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Esta é a primeira reportagem de uma série especial que investiga a crise da Colagua, seus bastidores e os impactos do caso sobre produtores, trabalhadores e a economia regional. A Conexão Safra mantém espaço aberto para a manifestação dos envolvidos, a fim de que possam apresentar suas versões.
O silêncio no parque industrial da Cooperativa de Laticínios de Guaçuí (Colagua) revela mais do que máquinas paradas. Expõe o ponto final de uma engrenagem que, durante décadas, conectou produtores rurais, trabalhadores e a economia do Sul do Espírito Santo. Agora, a área que antes abrigava a cooperativa vai a leilão. Na primeira chamada, marcada para 10 de abril deste ano, o valor mínimo é de R$ 4,2 milhões. Na segunda, em 13 de abril, pouco mais de R$ 2 milhões.
De acordo com o relato de um produtor associado à cooperativa, que pediu para não se identificar, a dívida da Colagua é milionária. “O problema é ter alguém que compre isso para pagar as dívidas”, avalia.
As maiores dívidas, segundo ele, estão relacionadas a impostos federais e estaduais, além de débitos com fornecedores. Valores que estavam em conta teriam sido bloqueados judicialmente em razão dessas pendências fiscais.
Mas a atual crise não surgiu agora. Ela se desenhou a partir de um conjunto de acontecimentos que convergiram em 2025. Há algum tempo, a cooperativa já enfrentava dificuldades financeiras, queda de produção regional e divergências internas sobre os rumos da instituição.
O material reunido para esta reportagem, formado por entrevista com o ex-presidente Burthon Moreira, atas de reunião e carta de renúncia, mostra que a crise se desenrolou em várias frentes ao mesmo tempo. Houve deterioração econômica, disputa sobre a condução da entidade e a abertura de uma discussão jurídica mais ampla sobre a viabilidade de continuidade da Colagua como cooperativa.
Burthon Moreira afirma que seu último contato com a presidência da cooperativa “de fato e de direito” se encerrou em 24 de fevereiro de 2025. A data coincide com a reunião extraordinária do Conselho de Administração cuja ata registra a mudança no comando da entidade.
Segundo o documento, o encontro ocorreu em 24 de fevereiro de 2025, às 19 horas, em Guaçuí. A Conexão Safra participou da reunião citada na ata e atesta as informações registradas naquele encontro.

No documento, parte dos conselheiros manifesta descontentamento com questões administrativas e pede a saída do então presidente. A ata afirma que Burthon declarou que, se seu afastamento abrisse “possibilidades de melhorias para a cooperativa”, então aquela seria “a melhor decisão”.
Além da ata da reunião extraordinária do Conselho de Administração, a reportagem teve acesso ao documento em que Burthon Moreira de Oliveira formaliza sua renúncia ao cargo de diretor-presidente da Colagua. Não há data no documento. Na correspondência, porém, o ex-dirigente afirma que o pedido ocorreu publicamente na Assembleia Geral Extraordinária realizada em 24 de fevereiro de 2025, após o que descreve como uma “discussão generalizada”, quando os presentes teriam decidido pela “dissolução do cargo do presidente”, decisão que ele afirma ter acatado de imediato.
No mesmo documento, Burthon solicita seu descredenciamento junto a uma série de órgãos públicos e reguladores, entre eles Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Polícia Federal, Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (Idaf), Receita Federal e secretarias da Fazenda.

“Não há tentativa de se desvincular de obrigações e suas responsabilidades. Mas há de se manifestar a necessidade de que os ocupantes de cargos exerçam na sua totalidade, quer seja ônus e ou bônus. Os fatos que ocorreram de 25/02/25 até então não compreendem os meus atos; e sim a quem de direito”, salienta Burthon.
Ele também menciona execuções fiscais, contrato de crédito bancário e parcelas de mútuo financeiro contraídas para a quitação da folha do leite dos cooperados. A carta revela que sua saída não se limitava à troca de comando dentro da cooperativa, mas também a uma tentativa formal de se desvincular das responsabilidades administrativas, fiscais e financeiras da Colagua em meio ao agravamento da crise.
