Cariacica: a maior área de banana orgânica da América Latina fica aqui

Cadeia de base produtiva orgânica do município se aproveita da proximidade com a zona urbana para fazer bons negócios

por Leandro Fidelis

em 17/06/2021 às 6h00

13 min de leitura

Cariacica: a maior área de banana orgânica da América Latina fica aqui

O levantamento do Mapa considera a produção por pessoa, o que coloca Cimar da Silva como dono da maior área da América Latina dedicada à banana no sistema orgânico.*Fotos: Leandro Fidelis/Conexão Safra- *Imagens com direitos autorais)

O João Bananeira é um ícone do Carnaval de Congo de Máscara na localidade de Roda d’Água, zona rural de Cariacica. Criado pelos escravos, o personagem folclórico usa uma máscara e se disfarça, cobrindo os braços de meia e o corpo, com uma saia com chita colorida e de folhas secas de bananeiras. 

A descrição do símbolo ainda presente no imaginário local mostra como a cultura da banana é antiga no município metropolitano. E é a fruta tropical que coloca Cariacica em destaque no agronegócio continental. Com 56% do território na zona rural, o município conta com a maior área de produção de banana orgânica da América Latina. São cerca de 80 hectares, sendo 50 ha somente de uma única propriedade, o Sítio Liberdade, conforme reconhecimento do Ministério da Agricultura (Mapa).

A zona com os maiores produtores se concentra ao longo da Estrada do Azeredo, próximo ao majestoso Monte Moxuara. O Sítio Liberdade fica localizado a 6 km da sede, e produz 100 toneladas de banana prata orgânica por mês. Toda semana saem dois caminhões lotados, tendo como destinos supermercados da Grande Vitória e do Rio de Janeiro. 

Além do sítio, o proprietário Cimar Antônio da Silva colhe em outras quatro propriedades o ano todo. As bananas produzidas à base de esterco de galinha recebem código de rastreabilidade e, após embaladas e 24 horas na câmara fria, seguem viagem para 32 unidades de uma rede de supermercados do Rio. 

Funcionário do Sítio Liberdade há 20 anos, Nilson Rovetta afirma que as bananas não apresentam um padrão único, porém são mais doces que a fruta produzida no sistema convencional. As atividades envolvem 22 pessoas, divididas entre a colheita, os cuidados com o bananal e a embalagem da fruta no galpão.

Mais adiante, na localidade de Duas Bocas, encontramos outro produtor de banana prata orgânica, Rafael Ribeiro. Ele é da terceira geração de bananicultores da família. “Meu avô já produzia banana orgânica, sempre tratada na base da enxada”, diz. Em duas propriedades, Rafael produz a fruta em 18 hectares e, desde 2013, conta com a certificação para orgânico. 

O sítio com a maior área (10 ha) faz divisa com a Reserva Biológica Duas Bocas e fica distante 8km de Cariacica Sede e 15 km de Campo Grande, conhecida como “Centro Comercial” do município. E o mais interessante: do alto das plantações é possível avistar a capital Vitória.

Os cultivos são todos irrigados, o que imprime diferença na qualidade e na quantidade da banana, garante Rafael. A produção varia de 300 a 400 caixas de 15 kg por semana, dependendo do mês. Juntos, os dois bananais produzem 285 toneladas de banana prata orgânica por ano, que saem com a marca “Bananas Ribeiro” para o Rio de Janeiro. 

“O sabor da banana orgânica é como mel, a casca mais grossa a deixa mais resistente e é boa para a saúde de quem consome. O tamanho pode impressionar, pois se parece com uma fruta cheia de fertilizante, mas a terra é fértil”, afirma o produtor, que contou com ajuda do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-ES) e Secretaria Municipal de Agricultura no processo para obter a certificação orgânica.

Para o bananicultor, é gratificante viver do agro dentro da Grande Vitória. “Isso faz toda a diferença. Vou à cidade, resolvo as coisas e volto para a roça. O Espírito Santo é um Estado bem completo. Tem montanhas, praias e zonas rurais todas próximas. Saber que nossa mercadoria vai para outros Estados é muito bom”, conclui.

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Nicho

O técnico da Secretaria de Agricultura de Cariacica, Wanderson Souza, avalia que a cadeia de base produtiva orgânica do município se aproveita da proximidade com a zona urbana para fazer bons negócios.

“Temos muitas feiras orgânicas na cidade, e alguns produtores já identificaram esse nicho de mercado dentro do conceito de vida saudável e de mudanças nas bases de produção e comercialização”, diz.

