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Pequenas propriedades rurais podem gerar renda extra com óleos essenciais

Espírito Santo tem potencial para cultivo das espécies Candeia, Corymbia citriodora e Melaleuca Alternifolia

por Leandro Fidelis

em 06/01/2022 às 7h49

9 min de leitura

Pequenas propriedades rurais podem gerar renda extra com óleos essenciais

*Foto Reprodução Catraca Livre

Mostrar ao pequeno produtor novas alternativas para uso da terra e aumento da receita rural. É com esse objetivo que a Mutua de Assistência dos Profissionais do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES), com apoio do Instituto Ibramar, selecionou três espécies de árvores com potencial para extração de óleos essenciais no Estado e vem divulgando as respectivas tecnologias de produção para pequenas propriedades, com áreas entre 0,5 ha e 1 hectare. 

Uma das ações foi a live realizada em setembro com a palestra do engenheiro florestal e professor Laercio Couto, PhD pela Universidade de Toronto (Canadá) e consultor do Ibramar. Couto defende um projeto da produção à comercialização em torno da trilogia: Candeia, espécie nativa com incidência na região do Caparaó; e duas espécies exóticas originárias da Austrália, a Corymbia citriodora (antes conhecida como Eucalyptus citriodora) e a Melaleuca Alternifolia ou “Árvore do Chá”. 

As três plantas contam com manejo sustentável e podem gerar renda extra na propriedade, pois o mercado de óleos essenciais interno e externo está bem aquecido. Segundo o professor, um litro do óleo extraído da madeira da Candeia, conhecido como Álcool Alfa Bisabolol, pode custar até R$ 720,00 (média de R$ 72 cada 10 ml). A matéria-prima é valorizada pelas indústrias de cosméticos e de produtos naturais.

A ideia dos profissionais é iniciar um projeto piloto com 20 agricultores e multiplicar a iniciativa nos próximos anos. A agricultura familiar é forte no Espírito Santo em relação às outras unidades federativas do Brasil. O Estado conta com 108.010 estabelecimentos rurais, sendo 44% de pequenos produtores.

“É preciso relacionar essas pessoas com as instituições, que poderão auxiliá-los com as novas alternativas. O Espírito Santo tem a vantagem de ter entidades como o Incaper, isso é muito importante para o produtor rural escolher corretamente qual espécie vai utilizar como nova prática agrícola e florestal para aumentar sua receita anual”, avalia Laercio Couto.

Antes de iniciar a produção de óleos essenciais no Estado, o professor afirma ser necessário conhecer o território, os tipos climáticos, entre outras características fundamentais para o sucesso da atividade. “A escolha do óleo depende do clima, da precipitação e da geografia da propriedade. O Governo do Estado deveria iniciar um programa de produção de óleos essenciais, oferecendo recurso financeiro e assistência técnica, enquanto o Instituto Ibramar poderia ser o braço operacional desse programa, com treinamentos e assessoria técnica”, sugere Couto.

Corymbia citriodora. (*Foto: Revistadeagronegocios.com.br/Reprodução)

Extração da madeira e das folhas

A trilogia de árvores tem manejos distintos e múltiplas utilidades. Enquanto a Candeia, da família das Asteráceas, tem o óleo extraído da madeira de modo não-mecanizado, a Corymbia e a Melaleuca concentram o produto de valor agregado nas folhas. Em comum, as três espécies são utilizadas para revegetação de áreas, moirões de cerca tratados e desenvolvem grandes floradas, resultando em méis de excelente qualidade. A Melaleuca se destaca ainda pelo uso medicinal.

A Candeia foi verificada em regiões mais elevadas do Espírito Santo, a exemplo do Caparaó. A árvore de pequeno para médio porte é recomendada na proteção de nascentes e do solo e na preservação da biodiversidade, além de ser normalmente usada na produção de madeira para energia. De acordo com o professor Laercio, os estudos mais avançados sobre a espécie no Brasil foram realizados na Região das Vertentes, em Minas Gerais.

Para o especialista, o Espírito Santo deveria se espelhar na promoção do manejo sustentável das áreas nativas da Candeia que ocorreu em Minas e teve um capixaba à frente, o ex-reitor da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e engenheiro florestal José Roberto Scolforo. O profissional montou uma equipe de trabalho e contou com apoio de instituições de pesquisa e assessoria rural mineiras para execução do projeto para recolher madeira e destilar o óleo essencial.

“O produtor pode atuar individualmente ou na forma de associações. O Instituto Ibramar tem condições de assessorar todos os produtores rurais capixabas”, diz Laercio.

No caso de iniciar povoamento de Candeia, é necessário coletar sementes ou comprá-las e, em seguida, preparar as mudas ou adquiri-las em viveiros. Uma empresa de Minas comercializa as mudas. E uma técnica já conhecida na cafeicultura capixaba é proposta para as áreas inclinadas: o micro-terraceamento. Mas em área plana, atesta o professor, basta simplesmente preparar a área com espaçamento 3×1, enquanto nas mais acidentadas, 6×1, ambas com adubação na cova. A desrama ocorre a partir dos dois anos e o desbaste, entre oito e dez anos. Já a rotação final acontece aos 12 anos para a madeira ser destilada. 

A Candeia pode ser adaptada inclusive ao sistema silvipastoril, opção tecnológica de Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (ILPF). Em outros casos de plantios adensados, é possível implantar o sistema silviagrícola e cultivar alguma outra cultura e criar ovelhas entre as fileiras das árvores, por exemplo.

