Agro e Geopolítica

Os reflexos do conflito Irã-Estados Unidos no agronegócio brasileiro

Conflito entre Irã e Estados Unidos pode gerar efeitos no agronegócio brasileiro, com impactos em fertilizantes, fretes e commodities

A escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã não é apenas mais um capítulo de instabilidade no Oriente Médio: trata-se de um episódio com efeitos econômicos e geopolíticos globais, inclusive para o agronegócio brasileiro. De acordo com a BBC News, a tensão envolvendo ataques e retaliações reacendeu temores sobre a segurança no estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado no mundo, um dado que, por si só, explica a imediata reação dos mercados internacionais.

O impacto não se limita ao petróleo. Segundo análises da Reuters, crises na região costumam pressionar preços de energia e gerar volatilidade cambial, fortalecendo o dólar em relação a moedas emergentes. Para o Brasil, isso representa uma equação ambígua: ao mesmo tempo em que encarece fertilizantes e combustíveis, insumos fundamentais ao agro, também aumenta a competitividade das commodities brasileiras no exterior.

O elemento novo nesse cenário é o papel do BRICS. Em 2024, o grupo passou a incluir países estratégicos do Oriente Médio, entre eles o próprio Irã, além de Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. O BRICS, que já reunia Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, tornou-se ainda mais heterogêneo, econômico e politicamente.

Essa heterogeneidade aparece agora. Enquanto Rússia e China adotam discurso crítico à escalada militar, defendendo negociações, países como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos mantêm relações estreitas com Washington. A Índia, por sua vez, equilibra interesses energéticos no Oriente Médio com parcerias estratégicas com os Estados Unidos. O bloco, que não é uma aliança militar, revela-se palco de divergências diplomáticas.

A China ocupa posição central. Como maior importadora global de energia e principal parceira comercial do Brasil, Pequim tem enfatizado, segundo a Reuters, a necessidade de estabilidade e solução diplomática. É improvável que adote alinhamento militar direto; sua prioridade tende a ser a proteção de rotas comerciais e o controle de impactos econômicos que possam afetar seu crescimento.

O Brasil, fiel à tradição de política externa voltada ao multilateralismo, tem defendido a resolução pacífica de controvérsias. Dados do Ministério da Agricultura mostram que o agronegócio representa parcela expressiva das exportações nacionais, o que explica a cautela brasileira: romper pontes comerciais em um ambiente polarizado poderia custar mercados estratégicos.

Ao mesmo tempo, surgem oportunidades claras, pois em momentos de crise países importadores buscam fornecedores estáveis de alimentos, e o Brasil pode reforçar sua imagem de parceiro confiável, ampliando exportações para Ásia e Oriente Médio. Mas, ainda assim, os receios permanecem, já que a alta nos fertilizantes, o aumento do diesel e a instabilidade cambial pressionam custos internos.

O conflito, portanto, testa não apenas a coesão do BRICS, mas a habilidade diplomática brasileira de navegar em um mundo multipolar. Para o agronegócio, mais do que escolher lados, o desafio será manter mercados abertos enquanto administra riscos crescentes.

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Sobre o autor Paula Cristiane Oliveira Braz *Paula Cristiane Oliveira Braz é administradora, especialista em Agronegócios, tutora dos cursos de pós-graduação na área de Agronegócios do Centro Universitário Internacional UNINTER. Ver mais conteúdos