A partir dali, o documento registra a vacância da presidência e a passagem do cargo para outro dirigente, além da mudança na vice-presidência. Mais do que formalizar substituições, a ata expõe o tamanho da pressão que recaía sobre a cooperativa naquele momento. O texto menciona que os novos ocupantes passariam a responder pela Colagua perante órgãos como Mapa, Anvisa, Polícia Federal, Iema, Idaf, Ibama, Receita Federal e Secretaria de Estado da Fazenda (Sefaz), além de citar processos, contrato de crédito bancário e parcelas ligadas ao pagamento da folha do leite e a obrigações financeiras com vencimento próximo.
Quatro meses depois, uma segunda ata mostra que a crise havia avançado para outro patamar. Em 24 de julho de 2025, nas instalações da cooperativa em Guaçuí, foi realizada uma Assembleia Geral Extraordinária convocada para discutir a situação institucional da Colagua e deliberar sobre os próximos passos diante da paralisação das atividades.
A ata registra que, entre os pontos de pauta, estavam a ratificação da destituição de membros do conselho e da diretoria, a eleição de novos dirigentes, a deliberação sobre a dissolução da cooperativa e a nomeação de uma comissão liquidante. No documento, consta que os presentes concordaram com a dissolução da Colagua e aprovaram a indicação de um membro liquidante e de integrantes do conselho fiscal liquidante. A mesma assembleia também registrou a apresentação de proposta para aquisição, em caráter oneroso, do conjunto de bens e direitos operacionais da cooperativa por uma empresa privada.
Onde nasceu a crise?
Na entrevista, Burthon tenta explicar a crise a partir de um processo mais longo. Ele diz que o problema da Colagua não começou no dia de sua saída. Segundo ele, a cooperativa já vinha sendo pressionada havia anos por mudanças estruturais no setor leiteiro, pelo enfraquecimento da sucessão interna e, mais recentemente, pelos efeitos da pandemia e do pós-pandemia sobre o fluxo de caixa.
“Oito anos antes eu já vinha tratando e tinha uma preocupação muito grande com a sucessão da cooperativa do ponto de vista diretivo”, afirmou.
“A gente vinha tentando trabalhar nomes e pessoas no quadro de conselheiros para poder fazer a minha sucessão.”
Na avaliação do ex-presidente, a falta de sucessão foi um dos fatores centrais para o agravamento da crise. Burthon afirma que permaneceu 12 anos à frente da cooperativa e passou oito deles tentando estruturar quem o substituiria. Segundo ele, o nome que considerava sucessor natural deixou o quadro da cooperativa. “O meu sucessor de fato deixou o quadro da cooperativa por conta de um problema interno”, disse.
A narrativa de Burthon combina o esgotamento interno com uma leitura de mercado. Ele sustenta que o Espírito Santo perdeu espaço na produção leiteira ao longo dos últimos anos, enquanto outras atividades se tornaram mais atrativas para o produtor rural.
“O Espírito Santo é um dos únicos estados do Brasil que diminuiu a produção de leite nos últimos 20 anos. Os produtores estão migrando a produção de leite para café, no nosso caso aqui, café, em razão dos preços dos últimos anos. E a pecuária de corte tomou um rumo muito forte em razão dos preços”, afirmou.
Essa leitura ajuda a entender por que a crise da Colagua, segundo o ex-presidente, não poderia ser tratada apenas como um problema de gestão. Para ele, a cooperativa operava sob pressão de mercado, competição crescente, consolidação do setor e mudanças no perfil produtivo do campo.
“Hoje, o setor leiteiro sofre com as importações no Brasil e o Espírito Santo, como eu disse lá atrás, é o único estado do Brasil que diminui a produção de leite e tem fábrica sobrando”, declarou.
Burthon também associa a piora da situação ao período pós-pandemia. Segundo ele, a retração de preços de derivados, as dificuldades no mercado spot e a perda de receita comprimiram a capacidade financeira da cooperativa. “O pós-pandemia talvez tenha sido muito pior do que a própria pandemia para nós”, afirmou.
A leitura apresentada por Burthon sobre o enfraquecimento da cadeia leiteira capixaba encontra respaldo nos dados do Anuário do Agronegócio 2025, embora o quadro seja mais complexo do que uma simples queda de preços ou de rentabilidade.
