Anuário do Agro Capixaba

Mulheres são 14% dos produtores rurais ocupados no ES

por Leandro Fidelis

em 06/03/2020 às 13h14

7 min de leitura

Mulheres são 14% dos produtores rurais ocupados no ES

O Incaper conta com 158 mulheres no quadro de servidores, o que corresponde a 28% do total. No Instituto, 25 mulheres ocupam cargos de chefia, o que equivale a 20% dos cargos disponíveis no Instituto.(Fotos: *Divulgação Incaper)


As mulheres do agro são 13,6% dos 357.258 produtores ocupados no Espírito Santo. Os resultados definitivos do Censo Agropecuário 2017 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam ainda que 86,3% dos produtores que dirigem o estabelecimento de agricultura familiar são do sexo masculino e 13,7%, do sexo feminino.

Apesar dos dados, autarquias ligadas à agropecuária do Estado não contam com informações mais detalhadas relativas à questão de gênero no campo. Por isso, vamos destacar dois programas em vigor focados no estímulo ao empreendedorismo, à autonomia e à liderança junto às mulheres do agro: o especial “Mulheres em Campo ”, realizado pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-ES), e o projeto novato “Elas no Campo e na Pesca ”, lançado em agosto pela Secretaria de Estado da Agricultura (Seag).

O programa “Mulheres em Campo ” reconhece que as mulheres superam desafios e aproveitam as oportunidades de crescimento pessoal e profissional, com a diferença que, no meio rural, elas ainda precisam de acesso ao conhecimento para contribuir mais com o sucesso das propriedades.

O Senar-ES criou o programa em 2014 (“Com Licença Vou à Luta ” foi o nome até 2016) para despertar o interesse pela gestão e, assim, ampliar o protagonismo feminino na administração das empresas rurais. O “Mulheres em Campo ” desenvolve competências de empreendedorismo e gestão, orienta na descoberta do potencial de cada participante e da propriedade, ensina a planejar e a transformar uma atividade em negócio.

Com carga horária total de 40 horas, divididas em cinco encontros de 8h e intervalo de uma semana entre eles, o programa propôs ampliar os conhecimentos das participantes sobre empreendedorismo, planejamento, custos de produção, indicadores de viabilidade e comercialização e desenvolvimento pessoal. Só este ano, já foram formadas seis turmas, num total de 90 mulheres.

Um dos resultados do programa foi a realização do 1º Encontro Elas no Agro Capixaba, no dia 13 de abril, durante a ExpoSul Rural em Cachoeiro de Itapemirim. Mais de 600 mulheres sindicalizadas, de norte a sul do Estado, participaram de palestra, roda de conversa e outros eventos, trocando informações e mostrando a força feminina no agronegócio.

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Elas no Campo e na Pesca

O objetivo do projeto é a estruturação de ações voltadas para a melhoria da qualidade de vida das mulheres que vivem no campo e que atuam em atividades pesqueiras. A expectativa é de que pelo menos 300 mulheres sejam beneficiadas com essas ações, cujo Grupo de Trabalho é formado por mulheres representantes de diversas instituições, além da Seag.

Uma das ideias é o Plano Estadual de Políticas para Mulheres do Espírito Santo (PEPMES), com o eixo central de enfrentamento à feminização da pobreza e a garantia da autonomia econômica das mulheres.

O programa “Elas no Campo e na Pesca ” pretende executar ações integradas até 2022, com a divulgação dos resultados, fomento a projetos, sensibilização da sociedade, produção de materiais audiovisuais e conteúdos midiáticos, construção de um banco de dados com as necessidades encontradas, capacitação de técnicos, realização de seminários e publicação de um livro mostrando os resultados do projeto.

Empreendedorismo com pó de café e biscoitos

A mulherada protagoniza duas iniciativas empreendedoras no agro capixaba. Em Muqui, o Núcleo Feminino da Cooperativa dos Cafeicultores do Sul do Espírito Santo (Cafesul) está à frente do “Póde Mulheres ”, primeiro blend de café 100% conilon especial feito por mulheres cooperativistas no Brasil.

O produto foi desenvolvido para valorizar o café e gerar renda para 20 mulheres. Além de gerar renda para o grupo, o “Póde Mulheres ” promove uma vida mais digna e feliz no campo. O sabor do café traz consigo reencontro com as raízes e resgate da autoestima de mulheres, dentre irmãs e filhas de cooperados e associadas. Na terra conhecida pelos barões do café e pelo casario majestoso do século passado, são as mulheres a escreverem a nova história da cafeicultura.

O grupo feminino foi formado em 2012. Dois anos depois, o foco escolhido foram os cafés especiais devido à identificação das participantes com a atividade. “Na roça, a mulher não tem oportunidade de fazer coisas diferentes. Por meio dos cursos, nossas mulheres passaram a frequentar mais a cooperativa. Isso trouxe mais união e foi animando iniciar a produção do café conilon feminino ”, destaca Natércia Bueno Vencioneck.

As donas do pedaço

Em Alfredo Chaves, a agroindústria “Hora do Recreio ” é outro negócio lucrativo com a participação delas. Um grupo de seis mulheres que já produzia pães, bolos e biscoitos para suas famílias resolveu tirar a produção de dentro de casa para comercializá-la em supermercados e padarias do município, Iconha, Vargem Alta, Rio Novo do Sul e Vitória.

O nome, em homenagem à comunidade, ficou bastante sugestivo, já que o grupo ocupa justamente o espaço físico da antiga escola e fornece produtos para a merenda escolar por meio das políticas públicas de comercialização, como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).

Todo esse trabalho melhorou, inclusive, a autoestima das mulheres de Recreio. “Antes a gente dependia do dinheiro dos maridos. Hoje, compra uma roupa melhor, compra batom, perfume… Eles ficaram um pouquinho enciumados porque estavam acostumados a ter a gente sempre em casa. Mas incentivam bastante a gente. É uma terapia, uma dá força pra outra”, diz Cecilia Tomazini Bergami, a “Cila ”, idealizadora e coordenadora do grupo.

Atualmente, as mulheres produzem biscoitos variados, como de polvilho, amido de milho, casadinho, de nata e fubá com coco, entre outros. Parte dos ingredientes como coco, limão, leite e maracujá são adquiridos nas propriedades do entorno. A produção da Hora do Recreio chega a 1.200 kg por mês.

“Nosso principal diferencial é que nossos biscoitos são assados no fogão a lenha. Mas o fato de ser um empreendimento tocado por mulheres e o fato de buscarmos matéria prima nas propriedades da região também atrai a atenção das pessoas. Antes a gente pedia doação de leite aos vizinhos. Hoje já conseguimos pagar ”, comemora a professora Maria Margaret Pessin.

Produtoras na Ceasa/ES

Na Ceasa/ES, em Cariacica, 2.700 produtores cadastrados são responsáveis pela comercialização e distribuição de alimentos diariamente. Desse total, 350 são mulheres, número que tende a aumentar.

Uma delas é Elizia Foesch Krause, produtora de Santa Maria de Jetibá, assim como a mãe, primas, tias e avós. Ela começou na agricultura trabalhando na lavoura, mas hoje comercializa os produtos da família na Central de Abastecimento.

Para ela, o segredo para ser bem-sucedida é amar o que faz. “Eu tenho orgulho de ser produtora rural e ajudar no sustento da minha família. Venho para cá, tenho o respeito dos meus colegas de trabalho, vendo os meus produtos e ganho o meu dinheiro ”, comentou.

Esta matéria faz parte do Anuário do Agronegócio Capixaba,
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