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Cafeicultura

Cafeicultores do norte e noroeste do ES aderem ao micro-terraceamento

Técnica facilita o manejo da lavoura, traz segurança aos trabalhadores e pode diminuir em 30% a utilização de mão de obra

por Rosimeri Ronquetti

em 13/10/2021 às 7h00

8 min de leitura

Foto: divulgação

O micro-terraceamento em lavouras de conilon está aos poucos conquistando cafeicultores no norte e noroeste do Espírito Santo. Prática antiga no manejo de outras culturas aplicada com sucesso nos cafezais de áreas montanhosas do sul de Minas e, mais recentemente, em lavouras de arábica do sul do Estado, a técnica tem se mostrado vantajosa também com conilon. O principal benefício é a diminuição da demanda por mão de obra, desafio enfrentado pelos produtores nas duas regiões.

É o que apontam os pesquisadores da Fazenda Experimental do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper), em Marilândia, iniciados há quatro anos. Em uma área de 2,5 hectares, com 8.000 pés de conilon, estão sendo avaliados itens como impactos do micro-terraceamento na espécie de café, impacto no solo e sua conservação, controle de erosão e os benefícios da técnica.

O engenheiro agrônomo e coordenador da Fazenda Experimental de Marilândia, Marcone Comerio, diz que o micro-terraceamento é uma grande aliada dos produtores no quesito mão de obra e que o momento agora é de divulgar entre eles.

“A questão da mão de obra é um grande limitador para os cafeicultores, e a mecanização ou semi- -mecanização proporcionada pelo micro-terraceamento veio para suprir. O mecanizado é sempre mais eficiente que o braçal, isso acaba reduzindo o custo do produtor. O trabalho nesse momento é de divulgação, mostrar as vantagens aos produtores”, salienta Comerio.

Após assistir a algumas reportagens na televisão e pesquisar na internet sobre o assunto, Amarildo Stefenoni, da comunidade de Sapucaia, zona rural do município, começou a experiência com micro-terraceamento em 2019. E desde o começo percebeu melhorias no trato com a lavoura. Com cerca de 150 ha de café plantados em área declivosa, Stefenoni, à medida que renova a lavoura, faz o micro-terraceamento da área, o que para ele é um caminho sem volta.

A reportagem da Conexão Safra testemunhou os primeiros testes na Fazenda Experimental do Incaper em Marilândia, em junho de 2018 (Foto: Leandro Fidelis/Arquivo Conexão Safra)

“Aqui na propriedade já temos em mente que jamais vamos renovar uma lavoura sem fazer o micro-terraceamento. Começamos a fazer, já entendemos a técnica, vimos que é viável e necessária. Dentro da nossa propriedade já é algo definido”, pontua o cafeicultor.

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O principal motivo para essa decisão, segundo Stefenoni, é a facilidade para trabalhar na área terraceada. Ele explica que em terrenos muito inclinados é sacrificante para o homem do campo e, mesmo que não esteja carregando peso, tem o risco de escorregar. Já com o micro-terraceamento, o risco de queda é menor. Para o cafeicultor, é cada dia mais necessária a busca de soluções para resolver a falta de mão de obra no campo, e o micro- -terraceamento é uma delas.

“O principal ponto positivo é você conseguir andar com tranquilidade dentro da área. Devido às dificuldades com a mão de obra rural, é natural a gente buscar esse tipo de tecnologia para facilitar a vida. Precisamos nos desdobrar para conseguir soluções, principalmente na nossa região que é muito montanhosa. Com o micro-terraceamento é possível andar tranquilamente, é mais confortável, o rendimento é maior e o risco de queda, menor”, esclarece.

O valor por hectare trabalhado é relativo. De acordo com Amarildo Stefenoni, fica em torno de R$ 1.500, dependendo dos obstáculos que a máquina possa encontrar no caminho, como tocos e murundus, declive, tipo de solo da propriedade e terra muito seca.

O cafeicultor Helyo Júnior Firmino da Silva (36), de Mantenópolis, já tem experiência com a técnica em uma lavoura de arábica. No Sítio Indaiazinho, Córrego Índaia, a 870m de altitude, cerca de 30 dos 200 hectares já estão terraceados. Com resultados satisfatórios da experiência no arábica, Júnior se prepara para plantar 70 ha de conilon com micro-terraceamento para colheita semi-mecanizada com a lona na Fazenda Nova, na comunidade Santa Luzia.