Cariacica contava com apenas um produtor certificado há dez anos e chegou ao total de 49 na última década. No entanto, aponta Wanderson, esse número diminuiu razoavelmente em função de alguns agricultores não se adaptarem com o processo de produção.

“Os programas de alimentação escolar pagam trinta por cento acima do valor de mercado a produtos certificados orgânicos. Os agricultores que permanecem na atividade estão arrendando terrenos e ampliando a área, o que nos coloca como referência na produção de banana orgânica”.

Rafael Ribeiro entre o secretário Municipal de Agricultura e Pesca, Nilson Teixeira, e o técnico da Secretaria, Wanderson Souza. 

 


‘Pitaieiro’ transforma coleção em negócio 

Depois de anos dedicados à empresa na área da Medicina do Trabalho, Moacir Dias Ferreira (60) retornou às origens agrícolas, em São Mateus, ao adquirir o Sítio Vista do Moxuara, há 21 anos, na localidade de Cangaíba, zona rural de Cariacica. Plantou aipim e banana, mas foi no início da pandemia que uma cultura inédita no município deixou de ser apenas objeto de colecionador para virar negócio lucrativo.

Moacir é dono da maior área de cultivo de pitaia que se tem notícia no Espírito Santo. Aos pés do Monte Moxuara, as plantações da fruta, uma espécie de cacto originária da América Central, ocupam meio alqueire- o equivalente a 2,4 hectares- do total de 3 alq da propriedade. Outros 2,5 alq são de reserva de Mata Atlântica. 

Tudo começou com pesquisas na internet na busca de solucionar seus problemas de ressecamento de pele e do intestino. O interesse de Moacir pela fruta só aumentou ao descobrir os benefícios à saúde e à economia familiar. 

Sem encontrar mudas em Cariacica, foi a Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso comprar as primeiras plantas. Juntamente com a mulher, Raquel de Queiroz (52), o produtor mantém 2.000 pés de pitaia com idade entre sete meses e um ano e quatro meses. Na safra de estreia, em 2020, ele colheu 1 tonelada da fruta produzida sem veneno. 

O clima quente da região favorece a cultura e, até o fim deste ano, a previsão é dobrar a colheita com 3.000 plantas em produção. Os plantios são adensados para melhor aproveitamento do espaço. As plantas crescem acopladas num sistema conhecido como “Copa de Guarda Chuva”, com o uso de pneus no topo do toco para se desenvolverem com os galhos firmes.

Em vez do adubo químico, Moacir utiliza um composto orgânico feito com esterco bovino misturado à palha de madeira e de café. Uma máquina que tritura galhos com até 80 cm ajuda no processo. Já a fibra de coco mantém a umidade do solo. A matéria-prima é recolhida com vendedores de água de coco da Grande Vitória e processada na mesma máquina. Segundo o agricultor, as técnicas foram aprimoradas no último ano com vistas a uma produção mais sustentável.

Com o Monte Moxuara na paisagem, Moacir e a mulher, Raquel, cultivam mais de 60 variedades de pitaia.

 

Valor

Ao todo, são mais de 60 variedades cultivadas no Sítio Vista do Moxuara, sendo 20 delas de polpa vermelha. Algumas são mais exóticas e valiosas, a exemplo da Colombiana, que chega a custar R$ 69 o quilo. “Quem é ‘pitaieiro’ é apaixonado por descobrir variedades exóticas. Meu hobby virou profissão, vivo disso aqui”, conta Moacir.

Segundo o produtor, quanto mais exótica for a variedade, mais valor de mercado ela vai ter. Ele cita a variedade Golden Israelense, de coloração amarela, que custa R$ 45 o quilo, contra média de R$ 20 o quilo de outras mais comuns. “A exportação de pitaia de Santa Catarina para Argentina em maio foi toda de Golden”, afirma. 

O retorno financeiro compensa o investimento. Moacir Ferreira já pagou R$ 400 em uma muda que, segundo ele, foi uma pechincha considerando ser R$ 800 o seu preço de mercado. “Tenho pitaias auto férteis que não precisam de polinização e florescem sozinhas. Aqui já deu fruta com 978 gramas”, relata.

Os planos de Moacir vão além-mar. Conectado a uma rede com 60 “pitaieiros” capixabas, a ideia é exportar a fruta para a Europa, principalmente para Portugal, com a criação de uma cooperativa. De acordo com o agricultor, ainda falta volume de produção para atender à atual demanda internacional. “Em Santa Catarina tem agricultor produzindo 600 toneladas. Ainda não chegamos a esta realidade”.