Entre 2014 e 2024, a produção de leite no Espírito Santo recuou de 483,6 milhões para 349,5 milhões de litros, uma redução próxima de 28% em uma década. No mesmo intervalo, o valor bruto da produção passou de R$ 478,7 milhões para R$ 835,8 milhões. À primeira vista, o crescimento da receita poderia sugerir expansão do setor, mas essa leitura é enganosa quando se considera o efeito da inflação e da valorização nominal dos produtos agropecuários ao longo do período. O anuário mostra também que a produção permanece espalhada por todo o território capixaba. Municípios do Norte e do Sul do estado concentram os maiores volumes, e Guaçuí aparece com 8,6 milhões de litros, respondendo por cerca de 2,47% da produção estadual.
Em busca de alternativas
Foi nesse ambiente, segundo sua versão, que a Colagua intensificou a busca por alternativas. Burthon diz que a cooperativa testou modelos de parceria com empresas privadas e outras cooperativas. A solução mais promissora, afirma, apareceu na aproximação com a cooperativa Cacal. O desenho inicial, segundo ele, previa o recebimento e o processamento do leite da Cacal em Guaçuí, com comercialização conjunta do leite cru. “Passaríamos a receber o leite da Cacal e trabalhar esse leite aqui em Guaçuí, e passaríamos a comercializar juntos o leite cru. Era um modelo de intercooperação”, explicou.
Na visão do ex-presidente, essa aproximação poderia evoluir para uma saída capaz de preservar a planta industrial da Colagua e reduzir o impacto social da crise. “A ideia era criar uma solução que mantivesse a estrutura fabril, os postos de trabalho, o parque industrial e o equilíbrio econômico e financeiro da nossa região”, disse.
A transição, no entanto, não avançou sem resistência. Burthon relata que uma assembleia convocada para tratar da proposta de incorporação ou de outra forma de solução institucional acabou marcada por forte conflito interno.
O ex-presidente também relata que, após sua saída e diante do impasse instalado, houve consulta ao Sistema OCB/ES. Ainda segundo seu relato, em meio à reunião, voltou-se a discutir a possibilidade de retomada de conversas com a Cacal.
“Eu liguei do meu telefone para o presidente da Cacal, disse onde eu estava e o que estava tratando, pedi autorização para colocar o telefone em viva-voz e perguntei a ele se tinha interesse em retomar as conversas com a Colagua para uma provável incorporação, aquisição, o que fosse, para tentar minimizar os riscos aos cooperados, colaboradores, fornecedores.”
Apesar disso, ele deixa claro que, ao menos naquele momento, não havia nada consolidado. “Começamos a conversar, só que não há nada concreto”, disse.
Documentos do colapso
Se a entrevista de Burthon apresenta a crise a partir da versão de quem comandou a cooperativa por mais de uma década, os documentos anexados ao caso ajudam a mostrar o peso material do colapso.
Um deles é um mandado de citação via postal, expedido pela Justiça do Rio de Janeiro, em execução fiscal relacionada à cooperativa e enviada ao ex-dirigente, que o encaminhou à Conexão Safra. O documento lista a Colagua entre os executados e também cita pessoas físicas, entre elas Burthon Moreira de Oliveira. O valor do débito indicado na peça é de R$ 130.539,69. A ordem judicial determina o pagamento em cinco dias ou a garantia da execução, nos termos do processo ali referido.
O mandado não explica, por si só, a origem integral da crise, mas funciona como evidência de que a cooperativa e parte de seus dirigentes ou ex-dirigentes já estavam alcançados por cobrança judicial. Em casos desse tipo, a presença simultânea da pessoa jurídica e de pessoas físicas no polo passivo é um indicativo de que a crise já havia extrapolado o plano administrativo e passado a produzir efeitos patrimoniais e jurídicos diretos.
Análise técnica
Há ainda um documento intitulado “Análise Técnica – Caso Colagua”. Segundo Burthon, “esse documento me foi negligenciado e fui obter conhecimento dele na OCB”. Produzido após consulta feita por um grupo de empresários de Guaçuí, o texto sustenta que a situação da cooperativa é de “extrema gravidade jurídica, econômica e tributária”. Segundo o parecer, que não é assinado, a tentativa de reativação da Colagua nos moldes narrados pelos consulentes “não é apenas irregular; é uma operação nula, que expõe os empresários envolvidos a riscos patrimoniais ilimitados”.
