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Por Ana Glaucia Chuina
Persistência, fé e empreendedorismo. Esses foram alguns dos principais ingredientes que tornaram a história do cacauicultor José Manoel Monteiro de Castro e da sua esposa Catarina Bianchi, um grande sucesso. Com uma plantação de cerca de dois mil pés de cacau em produção, em uma área de quatro alqueires, eles chegam a colher 700 quilos da amêndoa por ano. Aproximadamente 12 sacas.
A propriedade fica às margens da BR 101, a exatos sete quilômetros do Centro de Iconha, no Sul do Estado. O acesso é por uma estrada não pavimentada.
Foi em 1989 que surgiu a ideia do cultivo do cacau. Até então, a seringueira era a única atividade agrícola na propriedade. “Enquanto eu observava a imensidão da plantação de 3.600 pés de seringueira, durante o carregamento de um caminhão, vi o espaço ocioso de sete metros entre uma planta e outra e, aí, pensei no cacau como uma alternativa ”, lembra Manoel.
Ele adquiriu 500 mudas em Linhares, no norte do Estado, referência no cultivo e comercialização do fruto. A escolha da nova atividade agrícola não foi bem recebida pelos colegas de cooperativa e técnicos agrícolas. “Muita gente dizia que eu ia estragar os painéis da seringueira e que era louco por plantar uma floresta em um lugar onde a prática era café e leite. Mas eu continuei buscando sempre ter um bom resultado ”, disse.
E foi na primeira comercialização, por volta de 1998 que o produtor viu que toda a sua insistência e dedicação tinha valido a pena. “Quando vendi minha primeira produção, tive um choque positivo. É similar ao vivido hoje, só que com valores muito mais altos. Era o período no qual o plano Real estava com muita credibilidade e o nosso dinheiro ficou quase equiparado ao dólar ”, lembra.
Em um fusca ele colocou as três sacas colhidas e em Linhares vendeu cada uma a R$ 580,00. Com o bom resultado, ele voltou de viagem ainda mais animado, porém preocupado com os cuidados com a lavoura, já que no Estado muitas plantações haviam sido atingidas por uma praga conhecida por vassoura-de-bruxa. A doença que ataca principalmente frutos, brotos e flores do cacaueiro, acarreta na queda acentuada na produção, provocando o desenvolvimento anormal, seguido de morte, das partes infectadas.
Em uma reunião com técnicos, que falaram sobre o uso de defensivo para combater a praga, José Manoel foi contra, já que o agrotóxico condenaria insetos primordiais para a polinização das flores do cacau. “Existem momentos que a gente passa aperto por ser um processo natural, mas a natureza tem um contra-ataque. Ela demora um pouco, mas se encarrega de combater a praga. Sou ambientalista de fato ”, ressalta o produtor que realiza o cultivo orgânico do fruto.
No decorrer de 20 anos, José Manoel se aprimorou no cultivo do cacau e ajudou a abrir caminhos para o plantio e a comercialização no Sul do Estado. Hoje, cidades como Guarapari, Anchieta, Alfredo Chaves, Iconha, Rio Novo do Sul, Cachoeiro, Alegre, Jerônimo Monteiro, Atílio Vivácqua, Mimoso do Sul, Vargem Alta e Piúma abastecem grandes atacadistas de Linhares. O Governo do Estado, por meio da Secretaria de Estado de Agricultura, Abastecimento e Pesca, o Incaper e o Sebrae são parceiros no processo, informa José Manoel que também atua como representante na Confederação Nacional da Agricultura (CNA).
Hoje, Manoel não exerce mais a atividade comercial do cacau. Ele passou a direcionar toda a sua produção para uma vertente não menos desafiadora: a produção do chocolate gourmet, cuja composição é de pelo menos 40% cacau.
Do fruto ao chocolate
Já dedicados cada vez mais ao cultivo orgânico e com a produção de um cacau bem fermentado, seco, sem doenças ou fungos e considerado gourmet, o casal chegou ao ponto do primeiro inconformismo: o que fazer com uma amêndoa de qualidade cujo preço de mercado não era valorizado? O questionamento coincidiu com um período de queda acentuada no preço do fruto devido à prática das commodities. Era entre os anos 2004 e 2005 e foi então que eles começaram a participar cada vez mais de eventos ligados ao cacau e ao chocolate.
