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Geral

A redescoberta de uma doce vocação em Vargem Alta

por Redação Conexão Safra

em 14/04/2014 às 0h00

11 min de leitura

Produção de uva emVargem Altatem se destacado tanto que neste ano o município deve receber investimento de quase meio milhão para construção de uma usina extratora de suco integral de frutas. A indústria também vai receber matéria- prima de outros seis municípios da região


Ana Paula Fassarella


As parreiras carregadas de uva para consumo da família eram comuns em várias propriedades de descendentes de italianos que colonizaram o Brasil. E na região serrana capixaba, não foi diferente. O imigrante italiano, afeiçoado à viticultura por tradição e por vocação, obrigatoriamente viria a cultivar a videira em sua terra, como também o fizeram os imigrantes que se estabeleceram
em outras regiões brasileiras, especialmente no Sul.

O costume e o apreço pela fruta e seus derivados, especialmente o vinho, sobrevivem &ndash, mais que isso: ganham força e valor &ndash, ao longo de gerações e séculos. O cultivoconquista crescente espaço nas propriedades, atenção e cuidados cada vez mais profissionais nos distritos de Castelinho e Taquarussu, em Vargem Alta,nas montanhas do Espírito Santo, lugar de sol quente no verão da serra e temperaturas amenas no restante do ano, onde uva, solo e clima demonstram completa afinidade.A fertilidade da terra, a umidade e o clima aliados ao vigor natural da videira fazem as plantas crescerem admiravelmente. A frutificação é abundante, assim como o entusiasmo dos produtores com essa promissora cultura.

A fruta, que faz muita gente relembrar o tempo dos nonos e que adoçava os encontros familiares de domingo, saiu do statusdehobbye subsistência e passou a ser um dos produtos principais, também responsável pela geração de renda, junto a outras atividades. É assim na propriedade de Ivo Mazocco, 56 anos, morador de Alto Castelinho, a cerca de mil metros de altitude.

O parreiral mais antigoda propriedade, da qualidade conhecida como “Isabel comum ”, foi plantado há aproximadamente 70 anos pelo patriarca da família, o pai de Ivo, Ângelo Mazocco, falecido há oito anos. “O plantio de uvas do vovô faz parte das minhas lembranças de infância. Ele tinha muito ciúme da parreira. Só se chegava à videira com autorização dele ”, recorda, saudosa, a universitária Mônica, de 23 anos.

O produtor resolveu apostar na vitivinicultura (produção de uvas e vinhos)e há três anos investiu na produtividade da parreira deixada pelo pai. Já no ano seguinte, uma nova foi plantada, da qualidade “Isabel precoce ”. Em 2013, o total da colheita nas duas parreiras foi de 5,5 toneladas. Neste ano, o fruticultor espera finalizar a safra com cerca de oito toneladas de uva.

O produto é vendido in natura e parte é usada para produção de vinhos, sucos e geleias, o que diversifica as fontes de renda familiar, junto à pecuária leiteira e à produção de hortaliças, outra vocação do distrito, que reúne as condições naturais ideais para a atividade.“O cultivo de uva, além de prazeroso, uma terapia, significa também mais tranquilidade e segurança financeira para nós produtores, porque passamos a depender menos de outras atividades. Os estoques de derivados são suficientes para comércio ao longo do ano ”, comenta Ivo Mazocco.

Mas a diversificação agrícola na região não termina na produção de uva. Pelo contrário: a viticultura (produção de uvas)tem sido a propulsora de outras iniciativas no campo, que contribuem para ampliar ainda mais os meios de rendimento. “Muitos turistas visitam a propriedade por conta da uva e eles se encantam pelo nosso jardim. Entãotivemos a ideia de investir também na floricultura. Tem sido muito bom, porque além de vender as flores, as plantas deixam a paisagem do sítio mais bonita e agradável. E o resultado final e mais importante dessa diversificação agrícola é a melhoria da qualidade de vida, tanto no sentido econômico quanto em relação à satisfação com o ambiente onde vivemos ”, avaliaa esposa de Ivo, Vânia,feliz com os benefícios trazidos pelas novas atividades.

Outro ponto positivo dessa diversificação é que os recursos são melhor aproveitados, otimizando resultados e reduzindo impactos. Na propriedade da família Mazocco, o esterco do gado é utilizado para adubação das parreiras, dos canteiros de legumes e hortaliças e do plantio de flores.


