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Um estudo publicado na revista científica Environmental Geochemistry and Health revelou níveis elevados de metais potencialmente tóxicos em solos agrícolas do estuário do Rio Doce, em áreas impactadas pelos rejeitos do rompimento da barragem de Fundão, ocorrido em 5 de novembro de 2015. A pesquisa, intitulada Dos rejeitos às mesas: avaliação de risco de elementos potencialmente tóxicos em culturas comestíveis cultivadas em solos impactados por rejeitos de mineração, identificou concentrações acima dos limites da FAO de cádmio, cromo, cobre, níquel e chumbo em culturas como cacau, mandioca e banana.
O trabalho foi realizado em 2021 por uma equipe interdisciplinar de pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), com financiamento da Fapesp e da Fapes, por meio do projeto Rede Solos e Bentos Rio Doce.
Segundo o professor Angelo Bernardino, do Departamento de Oceanografia da Ufes e coautor do estudo, os resultados acendem um sinal de alerta:
“A quantidade de metais detectada em solos agrícolas excede os valores de referência internacionais, o que levanta preocupação quanto à segurança alimentar a partir do consumo de produtos cultivados próximos à foz do Rio Doce.”
Risco maior para crianças
As análises mostraram potencial risco não cancerígeno para crianças que consomem bananas cultivadas na região. Entre os elementos avaliados, o chumbo apresentou o maior risco, enquanto os índices para adultos permaneceram abaixo dos limiares de preocupação.
A pesquisadora da USP Tamires Patrícia de Souza, coautora do estudo, destaca que a exposição crônica ao chumbo é especialmente perigosa na infância:
“O chumbo causa danos neurológicos irreversíveis, como redução do QI, déficits de atenção e alterações comportamentais. Crianças de zero a seis anos absorvem mais chumbo que adultos, o que exige medidas urgentes de monitoramento e intervenções de saúde pública.”
Os pesquisadores recomendam a ampliação das amostras ao longo do Rio Doce para compreender melhor o alcance da contaminação. Ainda assim, os resultados já indicam riscos potenciais à saúde quando há consumo contínuo de alimentos cultivados em solos impactados.
Impactos persistentes dez anos após o desastre
A líder do estudo, Amanda Ferreira, da Esalq/USP, explica que os resultados reforçam evidências anteriores sobre a biodisponibilidade de metais tóxicos na região estuarina.
“Os dados mostram que os impactos do rompimento da barragem de Mariana são crônicos e continuam afetando o meio ambiente e as comunidades locais”, afirmou.
A pesquisadora foi reconhecida nacionalmente por suas contribuições científicas, recebendo o Prêmio USP de Tese 2025, na área de Sustentabilidade Ambiental, e o Prêmio Capes de Tese 2025, em Ciências Agrárias. Sua tese, Iron biochemistry in mine tailing impacted soils: from risk assessment to enhanced bioremediation strategies, investigou a biogeoquímica do ferro em solos contaminados e propôs estratégias de biorremediação para reduzir os riscos à saúde e ao ambiente.
Monitoramento contínuo e políticas públicas
O estudo integra um conjunto de pesquisas da Rede Solos e Bentos Rio Doce, que busca compreender os efeitos ambientais e sociais do rompimento da barragem da Samarco Mineração S/A. Passados dez anos do desastre, os pesquisadores reforçam a necessidade de políticas públicas integradas de monitoramento, segurança alimentar e saúde coletiva, especialmente voltadas às comunidades rurais e ribeirinhas do Espírito Santo e de Minas Gerais.