Em 2012, participaram a convite do Governo do Estado e do Governo Federal do Salão do Chocolate, em Paris. Foi a partir dessa primeira experiência que passaram a ter contato com empresários da grande indústria do setor, como chocolateiros de renome no Brasil e os conhecidos caçadores de amêndoas da Califórnia, nos Estados Unidos, França e Bélgica.
“Estávamos em um grupo organizado por quatro chocolateiros do Estado e, no salão de Paris, buscávamos um melhor preço pela nossa amêndoa. Lá descobrimos que ela valia muito mais do que o mercado pagava. Quando ouvi um comentário no local dizendo que o Brasil nunca teria condições de fazer um bom chocolate gourmet, sendo que o chocolate gourmet americano é feito com nossa amêndoa, minha vontade de empreender foi maior do que qualquer obstáculo ”, lembra Manoel.
Ele voltou da viagem disposto a mudar a visão dos europeus. Com outros dois colegas de Linhares, um deles Emir de Macedo Gomes, que teve a amêndoa produzida naquele ano, premiada em Paris, começaram a trocar informações sobre a produção de chocolates gourmet.
Mão na massa
Em março de 2013 eles começaram a visitar o parque industrial brasileiro e a ver o que existia de equipamento para dar início ao processo de transformação da amêndoa em chocolate. Porém, o alto custo trouxe um sabor amargo para a realidade dos produtores. Uma planta básica para uma indústria pequena ficava em torno de um milhão de reais. Com equipamentos caros e sem um projeto nacional que viabilizasse o custeio, a ideia foi ficando inviável.
“Nosso amigo desistiu. Ele viu que era difícil e não quis procurar uma alternativa. Eu e a Catarina, não. Nós não dormíamos direito enquanto não virássemos o jogo. Pelo fato de ser cristão, não acredito que estamos predestinados à derrota. Fomos atrás dentro do orçamento que cabia no nosso bolso ”, relembra.
De forma muita caseira eles começaram a testar as primeiras receitas, que eram feitas na cozinha da residência e provadas pelos amigos durante os churrascos e rodadas de pizza. Até adquirirem a primeira máquina eles usaram pilão, moedor de carne e liquidificador.
O espaço ficou pequeno e um cômodo foi montado com a refrigeração necessária. Os testes para a receita ideal prosseguiam. “O cenário é fechado. Ninguém te dá receita. Tivemos o feeling de pegar informações, fazer cálculos matemáticos com quem trabalhava com uma produção de toneladas/dia e reverter para quatro quilos/dia. Não é só fazer chocolate. Há todo um cenário por trás ”, comenta Manoel
“Demos um jeito de participar de todos os eventos, palestras e cursos que envolviam cacau e chocolate. E fomos aprendendo. Visitamos muitas fábricas, principalmente em Ilhéus, com maquinários grandes e fomos observando tudo que podíamos tirar para a nossa realidade ”, lembra Catarina.
Eles investiram do próprio bolso, se aprimoraram , fizeram viagens internacionais e em setembro de 2013 adquiriram a primeira máquina.
A receita dos empreendedores foi degustada por uma badalada chocolateira gourmet da Europa, que opinou e indicou o caminho para aprimorar o chocolate produzido em Iconha.
“Voltamos e corrigimos. Para quem é humilde, nada está pronto. Você sempre tem condições de melhorar alguma coisa. Estamos aprimorando dia a dia. É muito bom ouvir de renomados profissionais que o nosso seu produto não deixa a desejar a nenhum importado ”, comemora o casal.
A partir de 2014 a receita foi melhorada e o produto começou a ganhar mercado. A fábrica de chocolate de 106 metros quadrados foi construída no ano de 2015, no quintal do casal.
A produção diária é de 16 kg. Os produtos são variados e, em datas comemorativas, cestas e formatos especiais de chocolates são produzidos sob encomenda. As versões 70% cacau, diet, café e ovomaltine são algumas das especialidades.
