Exportações

Do campo ao porto: como o risco no Estreito de Ormuz encarece o agronegócio brasileiro

O agronegócio brasileiro é um dos principais pilares da economia nacional, destacando-se pela elevada produtividade e relevância nas exportações

Foto: crédito Pexels

O agronegócio brasileiro é um dos principais pilares da economia nacional, destacando-se pela elevada produtividade e relevância nas exportações globais. No entanto, essa competitividade encontra um entrave estrutural persistente: o elevado custo logístico. Em um país de dimensões continentais, a eficiência no escoamento da produção é uma variável determinante para a formação de preços e para a capacidade de competir no mercado internacional.

Grande parte da produção agrícola brasileira está localizada no interior do país, especialmente na região Centro-Oeste, distante dos principais portos exportadores. Essa configuração impõe forte dependência do transporte rodoviário, historicamente mais oneroso e sujeito a instabilidades, como variações no preço do combustível e precariedade da infraestrutura. Como resultado, o custo de deslocamento até os portos impacta diretamente as margens do produtor, reduzindo sua capacidade de competir com países que possuem sistemas logísticos mais integrados e eficientes.

Esse cenário é agravado por fatores externos, especialmente as tensões geopolíticas envolvendo o Oriente Médio, com destaque para conflitos que envolvem Israel e a atuação dos Estados Unidos na região. A instabilidade no entorno do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas globais de transporte de petróleo, eleva o risco de interrupções no fluxo energético mundial. Como consequência, há pressão sobre os preços internacionais do petróleo, impactando diretamente o custo dos combustíveis.

Para o agronegócio brasileiro, fortemente dependente do modal rodoviário, essa elevação no preço do diesel intensifica ainda mais os custos logísticos internos. Assim, conflitos geopolíticos aparentemente distantes tornam-se variáveis econômicas relevantes, afetando a competitividade do setor de forma indireta, mas significativa.

Embora investimentos recentes em corredores logísticos alternativos, como ferrovias e hidrovias, tenham buscado mitigar esse problema, os avanços ainda são insuficientes frente à demanda crescente do setor. A concentração das exportações em portos das regiões Sul e Sudeste também contribui para gargalos operacionais, elevando custos e aumentando o tempo de escoamento, sobretudo em períodos de safra.

Além disso, a ineficiência logística não afeta apenas os custos diretos de transporte, mas também gera perdas indiretas, como desperdícios, atrasos contratuais e menor previsibilidade nas operações. Esses fatores comprometem a confiabilidade do Brasil como fornecedor internacional, aspecto cada vez mais relevante em um cenário de cadeias globais sensíveis a riscos e interrupções.

Nesse contexto, torna-se evidente que o custo logístico ultrapassa a dimensão operacional, tornando-se um fator estratégico na competitividade do agronegócio brasileiro. A superação desse desafio requer não apenas ampliação dos investimentos em infraestrutura, mas também maior integração entre modais de transporte e aprimoramento da gestão logística, além de maior atenção aos impactos de instabilidades geopolíticas internacionais. Sem esses avanços, o país continuará a enfrentar limitações que reduzem sua força no mercado externo, mesmo diante de sua reconhecida capacidade produtiva.

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Sobre o autor Paula Cristiane Oliveira Braz *Paula Cristiane Oliveira Braz é administradora, especialista em Agronegócios, tutora dos cursos de pós-graduação na área de Agronegócios do Centro Universitário Internacional UNINTER. Ver mais conteúdos