornou para trazer o corpo e acabou ficando de vez e iniciou a primeira turma, que se formou em 1971. O primeiro curso era de agricultor técnico e naquela época durava dois anos. Hoje, são quatro anos ”, contou o coordenador administrativo, Givaldo Carreiro da Silva.

Em 1975, foi implantado o Ensino Médio, que atendia todos os jovens de vários estados do Brasil. Padre Humberto atualmente reside no Piauí e tem 86 anos e ainda é considerado um peso político para a escola.

“Naquela época era muito difícil arcar com as despesas. Não havia uma boa relação com o estado e o dinheiro vinha da Itália, da Associação dos Amigos do Espírito Santo. Na época da ditadura militar, o padre Humberto acabou sendo preso em Rio Novo do Sul durante um desfile cívico porque falava de libertação ”, comentou.



Associação


Já na década de 90, o estado passou a assumir uma parte, como acontece até hoje. A escola sobrevive basicamente do que produz e com a ajuda dos pais dos alunos. “Hoje, 100% dos monitores são via convênio com o estado, aprovado e amparado pela Lei 282, que garante a igualdade no repasse, a seguridade da educação rural e regulamenta o convênio ”, comentou Givaldo.

Em 1993, foi concluída a reforma do prédio antigo, conservando seus estilos e a construção de um amplo refeitório e cozinha. Em 2003, teve início o curso Técnico em Agropecuária, sendo formado pelo Ensino Médio e Curso Profissional.

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Um dos passos importantes dessa história foi a fundação da Associação de Pais da Escola Família Agrícola de Olivânia, que tem como objetivo desempenhar um papel político, atuando em parceria na condução dos trabalhos da EFA. Em 2005, a Associação atuou principalmente no Plano de Formação das Famílias, atividades agropecuárias e construções da EFA. Uma das principais metas da Associação é o Plano de Formação das Famílias, fomentando a participação dos pais na diretoria da instituição.

A Associação participa em nível regional do Comitê da bacia do Rio Benevente e assim, há um fortalecimento da participação dos agricultores em várias instâncias de diversos tipos de organização.

Hoje, a Escola Família Agrícola de Olivânia atende 199 alunos. São 13 professores, oito funcionários em toda a escola, em uma área de 26 hectares de terra toda voltada para a agricultura.



Pedagogia de alternância


Na pedagogia da alternância, um modelo de ensino adotado nas escolas famílias agrícolas, os alunos passam uma semana na escola aprendendo a parte teórica e uma semana em casa, colocando em prática, juntamente com os pais, o que aprenderam na escola.

De acordo com o método de ensino, os jovens são valorizados pelo que fazem e sabem. Eles continuam na mão de obra ativa no período em que passa em casa, inserido em seu meio natural. “Os alunos estudam uma semana aqui e passam a outra em casa, realizando atividades curriculares com a família ”, disse a coordenadora pedagógica e professora de ciências, Welcimar Gaigher Zetoles.

Além das disciplinas do currículo escolar os alunos estudam agricultura, zootecnia, culturas diversas, criações, desenho e topografia, irrigação e drenagem. E no final do curso escolhem fruticultura ou agroturismo para desenvolver um projeto. Esse projeto é como se fosse a monografia.

“Tivemos muitos casos de sucesso com esses trabalhos. A Lara Frut, empresa de polpa de fruta, foi o projeto de uma aluna nossa, a Luciana Catane Ricieri Poton, que criou a empresa com o marido Leomar Poton. Alguns alunos param, mas a maioria desenvolve os projetos. Tivemos também o Paulo Michel Shunki, que tinha plantação de coco e hoje produz a água de coco ‘Só Coco’. Temos o exemplo também do Fábio Catani, que trabalha com a produção de peixes em cativeiro. A Liliane Bramboti com o sistema de pastejo rotacionado, enfim, são muitos projetos de sucesso que saíram daqui ”, contou a coordenadora.

O ensino ministrado na escola tem duas vertentes muito fortes: econômico e social. Na vertente econômica os alunos são orientados a respeito da necessidade de construir uma fonte econômica para o futuro, adequando a propriedade e a produção com a demanda de mercado. Na vertente social são enfatizadas as questões ambientais como reciclagem do lixo, conservação e recuperação de nascentes e a conservação do solo.



Projetos escolares


Além dos projetos ao fim do curso, durante o curso os alunos desenvolvem projetos também na propriedade da escola. A EFA de Olivânia desenvolve projetos que são xodós dos professores e alunos. Um deles é o ‘Madeira Dura’, que é a recuperação de uma área de mata e a professora responsável logo avisa. “Lá ninguém mexe ”, disse Welcimar.

Eles também têm o UPD de banana, através de uma parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), o Incaper e a Secretaria de Agricultura de Anchieta. Segundo o coordenador, a produção é destinada à alimentação dos alunos. Já o excesso é vendido. “A preferência é do aluno. A produção vem para a alimentação e o excedente é entregue a um atravessador ”, disse o coordenador administrativo da escola.

Os alunos também trabalham na produção do café Vitória, também em parceria com a Prefeitura de Anchieta e o Incaper. Esse café é uma variedade do Incaper.
Existe também o projeto da laranja ponkan, desenvolvido pela escola com o apoio do Incaper. “O Incaper nos deu as mudas e o adubo e a escola entrou com a irrigação. Esse é um projeto experimental e a produção será na entressafra, no verão. O governo nos tem como parceiros e nos inclui nos projetos ”, comentou Givaldo.