Outro desafio é obter a certificação orgânica para a pitaia, cujo consumo majoritário é in natura, mas vem variando com o preparo de drinks e sorvetes à base da fruta. A ideia é agregar ainda mais valor à pitaia.

“As pessoas estão cada dia mais interessadas em pitaia, principalmente na pandemia. Já vi pesquisa afirmando que ela é boa para aumentar a imunidade”.

Ainda estão nos projetos de Moacir o comércio da planta envasada para quem quer ter pitaia no quintal ou apartamento- a lista de encomendas só cresce- e abrir a propriedade em Cangaíba para o agroturismo. “Meu objetivo é fazer um colhe e pague e os turistas ainda curtirem a piscina”, prevê.

O secretário Municipal de Agricultura e Pesca, Nilson Teixeira, comenta a possibilidade da criação do Polo de Pitaia em Cariacica, como forma de estimular outros agricultores a investirem na cultura. 

*Foto: Claudio Postay/Estúdio V3- Divulgação

Nilson Teixeira, secretário Municipal de Agricultura e Pesca de Cariacica- “A atual administração dá total atenção à agricultura de Cariacica. Além de manter funcionários com mais de dez anos de casa neste setor, está incentivando a criação de associações e cooperativas para organizar nossos agricultores. Já falamos até em criar o Polo de Pitaia, pois no momento em que for criado, estimulará outros produtores a investirem na cultura. Hoje temos uma parceria grande com o Incaper, a Seag e o Senar-ES para aprimorar técnicas agrícolas e capacitar agricultores e mostrar que Cariacica, além dos problemas sociais, tem riquezas como a pitaia, o palmito pupunha, a tilápia, o mel de abelha e a banana orgânica”


Cooperativa abre mercado para agricultores familiares

Com quatro anos recém-completados, a Cooperativa da Agricultura Familiar de Cariacica (Cafc-ES) ampliou o mercado dos produtos agrícolas do município. Ligada ao Sistema OCB/Sescoop-ES, reúne 97 associados, entre pequenos produtores de banana, abóbora, aipim e ovo caipira. 

Segundo o presidente, Davi de Barcelos, o carro-chefe da Cafc-ES é a banana, motivo pelo qual a cooperativa foi criada. Os produtores tinham grande volume de produção, mas não havia mercado para a fruta.

“Hoje, vendemos para Rio de Janeiro e São Paulo e fazemos os negócios dos cooperados girarem, porque banana é um produto perecível. Então, tecnicamente, compramos um pouco de todo mundo. Às vezes, a cooperativa não consegue suprir toda a demanda dos associados, mas é um mercado a mais que eles acessam por meio dela”, explica.

Antes da pandemia, a Cafc-ES produzia de 7.000 a 8.000 caixas de 20 kg de banana por mês, a maioria indo direto para programas de merenda escolar. No entanto, relata o presidente, os negócios amornaram com a suspensão das aulas presenciais na pandemia.

Como forma de agregar ao capital dos cooperados, a cooperativa passou a processar doce de banana orgânica, a popular mariola, vendido em volume expressivo para São Paulo. O doce é produzido em parceria com uma agroindústria de Vargem Alta.

Além disso, a Cafc-ES estreita parcerias com os produtores de pitaia. “É uma fruta ainda nova no mercado, que está caindo no gosto dos brasileiros. Acredito que o mercado dela vai avançar muito. A ideia é vender a fruta orgânica, pois existe muita demanda”, destaca Davi.

Davi de Barcelos: "Vendemos para o Rio e São Paulo e fazemos os negócios dos cooperados girarem".

 

Intercooperação

Para o presidente da Cafc-ES, o fato de a cooperativa estar sediada na região metropolitana facilita parcerias com outras cooperativas da Agricultura Familiar, a exemplo das de Domingos Martins e Santa Maria de Jetibá e Garrafão Fruit, também neste último município. “Elas nos procuram quando precisam de apoio e casamos o transporte de mercadorias para São Paulo e Sul do Brasil”.

A união poderá culminar com a criação de uma cooperativa central para acessar novos mercados para produtos agrícolas de agricultores familiares.

“A intercooperação é o futuro. Sozinhos, agricultores menores, que produzem de dez a cinquenta caixas de banana se sentem fracos no mercado. Por meio da cooperativa, poderão aumentar a produção para duzentas a trezentas caixas por semana”, conclui Davi de Barcelos.
 

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