A colheita da Candeia geralmente é feita com motosserra. A transformação da madeira em cavaco pode ser realizada em campo ou no pátio da destilaria. Os cavacos são colocados na dorna e passam por arraste de vapor de água para extração do óleo essencial. Depois de separado, o líquido é decantado, esfriado e armazenado. Uma empresa de Bauru (SP) produz destiladores do tamanho adequado para os produtores rurais produzirem o Álcool Alfa Bisabolol.

Já o manejo da Corymbia citriodora, da família do eucalipto, também não é mecanizado. No entanto, ao contrário da Candeia, a espécie de pequeno porte tem óleo essencial extraído das folhas, colhidas no campo. Segundo Laercio Couto, existe um zoneamento ecológico para plantio no Espírito Santo, que deverá ser atualizado.

Para produção do óleo essencial, corta-se a árvore com nove a 12 meses, restringindo à produção de folhas para a extração do óleo. “A colheita ainda é rudimentar, com uso de podões, foices e facões, mas pode ser tornar mais moderna, inclusive copiando sistemas mecanizados usados na Austrália. Ainda queremos atingir esse nível em grandes áreas no Brasil”, explica o professor. 

A Corymbia conta também com mais facilidade na obtenção de mudas e sementes de excelente qualidade, com várias empresas no Brasil, principalmente no Vale do Jequitinhonha (MG).

Plantas como a Candeia contam com manejo sustentável e podem gerar renda extra na propriedade (*Foto: Sitiodamata.com.br/Reprodução)

Melaleuca: produção de 8t/ano em 1 ha adensado

Os índios aborígenes australianos foram os descobridores das propriedades terapêuticas da Melaleuca Alternifolia. Sempre usaram as folhas da espécie, conhecida no mercado internacional como “Tea Tree” ou “Árvore do Chá”, na produção de chás medicinais. 

Na comparação com outras plantas da trilogia recomendada ao Espírito Santo, a folha destilada da Melaleuca tem apenas 2% de óleo essencial (na Corymbia, o percentual médio é de 1,5% de óleo na folha). “Pequeno volume e grande valor”, ressalta o consultor do Ibramar. 

Porém, consegue-se produzir 8 toneladas de folhas por ano em área de 1 hectare adensado, que pode possuir lençol freático superficial.

“A muda é plantada numa parte mais alta e a água fica entre esses canteiros. Bastam pequenas áreas na propriedade, caso de brejos e outros espaços não aproveitados, para cultivar Melaleuca”, completa.

Além do óleo essencial, é possível produzir madeira e mel a partir da Melaleuca. Mas é preciso atenção ao comprar sementes e mudas da espécie, alerta o professor. A semente é pequena e torna difícil produzir mudas, a não ser que seja um viveirista bem treinado.

“É bom saber se as sementes são originárias de matrizes com teor adequado do óleo da Melaleuca. Algumas árvores/indivíduos costumam ter teor de óleo menor e se aproxima mais do óleo do eucalipto, sem valor comercial. O vendedor deve assegurar que o material genético vai produzir o tipo de óleo desejado pelo mercado”. 

Para os produtores acessarem mercados internacionais, Laércio sugere a criação de associações, com radar de exportação “para serem procurados quando tiverem qualidade, porque a demanda é grande”. Além disso, o mercado nacional se interessa mais por quem tem marca própria.

O diretor presidente do Instituto Ibramar, Claudio Antonio Leal, destaca que a Melaleuca tem participação expressiva na indústria de cosméticos e casas de produtos naturais. “O óleo essencial tem uma ação antimicrobiana muito forte e é utilizado para vários produtos de tratamento de dermatite e também maquiagens. E o Brasil praticamente importa toda essa produção”.

Unidade é referência na região serrana 

Em conjunto com o professor Laercio Couto e outros profissionais, o Instituto Ibramar, com sede em Vitória, elaborou o “Projeto Melaleuca”, tendo como unidade de referência áreas de pesquisa da entidade na localidade de Tijuco Preto (Domingos Martins) e em Venda Nova do Imigrante, ambos na região serrana do Estado. O projeto busca subsídio na parceria público-privado e também foi encaminhado ao presidente do Crea-ES. 

O objetivo é fomentar a tecnologia no ciclo de produção do óleo essencial da Melaleuca e disseminá-la entre produtores rurais para o desenvolvimento sustentável da atividade no Espírito Santo. Outra ideia, segundo Leal, é implantar um laboratório, visando garantir a qualidade do óleo.

“A proposta é agregar valor, não só plantar, e difundir todo um pacote tecnológico desde a produção da muda, a extração do óleo, as análises laboratoriais e o transporte”, diz o diretor presidente do Ibramar.

Por se tratar de uma árvore arbustiva e de grande rusticidade, a colheita da Melaleuca ocorre a cada oito meses. Uma questão relevante para os pequenos produtores é a possibilidade de cultivo consorciado com outras culturas como milho e feijão.

“Vai ter vantagem com a produção de óleos essenciais quem conseguir quebrar um pouco a resistência com o que desconhece”, analisa Claudio Leal. 

O viveiro em funcionamento em Tijuco Preto tem mudas de Melaleuca e Corymbia para quem deseja começar o plantio. Também faz parte dos planos do Instituto Ibramar a assessoria rural para tornar as Montanhas Capixabas polo da produção de óleos essenciais. Além da trilogia de espécies com potencial no Estado, a entidade pretende trabalhar com óleos cítricos e de lavanda.

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