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A destinação correta de animais mortos e restos de parição é um desafio para diversos setores da produção agropecuária nacional, principalmente porque o Brasil não conta com uma legislação específica, que atenda aos aspectos sanitários, ambientais e econômicos, imponha regras aos produtores rurais e fiscalize esse descarte de cadáveres. Um dos segmentos alvos dessas discussões tem sido a suinocultura.
Agrônomo, zootecnista e pesquisador da área de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Suínos e Aves (SC), Everton Krabbe afirma que a destinação correta de carcaças de animaisnas propriedades e dos restos de parição não são desafiosexclusivos da suinocultura, entretanto, é nessa atividade que a unidade da estatal tem recebido o maior número de demandas por alternativas.
“Não há uma regulamentação para a remoção de cadáveres e subsequente destinação. Na propriedade rural, a destinação usual é aquela preconizada pela Embrapa, há muito anos: a compostagem. Masas atividades cresceram em escala e demandam, hoje, tecnologias mais eficientes e menos trabalhosas ”, ressalta.
Krabbe alerta para o fato deque o Brasil, por sua importância no mercado de proteínas de origem animal, tem sido questionado durante missões de outros países, que antecedem as exportações.
“A indicação de procedimentos seguros e regulamentados será positiva para o setor. A mortalidade rotineira é inerente ao processo, assim, diversos países com tradição na pecuária tem tratado desse tema, empregando diversas soluções, de acordo com sua conjuntura &ndash, clima, logística, normas ambientais, de bem-estar animal, sanitárias, entre outras. ”
RISCO SANITÁRIO
De acordo com o agrônomo, o manejo incorreto, na hora de descartar animais mortos e restos de parição, pode causar sérios problemas:“É necessário que se olhe a problemática sob diversos ângulos, mas sem dúvida, o de maior risco é que haja algum evento sanitário (doença) em nossos plantéis ”.
Lembra ainda que o maior patrimônio do Brasil é a saúde de seus plantéis e isso deve estar claro para toda a sociedade: “Outras consequências, decorrentes do fato de a destinação não estar sendo realizada de forma correta, são impactos ambientais (contaminação do solo e água), questões trabalhistas (insalubridade), bem como a percepção do consumidor, que se mostra cada vez mais sensível a riscos inerentes aos alimentos ”.
“É necessário que se olhe a problemática (do descarte correto de animais mortos) sob diversos ângulos, mas sem dúvida, o de maior risco é que haja algum evento sanitário (doença) em nossos plantéis ”, alerta o pesquisador Everton Krabbe, da Embrapa Suínos e Aves. Foto: Jairo Backes/Divulgação
MÉTODO USUAL
Na suinocultura, relata Krabbe, o método mais usual para descarte de cadáveres é a compostagem convencional e/ou o enterramento dos animais mortos:“Ambos podem ser considerados defasados tecnicamente e de eficiência baixa. É exatamente por isso que a Embrapa vem trabalhando com uma série de novas tecnologias, como compostagem acelerada, desidratadores, incineradores, trituradores e, inclusive, o uso desses resíduos na produção de biogás, uma vez que muitas granjas têm biodigestores instalados ”.
Segundo o especialista, para realizar o manejo correto de descarte de cadáveres, basta que o produtor siga critérios técnicos para alcançar resultados muito positivos: “De forma geral, os órgãos ambientais são os que melhor podem orientar os produtores. Mas existem outras fontes de informação, como as redes de assistência técnica, instituições de ensino e de pesquisas como, por exemplo, a Embrapa, dentre outras ”.
PROJETO TEC-DAM
Para auxiliar produtores e órgãos regulamentadores, a Embrapa Suínos e Aves avalia algumas práticas e tecnologias apontadas como rotas tecnológicas, como a compostagem acelerada, a biodigestão anaeróbia, a desidratação, a incineração e a reciclagem industrial de carcaças(rendering)para a produção de farinhas, gorduras, fertilizantes e outros coprodutos de valor agregado.
O entrave, de acordo com a unidade da estatal, é que essas rotas tecnológicas necessitam de uma validação para que possam ser indicadas, oficialmente, pelos órgãos regulamentadores. E isso não existe ainda.A avaliação dessas rotas, no entanto, já faz parte de um trabalho do órgão, peloprojetoTecnologias para destinação de carcaças(TEC-DAM),que conta com a participação da Embrapa Gado de Leite (MG) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
“Nós estamos, por meio desse projeto, avaliando as diversas tecnologias existentes no exterior e buscando entender como cada uma delas se alinha à nossa realidade ”, comenta Krabbe.
