Cooperativismo de crédito

Com os pés no chão e os olhos no futuro

Casos como os de Fabiani, Rafael e João mostram como o cooperativismo de crédito se tornou um catalisador de desenvolvimento no Espírito Santo, conectando histórias de diferentes gerações e realidades, mas sempre com um elo em comum: a cooperação como força de mudança.

De educador físico a agricultor: Rafael Caldonho trocou os tênis de corrida pelas botas de borracha e, com apoio do cooperativismo, venceu desafios na lavoura de banana e café. (*Foto: Heitor Delpupo/Divulgação)

Na zona rural do Espírito Santo, três trajetórias se entrelaçam ao redor de uma mesma força silenciosa e transformadora: o cooperativismo de crédito. Em Colatina, Iconha e Pancas, jovens agricultores resgatam raízes, reinventam atividades e consolidam novos modelos de desenvolvimento a partir da confiança e do apoio de cooperativas como o Sicoob, o Sicredi e a Cresol.

Filha de agricultores, Fabiani Reinholz deixou o interior para estudar engenharia. Como tantos jovens, acreditava que a vida no campo não poderia garantir estabilidade financeira. Mas a realidade bateu à porta em forma de urgência familiar. O diagnóstico precoce de Parkinson do pai, agravado pelo uso intensivo de agrotóxicos na lavoura, levou Fabiani a tomar uma decisão difícil, mas necessária — retornar ao campo.

“Descobrimos a doença muito precoce, que teve um aceleramento grande, principalmente por causa do uso de agrotóxicos na propriedade”, relata Fabiani. Foi esse alerta que motivou uma mudança radical na gestão da propriedade da família em Colatina. Com espírito empreendedor, ela iniciou uma transição para práticas sustentáveis e encontrou no cacau fino uma nova vocação produtiva e ambiental.

Assim nasceu a Reinholz Chocolate, um negócio que alia produção de cacau a uma fábrica de chocolates finos, sustentado por práticas regenerativas, energia solar e compostagem. “A fábrica se sustenta hoje por causa da energia que nós mesmos geramos, graças à parceria com o Sicoob”, afirma a produtora, que hoje colhe os frutos de um processo que une inovação, responsabilidade e conexão com a terra.

O projeto foi reconhecido nacionalmente neste ano com o Prêmio Produtor Rural Sustentável, promovido pelo Sicoob nacional, que valoriza práticas agrícolas alinhadas ao desenvolvimento socioambiental. A diretora operacional do Sicoob Conexão, Michelle Sabaini Calmon Manzoli, reforça o impacto da história. “Essa é uma trajetória que inspira pela coragem, pela inovação e pelo compromisso com a sustentabilidade. Para o Sicoob, é gratificante fazer parte de histórias que conectam pessoas, propósito e transformação no campo.”

Com coragem e propósito, Fabiani encontrou no campo e no cooperativismo a chance de reinventar sonhos e cultivar novas oportunidades. (*Foto: Divulgação/Sicoob ES)

Superando barreiras com cooperação

Do outro lado do estado, em Iconha, Rafael Bianchini Caldonho (na foto que abre esta reportagem) também protagoniza uma virada de chave. Educador físico por formação, Rafael lecionava na rede pública e integrava delegações paraolímpicas estaduais e nacionais. Ainda assim, mantinha viva a vontade de cultivar a terra — desejo herdado da família e cada vez mais forte com o passar do tempo.

Há quatro anos, Rafael decidiu trocar os tênis de corrida pelas botas de borracha. Iniciou o plantio de banana e café conilon em área montanhosa e, com apoio familiar, investiu pesado em tecnologia desde o início. Mas a topografia acidentada tornava a logística um desafio. Sem acesso adequado, a lavoura dependia de um veículo improvisado e inseguro, conhecido como “aranha” — um chassi de Fusca adaptado que limitava transporte, aumentava custos e colocava em risco a segurança no campo.

“O maior desafio com relação ao uso da aranha era a logística, pois não comportava uma grande quantidade de carga ou peso. Muitas vezes não conseguia carregar insumos suficientes para o trabalho quando estava com vários colaboradores na lavoura. Isso ocasionava perda de rendimento e atrasava cronogramas de pulverizações, adubações e aplicação de agroquímicos”, explica Rafael, hoje com 27 anos.

Ao conhecer o Sicredi- com agência na cidade desde fevereiro- o jovem encontrou um parceiro para transformar o cenário. Com o apoio de um técnico agrícola e acompanhamento especializado, ele obteve financiamento via Pronaf e adquiriu sua primeira caminhonete 4×4 zero quilômetro. A mudança foi imediata. “Agora, faça chuva ou faça sol, eu consigo trabalhar com mais produtividade e qualidade de vida. Isso não tem preço”, comemora.

