FairTrade completa oito anos na Cafesul

Com aumento de 89% da venda de Cafés especiais e certificados em sete anos os cooperados comemoram os bons resultados e garantem que investir em qualidade foi o grande diferencial

Elisangela Teixeira

Fotos: Elisangela Teixeira

Leandro Poggian e o pai, sr. José Nobre degustando o café de sua propriedade. A alegria e o orgulho passam de geração a geração

Há 15 anos Leandro Poggian, da localidade de Palmeira, em Mimoso do Sul, Sul do Espírito Santo é produtor rural. O ofício passado de pai para filho há três gerações é hoje a única fonte de renda da família. “Aqui tomamos conilon puro ”, conta com um sorriso no rosto. O motivo da alegria tem origem na qualidade do café que ele produz afinal seu produto obteve 86 pontos no primeiro concurso que participou há quatro anos. Hoje ele sustenta média de 83 pontos.

Leandro não está sozinho. Ele e mais 142 produtores associados à Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Estado do Espírito Santo &ndash, Cafesul estão rindo à toa. Devido a alta qualidade do café conillon produzido, os cooperados conseguem receber até 15% a mais do que o mercado paga em média pela saca do grão. Esse percentual é o resultado das certificações obtidas pela Cafesul e a mais antiga delas, a FairTrade completa oito anos em 2016 colhendo literalmente os frutos do trabalho realizado.

Desde que recebeu a certificação, a venda de Cafés especiais da Cafesul passou de 5.070 sacas de café em 2009 (primeiro ano após a certificação) para 9.585 em 2016. Aumento de 89% em sete anos. O percentual é justificado pelo investimento feito tanto pela cooperativa com treinamentos, cursos, capacitações e visitas técnicas, entre outras ações, que incentivam o crescimento da produção, quanto pelos cooperados que aderiram à ideia de aumentar a qualidade do café.

Leandro é um bom exemplo disso. Depois de orientado pela cooperativa, investiu em renovação de lavouras, adquiriu mudas de qualidade e adensou o plantio. Aonde antes havia 1.200 pés de café, hoje tem mais de três mil. “Minha produção triplicou. Hoje conseguimos produzir de 80 a 100 sacas por hectare ao ano ”, comemora.

Para o presidente da cooperativa, Carlos Renato Theodoro, as certificações servem para dar garantia do produto que o consumidor leva pra casa. “O Fairtrade atesta que este café foi produzido atendendo uma série de condicionantes sociais e ambientais e que por isso ele está pagando um diferencial de preço. A aceitação tem sido incrível ”, explica.

O produtor José Verly está satisfeito com o investimento na propriedade e o valor pago pela saca

Competindo com os grandes

Outro ponto importante do selo FairTrade é que devido as ações necessárias para certificação, ele coloca os cooperados, na maioria pequenos produtores, em nível de igualdade com grandes, dando a eles representatividade.

Hoje, o quadro de cooperados da Cafesul é composto por produtores de Muqui, Mimoso do Sul, Jerônimo Monteiro, Cachoeiro do Itapemirim, Atílio Vivácqua, Anchieta e Alegre, municípios que sozinhos não conseguiriam encarar a disputa com Brejetuba, Iúna e Muniz Freire, alguns dos maiores produtores da região Sul, por exemplo, mas unidos conseguem também vender sua produção para grandes empresas e até exportar.

São pessoas como o produtor José Verly, de 61 anos, cooperado da Cafesul desde que se aposentou no Rio de Janeiro há oito anos e voltou para Muqui a fim de ter sua uma propriedade. “Peguei tudo que tinha e investi em oito hectares. Se não fosse minha associação à cooperativa não teria condições de competir de igual para igual com o mercado. Optei por ter qualidade à quantidade de produção. Hoje minha pontuação média é de 83. E pretendo melhorar ”, informa.

Entre os investimentos, ele segue à risca as regras FairTrade e está fazendo barragens, poda programada, recuperando solo de parte da propriedade, não utiliza agrotóxicos proibidos e faz preservação de nascentes. “Vale a pena, pois hoje vivo disso aqui. Todo o esforço compensa, principalmente pelo valor pago a nós, maior que o de mercado ”, garante o produtor.

Técnico da Cafesul orientando o produtor José Verly durante a construção de uma barragem

Qualidade que faz a diferença internacionalmente

Hoje a Cafesul possui três certificações: O FairTrade, propriamente dito, a Triple AAA, com a Nespresso e a 4C com a Nestlé. Todas elas permitem que a produção seja vendida para duas fábricas de solúvel, uma em São Paulo e outra no Paraná, também certificadas, e que depois exportam este solúvel para diversos países na Europa, Ásia e Estados Unidos.

“Vendemos também para empresas exportadoras e para o mercado interno quando os negócios Fairtrade não absorvem todo o nosso café ”, diz o presidente da cooperativa, Carlos Renato. E a qualidade do café da cooperativa tem sido alta. Pelo menos é que o mostra o exigente mercado europeu. De acordo com o Gerente Operacional e Degustador, Talles da Silva de Souza a demanda para este ano foram de sete containers, mas devido a seca a cooperativa conseguiu enviar apenas um.

“Foi triste não poder atender a demanda, mas isso nos deu o termômetro do negócio. O padrão internacional de qualidade é altíssimo, por isso temos certeza que estamos produzindo café de excelente nível aqui. A certificação FairTrade mudou toda estrutura da cooperativa para atender as exigências e hoje temos o reconhecimento pelo que investimos, não só dos cooperados, mas de todo mercado ”, finaliza Talles.

Saiba
O que é o Fair Trade?