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Dedicação integral à uva e seus derivados


Um exemplo diferente da transformação provocada pelo cultivo de uva vem da família de Romildo Daré, 66 anos, também morador de Castelinho. Neste caso, em vez da diversificação agrícola, o agricultor decidiu se dedicar integralmente à produção de uvas e derivados, depois de décadas de trabalho no plantio de legumes.

“Começamos a cultivar as primeiras videiras há dez anos, por acaso, para experimentar, sem nem imaginar que um dia tiraríamos o sustento somente dessa atividade. Ocupamos meio hectare de terra com a parreira. Como vimos que a cultura respondeu maravilhosamente ao nosso solo e clima, a fruta é de ótima qualidade e a procura dos turistas só aumenta, então há três anos dobramos a área plantada e, assim, substituímostudo o que cultivávamos antes por parreiras de uva. Estamos tão satisfeitos e felizes com essa escolha que o objetivo é aumentar em 50% a área plantada no ano que vem ”, planeja Romildo, que produz uvas Isabel comum e precoce, niágararosada e branca e também “bordô ”, de coloração forte, mais indicada para a fabricação de vinhos.

Eledestaca que uma das vantagens é o máximo aproveitamento do fruto. Depois da fervura por meio da qual é extraído o suco integral de uva, a matéria sólida resultante do processo é usada para a produção de geleia. Também são fabricados vinho e licor com os últimos frutos, mais maduros, no fim da época de colheita, que ocorre entre dezembro e fevereiro na região. “Esse beneficiamento agrega valor ao produto.Sem contar que não há desperdício nem perda. Tudo é vendido ”, comenta animado.

O fruticultor aponta outro ponto positivo do cultivo de uva: o aumentoda produtividade naturalmente com o passar dos anos. Neste ano foram colhidas em torno de sete toneladas em sua propriedade. “Mas quando o parreiral chegar à maturidade de produção, daqui a uns cinco anos, acredito que vamos colher cerca de 20 toneladas na mesma área plantada ”.

Por enquanto, a mão de obra usada em todo o processo ainda é a própria família. “Mas de acordo com o crescimento da área cultivada, é bem provável que vai chegar o momento em que vamos ter que contratar funcionários ”, avalia Romildo Daré.



Associação dos Produtores de Uva de Vargem Alta (Prouva)


A aposta dos produtores da região que investem no cultivo de uva foi certeira. E o sucesso da atividade resultou na criação, hácinco anos, da Associação dos Produtores de Uva de Vargem Alta, a Prouva. A entidade congrega vitivinicultores dos distritos de Castelinho e Taquarussu e também dois da localidade de Córrego do Ouro, em Castelo, município vizinho.

Com a associação, uma marca única foi criada para identificar a produção dos associados. Outro benefício é a participação facilitada em feiras da agroindústria em Vargem Alta, Castelo e em outras cidades. Uma delas é a Expotur-ES, referênciapara o turismo, a cultura, o artesanato e a culináriano Espírito Santo. A feira é realizada em Vitória.

A união pelo associativismo assegura também a capacitação técnica dos fruticultores por meio de cursos oferecidos pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar), além do acesso à assistência técnica disponibilizada pela Secretaria Municipal de Agricultura e pelo InstitutoCapixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper). “As orientações são bastante úteis, pois ensinam desde a administração do negócio até as técnicas adequadas para produção dos derivados da fruta. E quanto mais capacitados estivermos, mais profissional e desenvolvida torna-se a atividade ”, comenta Mônica Mazocco.



Usina para extração de suco: expectativa é impulsionar ainda mais a fruticultura na região


Aguardada ansiosamente há anos pelos fruticultores, a construção de uma usina extratora de suco integral de uva e outras frutasestá prevista para ser iniciada neste ano, de acordo com o engenheiro agrônomo e secretário municipal de Agricultura de Vargem Alta, Daniel Moraes. O projeto da indústria começou a ser feito pela prefeitura em 2012.

A lentidão, segundo o secretário, se deve à necessidade de adequação na documentação, após análise realizada pela Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento, Aquicultura e Pesca (Seag). “Depois dos ajustes, encaminhamoso projeto novamente à Seag para avaliação.Assim que aprovado, será firmado convênio entre o governo do estado e a prefeitura de Vargem Alta. Em seguida, vai ser lançado edital para licitação da obra e compra dos equipamentos. A construção deve começar neste ano ”, afirma Daniel Moraes.