Sobre essa proximidade, o gerente de negócios Agro do Sicredi em Iconha, Eduardo Oza, reforça que o diferencial do cooperativismo está justamente na relação de confiança e no acompanhamento constante. “Por estarmos próximo do associado, conhecemos sua realidade, seu jeito de ser e suas raízes. O cooperativismo respeita os processos e se preocupa não somente com o resultado, mas com todo caminho até a liberação do crédito e, principalmente, no suporte após a concessão do crédito, seja com dicas financeiras e profissionais e troca de ideias comuns. É no dia a dia e olhando no olho que a gente consegue entender e ajudar o associado a prosperar.”

Juventude e inovação no agro

Em Laginha, distrito de Pancas, noroeste capixaba, outro jovem reforça como o cooperativismo abre portas. João Carlos Schwartz, também de 27 anos, assumiu a propriedade da mãe após a separação dos pais e encontrou no café uma oportunidade de transformação.

“Na época eu tinha apenas 20 anos quando minha mãe me pediu para assumir o terreno. A situação era bem precária, porque meu pai havia começado a abandonar a propriedade. Tive que investir muita mão de obra para renovar as lavouras, cortar e deixar brotos novos, além de limpar os matos que tinham tomado conta. Naquele início, a produção girava em torno de 400 sacas, mas hoje já alcancei colheitas de até 1.100 sacas nas mesmas áreas”, lembra João.

Aos poucos, o Sítio Schwartz deixou de ser deficitário e passou a render colheitas que hoje sustentam a família. Mais do que isso, o trabalho de João ajuda a pagar a faculdade de medicina da irmã. “É muita satisfação e orgulho. Só quem viveu perto sabe como foi difícil e, graças a Deus, estamos se erguendo”, afirma.

O apoio da Cresol foi essencial nessa caminhada. Além de financiar custeio agrícola, a cooperativa possibilitou que João adquirisse um drone, ampliando a eficiência no manejo do café e abrindo um novo mercado de serviços para outros produtores. “Graças à Cresol conquistamos uma tecnologia de ponta para elevar ainda mais nossas produções”, destaca.

Entre pulverizações ao amanhecer e fins de semana dedicados ao motocross e ao voo livre, o jovem agricultor projeta o futuro com confiança. “Minha vida sempre será do agro, mas pretendo continuar expandindo e agora, com o drone, abrimos uma microempresa para atender outros produtores também”, planeja.

Com apenas 20 anos, João Carlos Schwartz assumiu a propriedade da família, renovou lavouras de café e hoje, aos 27, colhe resultados que sustentam a casa e financiam o sonho da irmã na universidade. (*Acervo Pessoal)

Para o presidente do Sistema OCB/ES, Pedro Scarpi Melhorim, histórias como as de Fabiani, Rafael e João Carlos demonstram o quanto o cooperativismo de crédito é um verdadeiro agente de transformação social e econômica. “As cooperativas de crédito desempenham um papel fundamental em todos os lugares em que estão inseridas, inclusive no campo. Lá, elas são financiadoras de projetos e de sonhos, permitindo que produtores possam acessar crédito com taxas muito mais justas e competitivas. Isso é tão verdade que o cooperativismo financeiro está entre os maiores repassadores de crédito rural do estado”.

A relevância apontada por Melhorim é confirmada pelos dados divulgados nesta quinta-feira (25) pela OCB/ES, no Anuário do Cooperativismo Capixaba 2025. Entre 2022 e 2024, o faturamento do ramo cresceu de R$ 3,9 bilhões para R$ 6,5 bilhões, um salto de 67,5%. No mesmo período, as operações de crédito registraram forte crescimento, com destaque para o crédito rural, que avançou 31,2% entre 2022 e 2023 e mais 11,2% no ano seguinte, chegando a R$ 1,9 bilhão. Mesmo diante da retração de 18,4% nas operações de crédito não-rural entre 2023 e 2024, o resultado evidencia a força do cooperativismo financeiro e sua contribuição crescente para o desenvolvimento do campo capixaba.

Ainda de acordo com o presidente do Sistema OCB/ES, para os jovens agricultores, as cooperativas de crédito são verdadeiras parceiras na modernização e no desenvolvimento das suas propriedades. “É lá que eles encontram as melhores condições para investir no seu negócio, uma tarefa que não contribui apenas para o seu ganho direto, mas que beneficia todo o campo, pois profissionaliza as produções, melhora as condições de vida da localidade e contribui até para o processo de sucessão familiar”, afirma.

Casos como os de Fabiani, Rafael e João mostram como o cooperativismo de crédito se tornou um catalisador de desenvolvimento no Espírito Santo, conectando histórias de diferentes gerações e realidades, mas sempre com um elo em comum: a cooperação como força de mudança.

Sobre o autor Rosimeri Ronquetti Rosi Ronquetti é jornalista, formada em 2009 e pós-graduada em gestão em assessoria de comunicação. Repórter do agro, sua atuação se concentra na produção de reportagens do setor (incluindo perfis e histórias). Algumas de suas reportagens conquistaram premiações regionais e nacionais de jornalismo. Ver mais conteúdos