Outro projeto desenvolvido pela escola com os alunos é o de melhoramento genético do gado leiteiro. “Temos 22 animais atendidos e em maio vão começar a cruzar. Todos são inseminados aqui. É o Holandês e Gir produzindo agora o Girolando. Estamos produzindo uma média de 50 litros de leite por dia e já chegamos aos 80. Temos o sistema de piquetes de mombaça e braquiarão e pretendemos chegar aos 150 litros/dia. Esse projeto já foi inscrito na Seag. O excedente do leite para a Cooperativa de Laticínios de Alfredo Chaves (Clac) ”, explicou o coordenador.



Estudei para trabalhar na EFA


Hoje, coordenador administrativo da Escola Família Agrícola de Olivânia, Givaldo Carreiro da Silva, 45 anos, contou que sempre quis trabalhar com esse método de ensino e cursou a faculdade já pensando em dar aulas na EFA. “Sou mineiro do interior de Laranjal. Vim para o Espírito e fui morar em Conduru, distrito de Cachoeiro de Itapemirim. De lá, me mudei para Iúna para fazer seminário. Eu queria muito ser padre. Nessa época, conheci o José Aranjo Nunes, hoje secretário municipal de Agricultura e Abastecimento de Cachoeiro, e ex-coordenador da escola. Durante uma visita aos alunos, me identifiquei e decidi que queria vir trabalhar aqui. Então fiz o magistério e fiz a faculdade em Alegre. Em 2000 me formei e coloquei o currículo no Mepes. No ano seguinte me casei e passei seis anos cuidando de uma granja e em 2005 me chamaram ”, disse.

A esposa de Givaldo também é professora da Escola Família Agrícola e a filha do casal estuda na EFA. “Aqui faço as três coisas que mais gosto: sou professor, cuido do setor de pequenas criações e estou em contato com as plantas. Estou cumprindo minha opção de vida. Tenho vontade de voltar a ser agricultor, mas aqui é o local que eu gostaria que minha filha ficasse por oito anos. Acredito muito na Escola Família Agrícola. Existe um respeito mútuo entre os alunos e os monitores ”, completou o coordenador.



‘A minha vida é a EFA de Olivânia’


A história da coordenadora pedagógica Welcimar Gaigher Zetoles se confunde com a de Olivânia. Ela estudou na escola, esteve na segunda turma a se formar e há 20 anos é professora da instituição. Foi na EFA que conheceu seu esposo e que suas filhas, hoje formadas em Farmácia e Nutrição, estudaram.

“Sou filha de agricultores aqui de São Miguel. Estudei de 1ª a 4ª série no colégio e para estudar de 5ª a 8ª série tive que sair daqui, pois não existia escola por aqui. Eu estudava em Alfredo Chaves quando abriu a escola e era uma boa oportunidade, pois eu não gostava da cidade. Em 1981 me formei em uma turma de 24 alunos. Nessa época de estudo conheci meu esposo. Nos casamos e fui para a Bahia, trabalhar em um modelo de escola parecido com esse. Em 1988 viemos para o norte do Espírito Santo e iniciamos na Escola Família Agrícola de Vinhático, em Montanha. Trabalhei lá até 1992 e vim para Olivânia, onde estou até hoje’, contou Walcimar.

“As minhas filhas estudaram aqui e com as notas do notas foram 100% bolsistas. Um se formou em Nutrição pelo Salesiano e a outra em Farmácia, pela Univix. Tudo com o programa do governo Nossa Bolsa. Olivânia é a minha vida, tive outras experiências, mas foi aqui que me encontrei ”, explicou.

No ano passado, Welcimar perdeu o marido em um acidente e o trabalho na Escola Família Agrícola de Olivânia a motivou a continuar sua vida e seus projetos. “A EFA valoriza e educa. Aqui os adolescentes e jovens desenvolvem atividades que são a realidade do campo. Para eles, estar próximo da realidade é muito importante. Tenho orgulho e sou feliz por fazer parte de um pouco dessa história ”, finalizou Welcimar.



Exemplos de sucesso


Em julho de 2013, a revista Safra divulgou uma reportagem sobre a história de sucesso da família Bortolotti. Pedro Bortolotti Menegardo, que estou na EFA de Olivânia e sua esposa Mercedes, são exemplos de superação e determinação. O aprendizado foi passado para os quatro filhos do casal que também estudaram em Olivânia e hoje, cursam medicina.

Residentes na localidade de São Vicente, em Rio Novo do Sul, eles são produtores do palmito Juçara, e começaram a produzir açaí e vender as polpas em grande escala para ser comercializado em vários municípios do estado. Cerca de 200 produtores em oito municípios vizinhos encaminham a produção para a polpa de açaí dos Bortolortti.

Enquanto o casal cuida da atividade familiar, os filhos: Vagner, Glauber, Cristiane e Larissa estão cursando a faculdade de Medicina. Além disso, Vagner e Galuber já são formados em Odontologia.

Vagner estuda na Universidade Estadual de Manaus e está no 10º período de Medicina. Ele é casado com Mayane, com quem tem um filho de três anos, Eduardo. Apesar de ainda não ter se decidido, ele comentou com os pais que pensa em ser cirurgião. Já Glauber, está cursando Medicina na Universidade Federal de Belém e está no 6º período. Ele já mencionou que quer ser otorrino, mas ainda não se decidiu.

Cristiani e Larissa também não se decidiram. A primeira está no 10º período de Medicina na Ufes, e já falou em ser geriatra. Já Larissa, está no último período, e sendo a caçula, será a primeira dos filhos de Pedro e Mercedes a se formar.

A história da família resume bem o método de ensino da Escola Família Agrícola de Olivânia. Sem condições de oferecer bons estudos aos filhos, muitos acabam não tendo oportunidades e continuam nas propriedades. O que a EFA prega é justamente esse ensinamento: os jovens rurais podem sim ter grandes carreiras profissionais dentro e fora das propriedades dos pais. Estudar na EFA é uma das grandes oportunidades desses jovens.


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