Anuário do Agronegócio capixaba 2025

Cachaça e turismo rural: a tradição que resiste, ensina e se reinventa

O turismo rural pode ser uma importante ferramenta para a preservação do método histórico e artesanal de produção de cachaça

Foto: divulgação

Em um anuário, celebramos conquistas e os aprendizados da jornada, reavaliamos rotas, projetamos caminhos. E, se o momento é de celebrar o agro capixaba, o ano que se encerra e aquele que se inicia, que o brinde seja especial – e, na nossa sugestão, com cachaça: não apenas pela tradição, mas porque esse destilado profundamente humano expressa a alma, a força e a história do nosso espaço rural. Do encontro entre cultura, identidade, trabalho e inovação, nasce o diálogo entre cachaça e turismo rural que trazemos nesta edição tão significativa.

Começando pelo começo: cachaça não é uma alternativa, sequer inferior, a destilados como whisky, whiskey, vodca, rum ou tequila, por exemplo; turismo rural não é uma atividade lúdica e exótica em comparação ao turismo, digamos, “convencional”. 

Cachaça é cachaça, nobre destilado brasileiro, Indicação Geográfica de abrangência nacional protegida pela legislação quanto a direitos de propriedade intelectual no âmbito da Organização Mundial do Comércio. Turismo rural é turismo rural, atividade carente de proteção legislativa adequada, embora há mais de vinte anos tecnicamente definido pelo Ministério do Turismo como “o conjunto de atividades turísticas desenvolvidas no meio rural, comprometido com a produção agropecuária, agregando valor a produtos e serviços, resgatando e promovendo o patrimônio cultural e natural da comunidade”. 

Desafios

Cachaça é símbolo da sofisticação cultural e da persistência de trabalho de um povo: “forte e suave, como toda pessoa deveria ser”, nas palavras de Maria Izabel que, há trinta anos, entre o verde da Mata Atlântica e a brisa suave da baía de Paraty (RJ), produz uma das cachaças mais apreciadas do país. 

Apesar da relevância histórica, econômica e cultural da cachaça, já apontada nas edições do Anuário da Cachaça do Ministério da Agricultura e Pecuária, os produtores contam principalmente com o apoio das tradicionais associações representativas do segmento. Essas entidades, linha de frente das trincheiras, sob o sol e a chuva, além de lutar contra a insegurança jurídica e os produtos clandestinos que deturpam a percepção do consumidor, buscam hoje alternativas coletivas para mitigar os impactos da reforma tributária. 

Nesse contexto, o turismo rural pode ser uma importante ferramenta para a preservação do método histórico e artesanal de produção de cachaça: cana-de-açúcar colhida sem queima, preparados de leveduras selvagens do próprio ambiente e uso de alambique de cobre. Todavia, em que pese existirem políticas públicas isoladas, projetos de lei em tramitação e atualizações pontuais na vigente lei geral de turismo, lamentavelmente, a ausência de legislação específica, adequada à complexidade da cadeia produtiva do turismo rural e capaz de estabelecer os parâmetros fundamentais de uma Política Nacional de Turismo Rural, agrava a invisibilidade jurídica dos empreendedores do segmento. Essa invisibilidade coloca obstáculos à construção de uma visão de futuro consistente e integrada – especialmente sobre como o turismo rural pode contribuir para a sustentabilidade (ambiental, econômica, social e cultural) e para a perenidade das diversas cadeias produtivas do complexo agroindustrial brasileiro, dentre elas, a cadeia produtiva da cachaça de alambique. 

Caminhos para a cachaça capixaba

Referência nacional na produção de cachaça e na arte da tanoaria, com uso experiente – inclusive tosta – de madeiras nacionais, e com reconhecido destaque para o município de São Roque do Canaã, os alambiques capixabas possuem, a partir das articulações institucionais público-privadas promovidas pelas Instâncias de Governança Regionais de Turismo (IGR’s) e da capacitação técnica de instituições parceiras, a oportunidade de liderar iniciativas de vanguarda na área de turismo de experiência.

Além de advogados e consultores jurídicos especializados em agronegócios e turismo rural, nós somos, com muito orgulho, respectivamente, Sergio e Renata, entusiasta e sommelier de cachaça. Temos grandes amigos e parceiros com brilhantes iniciativas em solo capixaba e, por respeito e carinho a cada um deles, pedimos licença para trazer de fora de nosso território duas iniciativas que podem inspirar a consolidação de produtos e serviços turísticos de experiência com as cachaças capixabas. 

O primeiro exemplo é o da Cachaça Maria Izabel: joia de alambique fluminense, cuja produção artesanal é realizada pelas mãos da própria Maria Izabel, em lotes limitados, com visitação turística de experiência em “pequenas doses” e somente mediante agendamento prévio. Uma proposta original e coerente com a história da família e com a preservação da encantadora vila, reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco por sua cultura caiçara e fantástica biodiversidade. 

O segundo exemplo vem do sertão do Piauí, extraído do portal on-line “Mapa da Cachaça”. Trata-se de um caso exitoso de sucessão rural familiar que impactou positivamente a fazenda e a própria cidade de Amarante: hospedagem rural, gastronomia típica e museus em casarões centenários são apenas alguns dos resultados da potencialização de toda cadeia produtiva gerada pelo turismo de experiência com a cachaça.

Ambas as experiências apontam que, onde há história, técnica, organização e respeito ao território, o turismo de experiência com cachaça se transforma em indutor de desenvolvimento sustentável. Esse potencial, sabemos, os alambiques capixabas têm de sobra. 

O que resiste e transforma

Entendemos que os alambiques artesanais representam um patrimônio cultural genuíno do espaço rural: múltiplas atividades produtivas familiares que, na transformação agroindustrial da cana-de-açúcar em cachaça, concentram fundamentos históricos, econômicos e sociais que ajudaram a formar nossa nação. A ausência de condições adequadas para sua continuidade pode comprometer empregos locais, estimular a migração para outras regiões, favorecer a descontinuidade do uso produtivo da terra e reduzir a presença da cachaça brasileira em um mercado cada vez mais disputado por rótulos estrangeiros. 

Mais do que produção e sessões de degustação, as atividades rurais e o turismo de experiência com cachaça, quando tecnicamente profissionais, institucionalmente organizados e juridicamente seguros, são veículos de preservação da história, de qualificação da percepção dos consumidores e de respeito à terra e às pessoas. 

Sonhar alto, olhos abertos e pés no chão. Um brinde à cachaça capixaba – e ao futuro que ela pode construir! 

Sergio Rodrigues Dias Filho e Renata Aparecida Lucas

Sócios do Dias Filho & Lucas, escritório de consultoria jurídica especializado em agronegócios e turismo rural. 

Mais informações em: contato@diasfilhoelucas.com.br

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