Anuário do Agro Capixaba

O fim do estigma do eucalipto

por Fernanda Zandonadi

em 03/03/2020 às 10h59

6 min de leitura

O fim do estigma do eucalipto

(Fotos: *Divulgação)


A silvicultura, ou o plantio de florestas, como o eucalipto e a seringueira, é uma atividade econômica de grande rentabilidade para produtores do Espírito Santo. A madeira é usada tanto em toras, para produção de celulose, quanto cercar propriedades, produção de móveis, carvão e lenha. O eucalipto é a grande estrela neste setor. A origem da planta mais comum aqui no Estado é Austrália e Sudeste Asiático, na Indonésia. Existem em torno de 700 espécies e, há cem anos, algumas espécies foram trazidas para o Estado. As que se adaptaram melhor foram o Eucalipto urofilia, o grandis e o saligna.

Além da adaptação natural das plantas, o melhoramento genético vem sendo feito há 40 anos no Espírito Santo. Se há quatro décadas produziam-se 40 metros cúbicos de madeira por hectare, hoje a produção chega a 50 metros cúbicos.

E se há alguns anos falava-se muito que o eucalipto era uma cultura predadora, que atingia e secava lençóis freáticos, sugando toda água existente no subsolo, hoje já é sabido e provado que as plantas presentes no Estado não causam danos ao meio ambiente.

“Há sim plantas de raízes profundas dentro das 700 espécies. Mas as que se adaptaram ao Espírito Santo, têm raízes que não ultrapassam os dois metros de profundidade ”, ressalta Pedro Galvêas, pesquisador da Embrapa e à disposição do Incaper, engenheiro agrônomo e mestre em genética de plantas.

“É preciso imaginar que todo negócio de madeira no mundo se resume a celulose e papel. Esse negócio é maior do que o mercado de turismo. São US$ 350 bilhões movimentados por ano neste mercado. O mercado de celulose, desde seu nascimento até hoje, foi dominado por países com o Canadá, EUA, Japão e Suécia. São países ricos do hemisfério norte ”.

# Fake News

O Brasil, segundo Galvêas, no final da década de 1960 começou a incomodar, produzindo a celulose de eucalipto bem mais barato do que os países mais ricos. Se por aqui a tonelada saía por US$ 200, nos outros países chegava aos US$ 800. “Então incomodamos o mercado internacional ”.

pube

Foi desse incômodo que nasceu o boato da desertificação, algo sem qualquer comprovação científica, diz Galvêas. “Para ter ideia, em Santa Teresa essa espécie tem sido usada para restaurar o solo degradado do café. Fazem um ciclo ou dois de eucalipto e depois, retornam à cultura cafeeira ”.


# Produção estável

A produção silvícola é considerada estável no Estado, mas a tendência, segundo Galvêas, é crescer, especialmente pelas mãos daqueles que não focam apenas na celulose. “As serrarias estão demandando muito essa madeira. Hoje, temos quase 300 serrarias no Espírito Santo, que usam 100% de toras de eucalipto. Essa madeira vira paletes, móveis, toras tratadas. Não se usa mais madeira de lei no Estado, quer dizer, o eucalipto ajudou a manter intacto o remanescente de Mata Atlântica em nosso Estado ”.

A tendência, para os próximos anos, é aumento da produção. “Teremos expansão da silvicultura para o sul do Espírito Santo, principalmente após a estrada de ferro que a Vale promete construir no Litoral Sul e com a duplicação da BR-101. Isso tudo vai viabilizar o transporte de madeira. Quer dizer, os municípios de Itapemirim, Presidente Kennedy, Mimoso do Sul, que são aptos para plantar eucalipto, mas têm como gargalo o transporte da madeira, poderão apostar nessa atividade ”.

Isso vai gerar aos produtores do Sul do Estado uma nova opção econômica, com lucro de aproximadamente R$ 1 mil ao ano por hectare. “E há a questão social. O plantio de eucalipto também gera trabalho no campo, já que demanda mais mão de obra do que a pastagem. Multiplica por dez o emprego e ainda auxilia na renda do homem do campo. É vantagem social, econômica e ambiental também.
Se temos uma área de floresta nativa no Estado que cresceu muito, foi por causa da disponibilidade de madeira de eucalipto para todos os usos ”, ressalta Galvêas.

Espírito Santo é o nono
maior produtor de tora
para celulose do país

A silvicultura no Espírito Santo atingiu o valor de produção de R$ 259,6 milhões em 2018, valor 4,7% maior que no ano anterior. Os dados são do IBGE.

A produção de madeira destinada ao mercado de papel e celulose foi a que gerou maior valor em 2018 na silvicultura, com participação de 45,1% e registrando R$ 117,0 milhões (crescimento de 9,5%). Houve aumento de 4,7% na produção de tora destinada a esta indústria. O Espírito Santo é o nono Estado com maior produção de tora para papel e celulose.

Segunda posição no valor da silvicultura, a produção de madeira em tora para outras finalidades representou 44,7% do total gerado pelo setor, somando R$ 115,9 milhões (valor 0,2% menor que no ano anterior). Houve aumento de 15% no volume produzido entre 2017 e 2018.

Já a produção de carvão vegetal da silvicultura no Espírito Santo, em 2018, apresentou uma redução de cerca de 25%, quando comparada à do ano anterior. O valor de produção diminuiu 0,4%, alcançando R$ 15,3 milhões em 2018.

A produção de lenha da silvicultura teve aumento de 9% e o valor de produção aumentou 10,2%, alcançando R$ 4,8 milhões em 2018 no Espírito Santo.

Já a resina, produto não madeireiro da silvicultura, apresentou crescimento de 25,8% no valor de produção e de 3,0% na quantidade produzida.


Produção de resina é opção de renda para
o produtor

A produção da goma resina de pinus ganhou as terras capixabas, por meio do Programa Pró-Resina. A ação promove a produção de Pinus, preferencialmente em consórcio com outras culturas, como cafezais ou áreas de pecuária em solos com declive acentuado e expostos à erosão. O objetivo é expandir a área de plantio de Pinus para cerca de 8 mil hectares em áreas ociosas ou degradadas. As primeiras florestas que foram exploradas ficam em Conceição do Castelo e Venda Nova do Imigrante.

Essa cultura dá origem à produção de goma-resina e madeira, ou seja, é uma alternativa de renda a seus produtores em paralelo à preservação do ambiente, pelo reflorestamento. Com a expansão da área plantada, o programa também viabiliza a implantação de uma unidade industrial de processamento de goma-resina no Espírito Santo. A coleta de resina é mensal e a planta produz por, em média, dez anos.



Esta matéria faz parte do Anuário do Agronegócio Capixaba,
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