A peça técnica parte de um dado central: a paralisação pública das atividades da cooperativa desde janeiro de 2025. Com base nisso, sustenta que a entidade já estaria em situação de dissolução de pleno direito, nos termos da Lei 5.764, a Lei das Cooperativas.
O parecer adota um tom duro. Diz que a Colagua se encontra em “estado de insolvência de fato e irregularidade societária manifesta”, sem fluxo de caixa, inadimplente com obrigações fiscais, trabalhistas e cíveis e com o principal ativo sob risco de execução.
Até aqui, o que se tem é um mosaico robusto, mas ainda inconcluso, de fatos, versões e registros. A ata de fevereiro mostra a queda do presidente em meio a um cenário de dívidas e pressões. A ata de julho revela que a crise evoluiu para a discussão formal sobre a dissolução da cooperativa. O mandado de execução fiscal comprova que o problema ultrapassou o plano administrativo e alcançou a Justiça. O parecer técnico sustenta que a cooperativa vive dissolução de pleno direito. A entrevista com Burthon apresenta a versão de quem afirma ter buscado uma solução para preservar a estrutura fabril, os empregos e a atividade leiteira regional.
No centro de tudo está uma pergunta ainda sem resposta definitiva: a Colagua ainda pode ser reorganizada como cooperativa ou a crise já avançou a ponto de tornar inevitável uma liquidação ou venda judicial de seus ativos?
Enquanto essa resposta não vem, permanece a marca mais visível do caso: a de uma cooperativa histórica paralisada, cercada por passivos, dividida internamente e transformada em símbolo de uma crise que mistura economia, poder, direito e memória produtiva no Sul do Espírito Santo.
Atual diretoria
Buscamos contato com a atual diretoria, mas não houve retorno. Em nota enviada em fevereiro, o Sistema OCB/ES informou que a Colagua está com registro suspenso desde março de 2024. Confira a nota, na íntegra:
“O Sistema OCB/ES esclarece que a Cooperativa de Laticínios de Guaçuí (Colagua) se encontra em situação de irregularidade perante a referida instituição desde 28 de fevereiro de 2022 e, conforme as regras vigentes, teve o seu registro suspenso em 8 de março de 2024. Assim, por não integrar, há quase dois anos, a lista de cooperativas registradas e regulares junto à organização, não há compartilhamento de informações da cooperativa com a nossa equipe.
Entretanto, mesmo não havendo mais vínculo institucional, o Sistema OCB/ES sempre se colocou à disposição da cooperativa para uma reaproximação e para auxiliar com a disponibilização de informações e orientações, sempre que acionado. Infelizmente, as reaproximações não surtiram efeito.
Recentemente, a Cooperativa Agrária Mista de Castelo (Cacal) – que está entre as cooperativas registradas e regulares junto ao Sistema OCB/ES – visualizou uma possibilidade de incorporação da Colagua. Nesse processo, a equipe do Sistema OCB/ES participou de algumas reuniões.
Nelas, a instituição orientou que, caso a incorporação fosse de interesse de ambas as partes, houvesse uma auditoria na Colagua para compreensão da situação atual da cooperativa. Entretanto, a sugestão de incorporação não foi aceita pelos cooperados da Colagua, encerrando assim as tratativas e inviabilizando o estudo.
Também nesse processo, o Sistema OCB/ES orientou os cooperados da Colagua sobre assembleias que foram realizadas sem seguir as regras legais vigentes, caracterizando-as como inválidas.
Cabe destacar que o Sistema OCB/ES, enquanto organização de representação das cooperativas capixabas, possui uma limitação de atuação que não possibilita qualquer tipo de interferência na gestão e na governança das cooperativas. Discussões e deliberações sobre temas estratégicos são atividades única e exclusivamente de negócio das cooperativas.
O Sistema OCB/ES reforça que a sua missão é promover um ambiente favorável ao desenvolvimento do cooperativismo e, por esse motivo, está à disposição das cooperativas para auxiliá-las, orientá-las e apoiá-las sempre que necessário, apontando caminhos e direcionamentos sob a luz da legislação, do conhecimento técnico e das melhores práticas de mercado.
A instituição também lamenta profundamente o momento vivido pela Colagua e reforça que a ausência do registro junto à organização e da regularidade desse registro, nesse e em outros casos, deve ser observada como um sinal de cautela pelos cooperados, colaboradores, parceiros, poder público e a sociedade de modo geral.”