Segundo o produtor, o objetivo é mecanizar o máximo possível da lavoura. Quanto ao custo, Júnior diz ser preciso fazer a conta olhando a curto e longo prazo. Para ele, o que é caro agora vai se pagar e se tornar barato, uma vez que as áreas plantadas só crescem, e a mão de obra é cada vez mais escassa.

“As áreas de café estão crescendo a cada dia, e a tendência é crescer ainda mais, e a mão de obra ser cada vez menor. Por isso tem que se pensar a longo prazo, daqui dez, quinze anos. Vai ter gente para fazer agricultura de montanha? Não vai ter mão de obra para tocar essas lavouras, vamos precisar mecanizar”, destaca Júnior.

A técnica

Marcone esclarece que os micro-terraços são indicados para terrenos com inclinação de até 60% para que as máquinas operem com segurança. Já o espaçamento mais adequado entre linhas deve ser de 3 metros, podendo chegar até 3,5 metros.

O engenheiro explica ainda que no arábica é possível um espaçamento de até 2,5m entre linhas para fazer o terraço, enquanto no conilon, por se tratar de uma planta multicaule, o espaçamento deve ser de no mínimo 3 metros.

“Como é multicaule, o conilon é uma planta que abre um pouco mais. Deve ser de pelo menos três metros, três metros e vinte, mas tem produtor que trabalha até três metros e meio para facilitar ainda mais a mecanização por um longo período”.

Para compensar o aumento do espaçamento entre linhas, Marcone diz que a orientação aos produtores é fazer um adensamento de plantas na linha de 3,20m x 80cm ou 3,50m x 50cm, em vez de plantar 3 x 1, como normalmente é plantado o conilon.

O cafeicultor Amarildo Stefenoni (Foto: divulgação)

Resultados promissores

Além das vantagens relacionadas à mão de obra, após os quatro primeiros anos de avaliação do micro-terraceamento em lavoura de conilon já é possível fazer algumas afirmações positivas sobre o experimento. Entre elas, que o micro-terraço auxilia na mitigação dos efeitos adversos da época de seca.

“O terraço feito em curva de nível, construída de forma correta, ajuda na redução da erosão hídrica, perde-se menos solo e, com menos erosão, a água acaba ficando na lavoura, o que melhora a condição hídrica do solo. Podemos dizer que o microterraço auxilia na mitigação dos efeitos adversos da época de seca”, pontua Comério.

Sobre as plantas, o pesquisador diz que nenhuma alteração foi observada até o momento, comparando plantas que estão no terraço com outras que não estão. “A cultura do café tem um ciclo longo, é preciso mais tempo para avaliar, para afirmar com certeza, mas até o momento não notamos diferença entre desenvolvimento e produção onde tem e onde não tem. O desenvolvimento está sendo praticamente o mesmo, com a mesma produtividade”.

Já com relação ao solo, estão sendo avaliados porosidade, compactação e infiltração de água, porém, segundo Marcone, é pouco tempo ainda para observar alterações de um sistema para outro. “Continuamos avaliando para ter uma resposta. Precisamos de mais tempo, mais ciclos de produção, ciclos de chuva, períodos seco e úmido para ter informações concretas com análises estatísticas”, ressalta.

Parcerias

Para difundir a técnica entre os cafeicultores e auxiliar na sua implementação nas regiões produtoras de conilon, a Secretaria de Estado da Agricultura, Abastecimento (Seag) planeja ações, tanto de apoio técnico quanto para aquisição de equipamentos junto às prefeituras.

Segundo o secretário da pasta, Paulo Foletto, o micro-terraceamento, apesar de não ser uma novidade, chega em um momento salutar. Para ele, a técnica pode ser definitiva em uma crise de mão de obra. “Novidade é a gente trazer o micro-terraceamento para o conilon devido à dificuldade maior na mecanização. Como a questão da mão de obra passou a ser realmente um sério problema para nós no conilon, tudo que a gente puder avançar em pesquisa ou aplicação de técnicas já usadas em outras culturas ou no arábica é vantagem. A previsão é que o micro-terraceamento possa diminuir em trinta por cento a utilização de mão de obra, isso pode ser definitivo em uma crise de mão de obra, afirma Foletto.

Foto: divulgação

Ainda segundo o secretário, a Seag trabalha para consolidar algumas parcerias, dentro da política de fornecimento de equipamentos para prefeituras e assistência técnica. “As pesquisas iniciais são muito promissoras, por isso é que nós vamos montar orientação técnica e, dentro das possibilidades, adquirir equipamentos para poder ajudar e, através das prefeituras chegar nas associações e cooperativas”.

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