DEBATE NACIONAL
Atualmente, o tema relacionado à destinação correta de animais mortos nas propriedades rurais brasileiras é objeto de debate de um grupo de trabalho instituído pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), com a participação da Embrapa (portaria nº 216/2016) e do Projeto de Lei nº 5.851/2016, que tramita na Câmara dos Deputados.
“Esse tema é muito sensível. Na semana passada, foi realizado um workshop, organizado pelo CBNA (Colégio Brasileiro de Nutrição Animal), Sindirações (Sindicato Nacional dos Fabricantes de Rações) e a Embrapa. Estavam representados diversos elos da cadeia de produção e o resultado &ndash, com exceção da ABRA (Associação Brasileira de Reciclagem Animal), que defende a produção de farinhas de cadáveres para alimentação animal &ndash, foi que todos os demais representantes se mostraram unânimes para que não se faça isso ”, informa Krabbe.
Opesquisador alerta que existem diversas razões para não usar farinhas de cadáveres para alimentação animal, envolvendo desde a insegurança, as consequências da ingestão de substâncias tóxicas, que se formam nesses cadáveres, até o não atendimento ao bem-estar animal, uma vez que já se evidenciou que existem alterações em órgãos como fígado, rins e parâmetros sanguíneos de animais alimentados com essas substâncias e, especialmente, a percepção do público consumidor, tanto interno quanto externo.
“Não se sabe o que o consumidor fará, se caso os animais fossem alimentados com farinhas e gorduras produzidas a partir de cadáveres recolhidos nas propriedades rurais. Da mesma forma, o setor de alimentos para cães e gatos está muito preocupado, uma vez que o mercado consumidor reagiria muito negativamente. ”
Conforme Krabbe, o PL nº 5.851/2016, que tramita na Câmara, originalmente propunha isso, “mas diante das fortes reações contrárias, sofreu alterações e neste momento sinaliza para algo mais factível, que é a destinação desses cadáveres para fábricas exclusivas dedicadas a esse processo, gerando dois produtos que passarão longe da mesa dos consumidores ”. “Nesse caso, a gordura serviria para a produção de biodiesel e a fração sólida (torta de carne e ossos) seria destinada para a produção de fertilizantes organominerais. ”
Em relação à Portaria nº 216/2016, “o grupo de trabalho ainda não teve a oportunidade de se reunir, mas essa iniciativa é uma decisão acertada ”,garanteo pesquisador. “Talvez o grupo devesse ser integrado por um número maior de técnicos de áreas correlatas, algo que está sendo analisado no momento. ”
PEQUENAS, MÉDIAS E GRANDES PROPRIDADES
Krabbeconta que, atualmente, não existe diferença entre o descarte de animais mortos realizado em pequenas, médias e grandes propriedades rurais no país: “Os riscos são os mesmos, mas o problema assume dimensões maiores de acordo com o tamanho das criações ”.
Ele comenta que quanto maior o plantel, maior será o volume de cadáveres a serem destinados: “Por isso que a Embrapa, por meio do projeto TEC-DAM, está considerando todo esse universo de situações. Certamente existirão muitas regiões onde o recolhimento de cadáveres será inviável e, nesse caso, será necessária a adoção de medidas na propriedade ”.
“Inclusive, o próprio trânsito de animais mortos (remoção) ainda está sendo estudado no âmbito do projeto, por intermédio de uma análise de riscos. O tema é real e complexo: se por um lado, estamos com urgência para solucioná-lo, por outro, é preciso lembrar que esse problema vem ocorrendo desde sempre. Nesse momento, portanto, ciência, diálogo, bom senso, ética, proatividade são alguns dos requisitos necessários para sanar essa problemática, com a responsabilidade que o tema requer ”, avalia.
TRATAMENTO E REMOÇ,Ã,O
Conforme orientação da Embrapa Suínos e Aves, atualmente existem duas estratégias para a correta destinação de animais mortos: o tratamento dentro do estabelecimento agropecuário e/ou a remoção para centrais de tratamento. Nos dois casos, é necessário avaliar o cenário e as condições em que a morte ocorreu, reforçando que o óbito de animais por doenças de notificação obrigatória deve ser comunicado ao Serviço Veterinário Oficial do Mapa.
Para mais detalhes sobre o projeto TEC-DAM e orientações para descarte correto de animais, acessehttp://ow.ly/3X0h309WBKF(link encurtado).
Fonte: SNA