O produto totalmente artesanal e feito com cacau orgânico pode ser encontrado, também, em pontos de vendas de Cachoeiro, Itapemirim, Domingos Martins, Vargem Alta, Piúma e Vitória.
Casal afinado
O sucesso adquirido após muita pesquisa e determinação é fruto de um trabalho bem divido pelo casal de empreendedores. Cada um tem uma função específica. José Manoel cuida do cultivo, da colheita e fermentação da amêndoa.
Quando o produto chega à fábrica, que assume é a Catarina, que comanda as máquinas e as receitas dos chocolates.
Desafio
O próximo desafio dos empreendedores é transformar o local da fábrica em um ponto de agroturismo e abrir para visitação de escolas, com opção de estadia e lazer para a família. Um projeto futuro, mas que já começa a ser fomentado.
Outra novidade apresentada pelo casal é a organização do primeiro encontro de chocolateiros do Espírito Santo, que acontecerá em setembro. O evento será realizado entre os dias 7 a 10, em Pedra Azul, Domingos Martins.
Na programação, ainda em fase de conclusão, haverá exposição dos chocolates produzidos no Estado, aulas show, degustação, palestras sobre sustentabilidade do cacau, oficinas kids e outros.
A intenção é fazer com que seja um evento fixo no calendário do Estado. Seag e Sebrae são parceiros da realização do festival. Vão participar expositores de Iconha, Vila Velha, Vitória e Linhares.
Cacau no Brasil e no Estado
A cultura cacaueira foi introduzida no Brasil no século XVII pelos portugueses. O cultivo brasileiro em larga escala teve início no século XIX, na região de Ilhéus, no sul da Bahia. As condições climáticas adequadas fizeram com que o país liderasse a produção mundial de cacau no período entre 1905 e 1910.
Em 1993 a produção mundial de cacau in natura era de 2,5 milhões de toneladas. Na safra internacional de 2000/2001 em função da existência de pragas na cultura, especialmente a vassoura-de-bruxa o Brasil passou a ocupar o 5º lugar, com uma produção de 150.000 toneladas.
Atualmente, o Espírito Santo apresenta 23 mil hectares de área plantada. Segundo a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag), a cacauicultura está distribuída em 40 municípios. Linhares, no Norte do Estado, lidera a produção com mais de 87% da área total.
Serviço:
1º Festival do Cacau e do Chocolate do Espírito Santo
Data: 7 a 10 de setembro (quinta a domingo)
Local: Pedra Azul, Domingos Martins, no Bristol Hotel
Público: Visitante em geral
Programação: Exposições dos chocolates apresentar o produzidos no Estado, divulgação do agroturismo local, degustação de chocolate, aula show com chefs chocolateiros, palestras sobre a cadeia produtiva do cacau e sustentabilidade.
Expositores: Iconha, Vila Velha, Vitoria e Linhares
Chocolate Gourmet
O chocolate gourmet – também conhecido como premium – deve seguir alguns requisitos, como ter a quantidade de açúcar menor do que a quantidade de cacau, massa de cacau e manteiga de cacau (que por sua vez deve ser a única gordura presente em sua composição).
Ele também não deve ter conservantes, deve ser preparado por chocolatiers experientes. Como qualquer outra planta, o cacau varia de acordo as condições climáticas da região e do solo em que foi plantado, uma relação conhecida como terroir do produto.
De acordo com a intensidade do cacau ele se adaptará melhor a um tipo de preparo, mas deve haver um trabalho identificando quais os ingredientes que potencializarão o seu sabor – que, basicamente, é definido pela gordura natural da semente, chamada de manteiga de cacau, considerada um produto nobre.
Quanto melhor a qualidade do cacau, melhor o chocolate obtido, porque o sabor não sofre influência do leite ou do açúcar. Além da qualidade, é o percentual de cacau que o coloca na categoria gourmet, variando entre 40% e 80%. Abaixo do percentual mínimo ele não pode ser considerado gourmet. (fonte:internet/adoro chocolate.com)