A Certificação Fairtrade é fornecida por uma organização Internacional com sede em Bonn, na Alemanha. Para obtê-la é preciso atender exigências ambientais, como uso restrito de agrotóxicos, utilização de Equipamentos de Proteção Individual (EPI), preservação de solo a água, e sociais, como não ter trabalho escravo ou infantil, todos os empregados com contrato de parceria ou carteira assinada. Devido a certificação a cooperativa consegue um preço adicional pelo café vendido, além de um prêmio social a ser investido na Cooperativa e nas comunidades onde ela atua com projetos em áreas sociais, ambiental, e gênero.

O Comércio Justo (FairTrade) é um movimento social global cujas experiências pioneiras começaram no final da década de 40. &Eacute, um modelo de negócio alternativo que coloca o ser humano no centro, dignificando seu trabalho, e a natureza, incentivando a gestão responsável e sustentável dos recursos naturais.

O Gerente Operacional e Degustador, Talles da Silva de Souza, já participou de eventos internacionais e trouxe conhecimento para aumentar ainda mais a qualidade do café dos cooperados

Seu objetivo principal é garantir aos pequenos produtores, agricultores e artesãos organizados acesso direto ao mercado em condições equitativas, criando um canal de comercialização solidário e de qualidade, o mais direto possível entre produtores e consumidores, que reconheça a dignidade do trabalho dos produtores e de suas organizações, e garanta que estes estão comprometidos com o desenvolvimento sustentável de suas comunidades.

Produto final da Cafesul, pronto para conquistar o mundo

Entrevista: Carlos Renato Theodoro &ndash, Presidente da Cafesul


Carlos Renato Theodoro &ndash, Presidente da Cafesul

O presidente da Cafesul, Carlos Renato Theodoro fala nesta entrevista sobre a decisão de obter as certificações e como elas influenciaram para melhor o dia a dia da cooperativa.

Qual o objetivo da Cafesul em ter este certificado?

Esta certificação surgiu de uma necessidade de nos diferenciarmos no mercado de café, visto que tínhamos uma concorrência muito forte de compradores e atravessadores na nossa região. Ela só poderia ser feita de forma coletiva, por isso foi realizada por meio da cooperativa. Em um determinado momento fizemos um Planejamento Estratégico em que definimos que o nosso foco seria em Cafés Certificados e Especiais. Além disso, desenvolvemos um trabalho com qualidade de café há seis anos e temos conseguido resultados expressivos em nossos Concursos de Qualidade com Cafés Conilon Especiais com notas acima de 80 pontos.

O que mudou com esta certificação?

Com a certificação a Cafesul mudou de patamar no mercado de café, sendo hoje reconhecida na nossa região como referência em Qualidade e Sustentabilidade. Esta certificação abriu portas para que buscássemos parceiros para os diversos projetos que desenvolvemos.

Como os cooperados reagiram com essa certificação?

Os cooperados receberam muito bem a ideia do projeto visto que o processo de certificação só trouxe benefícios para eles. Eles receberam melhores preços para o café, melhoraram as condições ambientais nas propriedades, e, com o uso de EPI&acute,s e a diminuição no uso de agrotóxicos, tiveram uma melhor proteção da sua saúde. Eles também foram estimulados a produzir cafés de qualidade superior como mais uma alternativa de melhoria de renda.

Quais ações foram realizadas para que a cooperativa recebesse essa certificação?

Foram diversas ações, tais como capacitar os produtores no uso de EPI, orientá-los quanto a lista de produtos proibidos e os males que eles podem causar, construção de depósitos de produtos e embalagens vazias para evitar o contato direto de animais, pessoas e principalmente crianças. Capacitações sobre manejo de pragas e doenças, poda de cafeeiro, manejo de solo a água, etc.

A cooperativa tem participado de eventos internacionais. O que tem mudado nessas viagens?

Nós participamos de Feiras Internacionais de Cafés Especiais principalmente na Europa e nos Estados Unidos, com o objetivo de prospectar mercado para os nossos Cafés Certificados e também como forma de conhecer as tendências de mercado para os próximos anos. Nelas pudemos observar a Terceira Onda do café, onde os consumidores estão interessados em consumir produtos de qualidade, que respeitem o meio ambiente, bem como saber a origem dos mesmos. &Eacute, a rastreabilidade da cadeia produtiva.

Fale sobre a habilitação para exportação direta no &quot,Projeto de Internacionalização&quot,.

Nós desenvolvemos junto com a OCB-Sescoop e a ADERES um Projeto de Internacionalização da Cooperativa em que recebemos capacitações sobre mercado internacional, nos habilitamos para exportação direta junto a Receita Federal e participamos de algumas Feiras com o apoio do Projeto. Este projeto vai de encontro a busca pela exportação direta dos nossos Cafés Certificados Fairtrade.

Os dados das vendas Fairtrade na Cafesul:

AnoSacas
20095070
20106530
20114580
20124600
20134100
20147000
20155070
20169585

Valor médio

R$ 416,00 –
Este foi o valor médio por saca, com prêmio incluso, pago em oito anos de Fair Trade na Cafesul. Este valor médio por saca aumentou este ano com a alta do dólar e dos preços do café.

Saca por hectare

50 –
A média dos produtores da Cafesul era em torno de 20 sacas por hectare, hoje está na faixa de 50 sacas por hectare, com os trabalhos de assistência técnica desenvolvidos pela Cooperativa.

Pontuação

Média de 80 –
Alguns cooperados estão conseguindo cafés com notas superiores a 80 pontos no Concurso de Qualidade de Café Conilon, que já chega a sua 6&ordf, edição este ano, sendo a premiação marcada para dia 26 de novembro.

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