Selita devolve mais de meio milhão a cooperados

O feito é inédito no Espírito Santo em uma cooperativa de produção e o valor é referente ao capital social integrado dos associados

Elisangela Teixeira

Fotos: Wallace Hull

Antônio Torres, proprietário da Fazendo Vista Alegre, em Atílio Vivácqua

A Cooperativa de Laticínios Selita entregou R$546.727,68 a 58 cooperados com 80 anos ou mais. O feito é inédito no Espírito Santo em uma cooperativa de produção e faz parte de uma mudança recente no estatuto da cooperativa, que prevê a restituição de até 80% do capital social ainda em vida aos associados. Antes o valor era entregue somente aos herdeiros do cooperado quando ele falecia ou se desassociasse.

A medida chegou em um momento oportuno para os cooperados, que aproveitaram a chance de ter o dinheiro extra em mãos para reinvestir em suas propriedades, planejar o futuro e outros até para sair do sufoco. É o caso da produtora Irma da Costa, de Muniz Freire, que aos 87 anos de idade viu a produção e o faturamento cair em torno de 60% devido à seca.

“Receber este dinheiro foi uma benção de Deus e me salvou. A seca está nos castigando muito, por isso a produção foi bem menor do que o menos do esperado. Agora vou usá-lo para pagar contas da propriedade e meus funcionários, pois só minha aposentadoria não iria cobrir as despesas ”.

Já o cooperado Antônio Torres, proprietário da Fazendo Vista Alegre, em Atílio Vivácqua, envia leite para a Selita há 43 anos e acredita que a devolução do capital é uma ação justa.
“O leite que a gente tira é pouco e de vez em quando tem que vender um boi ou dois para conseguir pagar as contas. Receber o dinheiro em vida é o correto para quem está sempre com a cooperativa, pois damos o destino certo pra ele ”, revela.

Além do dinheiro, tem produtor contando também com a chuva. “A seca está nos castigando muito. Esse extra veio em boa hora, principalmente para quem é pequeno produtor como eu, mas a chuva precisa vir. Estamos sofrendo muitos prejuízos ”, alerta o cooperado Eudes Sebastião Guiotto, de Muqui.

Investimento

A restituição do capital social foi feita em duas etapas, a primeira em agosto e a segunda em setembro. Esta foi a primeira vez que a Selita realizou a devolução e de acordo com seu presidente, Rubens Moreira, foi a primeira cooperativa do Estado a realizar esse tipo de devolução, além das cooperativas de crédito. A próxima restituição do capital social será em janeiro de 2017.

“Nós estamos valorizando aquelas pessoas que contribuíram na formação do nosso patrimônio. Essa devolução acaba envolvendo economicamente o setor devido ao valor que é injetado no mercado. Queremos que o cooperado faça o planejamento dele. Por exemplo: aquele que já tem um tempo de contribuição e quer comprar um tanque novo. Ele saca o valor e faz a compra sem precisar pegar um empréstimo. Esse valor que fica rende juros como um investimento em longo prazo ”, ressalta Rubens.

Para o superintendente da OCB-ES, Carlos André Santos de Oliveira, o pioneirismo da Selita deve puxar a fila para que outras cooperativas também devolvam o capital social a seus cooperados e faz um alerta. “Obviamente lembrando que tudo deve ser realizado se levando em conta o fluxo de caixa da cooperativa, sem comprometer sua liquidez e seu futuro e mais ainda, incentivando que haja constantemente e permanentemente a integralização de quotas partes de capital, já que sem sombra de dúvidas é fonte de auto financiamento com custo mais baixo que há no mercado ”.

Cooperados da Selita durante o evento de entrega dos cheques do capital Social
A cooperada Irma da Costa vai usar o valor para pagar contas da propriedade

$546.727,68
Este é valor do Capital Social devolvido aos 58 cooperados

Como é formado o capital social da Selita

Todos os meses os cooperados deixam na cooperativa 1% do valor que ele tem para receber referente a sua produção de leite. Esse dinheiro vai para conta capital. Anualmente, quando há sobras, este valor pode ser distribuído aos sócios ou e ele quiser, pode ser integralizado à sua conta de capital na cooperativa. Se esta for a escolha do cooperado, o dinheiro fica numa espécie de poupança e que rende 6% ao ano ou o percentual da inflação, no caso rende o menor índice.