O valor total do investimento na usina &ndash, para a obra completa e a compra de todo o maquinário &ndash, será de R$ 491.074,38. Desse total, R$ 476.342,15 serão aplicados pelo governo do estado e R$ 14.732,23 pela prefeitura de Vargem Alta.

“A usina vai produzir suco envasado em garradas de vidro. Uma das propostas é vender o produto às prefeituras, por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA). A indústria vai atender não só os fruticultores de Vargem Alta, localizados especialmente na área que mais se dedica à atividade, na região de Castelinho, mas também aos municípios de Domingos Martins, Alfredo Chaves, Venda Nova do Imigrante, Castelo, Ibatiba e Muniz Freire ”, explica o secretário de Agricultura.

Além de uva, a indústria terá capacidade para beneficiar outras frutas, entre elas morango, acerola, laranja e goiaba.O Incaper estima que em 2015serão produzidas 360 toneladas de frutas em geral numa área de 18 hectares, no município de Vargem Alta.


Na contramão da vocação


O local escolhido pela prefeitura de Vargem Alta para construção da usina e instalação dos equipamentos é motivo de controvérsias. Apesar da nítida vocação do extremo norte do município (distrito de Castelinho)para a atividade agrícola, especialmente a fruticultura, eda maior proximidadedos demais municípios produtores que também vão utilizar a indústria, o espaço apontado não fica em Castelinho, e sim entre as comunidades de Vila Maria e Taquarussu. A área escolhida já foi embargada há cerca de quatro anos pelo Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), quando a prefeitura iniciou a construção de casas populares no local, ao lado do rio que corta a comunidade, afluente do rio Itapemirim.

Além das questões relacionadas à vocação natural para a fruticultura e à logística (localização estratégica), outro forte argumento para a instalação da indústria em Castelinho é abundância de mão de obra e, consequentemente, a necessidade de geração de emprego e renda para a população, que cresce em ritmo muitas vezes mais acelerado do que a oferta de trabalho. Com a usina, novos plantios serão feitos e mais trabalhadores serão demandados, além dos funcionários necessários na própria indústria. O lugar também é rico em água potável (inclusive mineral, com comprovação de análises laboratoriais), matéria prima essencial no processo industrial.

O secretário municipal de Agricultura reconhece que Castelinho é o local mais apropriado e indicado para receber a indústria. “Tudo aponta para a instalação da usina na comunidade. É o mais lógico a ser feito. Entretanto, estamos com dificuldade para encontrar um espaço do tamanho ideal e que atenda a todas as exigências para a instalação da usina. Mas não desistimos de procurar por essa área em Castelinho. Vamos buscar a melhor alternativa para atender ao conjunto dos produtores ”, garante Daniel Moraes.

“Não concordo que a usina seja construída fora de Castelinho, que sempre foi o polo de produção de frutas, verduras e legumes no município. Esses são nossos pontos fortes e precisam ser valorizados e incentivados. Além do mais, não acredito que vai dar certo fazer a indústria onde estão prevendo. O local fica numa descida e entre curvas, ou seja, não é o mais adequado quando há previsão e necessidade de entrada e saída de veículos, geralmente caminhões. E o terreno não parece ter o tamanho suficiente para uma indústria e um pátio espaçoso para carga e descarga de produtos ”, avalia o fruticultor Romildo Daré. A opinião do presidente da Prouvaé a mesma: “a usina precisa ser construída em Castelinho ”, resume Ivo Mazocco.




Visite as propriedades dos fruticultores associados à Prouva!

– Romildo Daré – Castelinho, Vargem Alta. Tel.: (28) 3528-4213

– Ivo Mazocco – Alto Castelinho, Vargem Alta. Tel.: (28) 9 9938-1223 e (27) 3248-2164

– João LaciMazocco – Alto Castelinho, Vargem Alta. Tel.: (27) 9 9723-4860 e (28) 9 9812-1098

– Oséias Pasti -Taquarussu, Vargem Alta. Tel.: (28) 9 9901-2154 e (28) 9 9884-8446

– Laudir da Silva – Córrego do Ouro, Castelo. Tel.: (28) 9 9883-5365

– José Domingos Romão -Córrego do Ouro, Castelo. Tel.: (28) 9 9969-3288

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