Novas regras

Depois de completar 80 anos de idade e pelo menos 15 anos de associação à cooperativa, o associado poderá solicitar o resgate de até 80% das cotas do capital social que tenha integralizado. Os outros 20% são restituídos em caso de desligamento do associado ou, aos familiares, em caso de morte ou invalidez.

A cada ano, a partir de 2016, sempre no mês de janeiro, a idade mínima para solicitação do resgate será diminuída: Em janeiro de 2017, 78 anos, em 2018, 76 anos, em 2019, 74 anos, em 2020, 72 anos e, em 2021, 70 anos. Em qualquer caso, o associado deverá possuir, pelo menos, 15 anos de associação ininterrupta à cooperativa.

DEPOIMENTOS

“Eu achei muito bom receber este dinheiro, vou comprar mais uma vaca e reinvestir na propriedade. Eu já tinha procurado antes este dinheiro para comprar mais um tanque, mas ainda não tinha sido liberado e agora foi. Estava esperando ansioso para receber ”.

João Colli &ndash, 86 anos, cooperado há 56 anos. Produtor de Vargem Alta

“É muito importante ter este retorno, pois sempre enviamos o leite com muita dificuldade. Esse dinheiro numa época dessa ajuda muito. Acredito que a mudança do estatuto foi importante, pois mostra o respeito que a cooperativa tem com a gente ”.

Zelinda Zucolotto Altoé, 82 anos, cooperada há 28 anos. Produtora de Cachoeiro de Itapemirim

“Capital Social deve ser valorizado em uma cooperativa ”

O presidente da Selita, Rubens Moreira tem uma longa história com a cooperativa e foi um dos pioneiros no que diz respeito à formação do capita social com rendimentos para os cooperados. Abaixo ele fala sobre essa valorização, mudança do estatuto e crise hídrica.

“Este é um momento inédito para a Selita. Nós, da gestão estamos muito satisfeitos com essa ação, pois é uma luta que travamos há muito tempo. O capital social deve ser respeitado e valorizado. Se as cooperativas pagam juros aos bancos, porque não pagar juro aos associados que deixam o dinheiro aqui em longo prazo, proporcionando recursos que nos permitem planejar o crescimento da cooperativa? É importantíssimo devolvermos esse investimento após um período para que os sócios o desfrutem em vida.

Outro ponto muito importante é a correção do capital. Se nós tivéssemos, desde os primórdios, incorporado juros ao capital, corrigido com um percentual que fosse pelo menos igual ao da inflação, por exemplo, o valor seria até seis vezes maior agora. Isso foi uma injustiça corrigida. Conseguimos aplicar novamente o juro e isso vai dar garantia de que o dinheiro está sendo remunerado durante o tempo que ficar na cooperativa.

Fizemos uma assembleia extraordinária após realizarmos pré-assembleias em todos os comitês educativos para conversarmos com o quadro de cooperados e discutirmos principalmente estes dois itens: devolução do capital social em vida e obrigatoriedade de se pagar os juros ao capital. Isso foi muito bem aceito e estamos vivendo um momento de credibilidade junto aos cooperados, de melhora da autoestima do nosso sócio. Temos certeza que estamos liderando uma empresa na plenitude de sua gestão. ”

Crise hídrica

“Estamos enfrentando um momento muito difícil, talvez a pior crise hídrica da história do Espírito Santo e aqui no Sul ela começou em 2014, desde então estamos com um déficit absurdo, sabendo o quanto nosso quadro social está sofrendo. O seu rebanho está sendo dizimado, suas pastagens e plantaç&otilde,es de forrageiras. O momento é muito oportuno para estarmos próximo do quadro social, oferecendo apoio da melhor maneira que é possível.

É de uma aflição muito grande ver o que estamos passando por aqui. Estamos usando todos os métodos de gestão para dar o melhor possível para os cooperados, colaboradores e famílias que vivem nesta cadeia produtiva. Sabemos como a crise começou, mas não sabemos como ela acaba. É preocupante, mas temos certeza que juntos vamos superar. ”

Sobre o autor Redação Conexão Safra O crédito coletivo Redação Conexão Safra identifica a equipe de jornalistas, editores e profissionais que produz diariamente o conteúdo da plataforma com rigor, responsabilidade e ética. Com experiência e curadoria cuidadosa, o time entrega informações relevantes sobre o agro no Espírito Santo, no Brasil e no mundo, fortalecendo a Conexão Safra como referência e elo entre produtores, pesquisadores, investidores e formuladores de políticas. Ver mais conteúdos